Cada uma a sua maneira, Portela, Salgueiro e Beija-Flor confirmaram que segunda-feira é o dia mais forte na Marquês de Sapucaí. As três escolas fizeram desfiles de grande impacto discursivo e visual, assim como a Mangueira apresentara no domingo. As quatro escolas, que juntas colecionam 63 títulos, devem estar presentes no sábado das campeãs, quando voltam as seis mais bem pontuadas pelos jurados.

O encontro entre a Portela – a mais longeva escola do Grupo Especial (fundada em 1923) e atual campeã (junto com a Mocidade) – e Rosa Magalhães, a mais premiada (tem sete troféus) e mais experiente carnavalesca em atividade, resultou em um desfile impecável, finalizado aos gritos de “bicampeã” vindos das arquibancadas.

O apuro estético, o perfeccionismo e o cuidado com os detalhes da “professora”, que tem mais de 40 carnavais no currículo, aliaram-se à garra e tradição da comunidade portelense, que exortou o público a bradar seu refrão: “Lá vem Portela/ é melhor se segurar”.

Sempre uma potência, o Salgueiro tingiu a avenida de vermelho em um desfile emocionante e coeso, fortemente marcado por sua ligação com a herança africana na cultura brasileira. A escola saudou as “senhoras do ventre do mundo”, divindades que, segundo as crenças apresentadas, são matriarcas negras que deram origem a toda a humanidade. Passou embalada por um samba que pegou como poucos na Sapucaí e definiu: “Salgueiro é sinônimo de negritude”.

A Beija-Flor, que a cada ano se supera nos quesitos luxo e imponência, fez um desfile atípico. Crítica das mazelas brasileiras, a apresentação em alguns momentos remeteu o público que acompanha carnaval ao histórico “Ratos e urubus, larguem minha fantasia” (1989), do carnavalesco Joãosinho Trinta (1933-2011) – este tratava de luxo, lixo, pobreza e festa e até hoje é um dos mais lembrados da história do sambódromo.

A escola fez um paralelo entre o Frankenstein, de Mary Shelley, personagem que está completando 200 anos, e os “monstros nacionais”: a corrupção, as agressões à natureza, o uso indevido de impostos, as disparidades sociais. A teatralização excessiva cansou.

Fábio Grellet e Roberta Pennafort
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