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‘Pessoas se mobilizam contra aids ou câncer, mas não pela falta de água’, diz Matt Damon

FABRÍCIO LOBEL

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Ajudar a prover acesso à água e ao saneamento a todas as pessoas no mundo. Essa é a meta do projeto Water.org, fundado pelo ator Matt Damon e o engenheiro Garry White, que concederam entrevista por telefone à reportagem, na semana do Dia Mundial da água (22 de março).

A base do projeto é financiar o acesso à água limpa por meio de microcréditos a determinadas comunidades a preços razoáveis. Segundo a Ong, a média dos empréstimos para desenvolvimento de projetos é de U$ 325 e a taxa de pagamento é de 99%.

Em atuação em 14 países, o Water.org, segundo cálculos próprios, teria ajudado 10 milhões de pessoas, 6 milhões delas só na Índia. A organização chegou faz pouco tempo no Brasil e tem um convênio firmado com um banco local de microcrédito em Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

A ideia agora é avançar para o Maranhão e em cinco anos atingir 5 milhões de pessoas no país, que ainda enfrentam grandes gargalos no acesso à água e esgoto .Atualmente, o projeto está em campanha mundial com a marca de cerveja Stella Artois.

Na compra de um cálice com a marca da cerveja, ao custo de R$ 29,90, a empresa repassa ao projeto US$ 3,13 que seriam capazes de financiar o acesso à água a uma família inteira durante cinco anos.

Confira abaixo trechos da entrevista.

Pergunta – A Water.org diz ter como objetivo dar acesso à água a todas as pessoas do mundo. O quanto isso é possível? Não é uma meta muito ambiciosa?

Matt Damon  – Nós realmente acreditamos que a água pode ser levada a todos no mundo. E nós planejamos chegar a este ponto no espaço de tempo de uma vida. Obviamente é uma meta ambiciosa. Mas a solução do crédito pela água é promissor. Achamos que podemos nos engajar com as comunidades ao redor do mundo para mudarmos algo ainda no período das nossas vidas. As crises hídricas recentes nas megalópoles mundiais como Los Angeles, São Paulo e recentemente Cidade do Cabo ajudam a fazer com que a população das cidades pensem sobre o problema de acesso à água no mundo? Eu espero que sim. Para muitos de nós, é distante a ideia de que alguém possa não ter acesso a água limpa, já que a maioria das pessoas no ocidente têm. Então, quando esse problema chega ao debate público talvez ajude a alertar sobre a magnitude do problema.

Você é uma pessoa muito famosa. Ainda assim, por que é tão difícil tornar o acesso à água um assunto recorrente entre as pessoas?

Damon  – Quando se fala sobre câncer ou Aids e sobre levantar fundos para pesquisas médicas, todo mundo consegue se identificar com esses problemas. Todos conhecem um amigo ou familiar que foi atingido por uma dessas doenças. Mas a falta de acesso à água limpa não é exatamente algo que esteja no nosso radar. Inicialmente, é difícil alertar as pessoas sobre essa questão, e depois também é difícil mantê-las comprometidas e interessadas com a causa do jeito que ela merece. Por isso que campanhas publicitárias como essas são tão importantes.

Quando o acesso à água se tornou uma questão para vocês?

Damon  – Em 2006, eu comecei a me envolver com situações de extrema pobreza no mundo. E conforme eu me envolvia com o tema, comecei a aprender sobre o acesso à água e saneamento. E  fiquei chocado com a dimensão desse problema e como o assunto não era debatido nos Estado Unidos. E é um assunto muito complexo. Eu aprendo algo novo sobre o tema toda hora. E eu passei a ler sobre isso, pensar sobre isso, falar sobre isso.

Gary White – Eu estava na graduação quando fiz uma viagem para a Guatemala e vi esse tipo de crise em primeira pessoa. E vi como os problemas de saneamento afetavam a vida das crianças. De volta da viagem, passei a pesquisar academicamente sobre novas formas criativas para ajudar a solucionar o problema, como a oferta de empréstimos a baixo custo.

A campanha transfere para o projeto de vocês US$ 3,13 e diz que isso pode render até cinco anos de acesso a água para uma família. Como apenas esse valor pode render tanta água?

White – A base do projeto é o microfinanciamento para que as comunidades encontrem suas próprias soluções para o acesso à água. Então, nós pegamos esses dólares e multiplicamos eles.  O que acontece é que usamos o dinheiro inicial de filantropia que nós recebemos para acessar as instituições de microfinanciamento e conseguirmos os empréstimos a baixo custo para as comunidades. No Brasil, nós estamos fazendo isso. Nós usamos cerca de US$ 20 milhões de capital filantrópico para alcançarmos US$ 700 milhões em pequenos empréstimos. Então nós usamos a filantropia como uma faísca, um grande motor financeiro muito eficiente que permite a aquisição de pequenos empréstimos e o fornecimento de água.

Para quais fins os empréstimos são usados especificamente?

Damon – O sistema é bem diferente de apenas perfurar um poço. É usar diferentes métodos para que as pessoas tenham acesso ao recurso que elas precisam. E elas escolhem o que funciona para elas. Muitos projetos que têm apenas uma proposta de solução para esse tipo de problema acabam fracassando, pois muitas vezes operam de maneira paternalista. Pois as soluções são providas em vez de observar o que as comunidades desejam ou querem. A nossa ideia é tratá-las como clientes e dar a eles a dignidade e empoderá-los para que tomem as melhores decisões para o caso específico deles.

Gary White – Recentemente eu estava no Peru e vi que muitas vezes as pessoas tinham tubulações de água passando por suas casas. Tudo o que eles tinham que fazer era conectar-se à rede e pagar uma taxa de ligação. A rede já estava lá, mas as pessoas simplesmente não podiam pagar pela taxa para se conectar. Então, eu conheci uma mulher que pegou o empréstimo apenas para pagar essa taxa. Agora, ela tem uma torneira dentro de casa e ela consegue ter acesso a toda água que ela precisa. Mas antes disso, ela pagava para um distribuidor que vendia a água num caminhão-pipa e ainda tinha que carregar os baldes até a casa dela. Ela pagava 13 vezes mais por essa água do que ela paga agora pelo que sai da torneira. Então, os benefícios podem ser mais amplos do que o simples acesso a água. Você pode ter mais dinheiro para manter os filhos na escola ou coisas assim.

Damon – Quando uma comunidade de repente começa a ter acesso à água, a vida das pessoas mudam. Se você é uma garota cujo trabalho é coletar água para a sua família, basicamente isso significa que você não estará na escola. Significa que as expectativas que você terá sobre a sua vida são limitadas. Quando isso muda, você pode voltar à escola, ter sonhos de carreira e não ser apenas uma buscadora de água para a família.

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