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Poeta Shophia de Mello Breyner Andresen é redescoberta no Brasil

MAURÍCIO MEIRELES E MARCO AURÉLIO CANÔNICO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Sophia de Mello Breyner Andresen ia para o jardim de sua avó, colhia camélias no inverno e rosas na primavera. Havia sempre uma jarra grande cheia delas, perto da janela do seu quarto. Quando anoitecia, desfolhava as flores e as mastigava.

‘No fundo, era a tentativa de captar qualquer coisa a que só posso chamar a alegria do universo, qualquer coisa que floresce‘, dizia.

Embora seja uma das maiores poetas lusitanas -ela ganhou o Prêmio Camões em 1999-, os leitores deste lado de cá do Atlântico não deram muita atenção para Sophia. Uma antologia, organizada por Vilma Arêas, havia saído em 2004, ano da morte da autora, e está esgotada.

Agora, surgem novas oportunidades de conhecer a sua obra. Chega às livrarias ‘Coral e Outros Poemas‘, antologia organizada por Eucanaã Ferraz que cobre toda a produção da autora, incluindo versos póstumos.

Além disso, a Tinta da China lança, até o fim do ano, a poesia completa de Sophia. E a 7Letras publica, em breve, uma coletânea de ensaios sobre ela, organizada por Paola Poma, professora de literatura portuguesa da USP.

O máximo de popularidade que a poeta havia alcançado no Brasil, até agora, foi quando Maria Bethânia gravou o disco ‘Mar de Sophia‘ (2006), inspirado pelos versos dela -um álbum cheio de ondas, espuma, corais e peixes, como a poesia da homenageada.

‘A poesia dela tira o sono, faz voar, tudo isso. A filha dela disse [uma vez]: ’Venha, venha conhecer mamãe’, mas não tive perna para ir, ela é muito grande‘, diz a cantora.

SUBSTANTIVOS

A natureza -e o mar, mais do que tudo- cruza a obra de Sophia do começo ao fim. É uma poeta em que o tom elevado está em contraste com a escrita enxuta, muito clara, cheia de substantivos concretos -estilo que a torna uma autora acessível para quem não é leitor habitual de versos.

‘Sophia extrai [esse tom] do ritmo. Não é do vocabulário nem das imagens. É como se o poema dançasse, mas uma dança ritual. O andamento é encantatório‘, diz Eucanaã Ferraz.

‘Além de ela não ter sido divulgada [no Brasil], acho que há até um preconceito de críticos por ela vir de uma família aristocrática. E também de se acreditar que a poesia boa é a do conflito. Sophia faz a defesa de uma poesia que é mais positiva, em vez de uma poesia da dissolução‘, afirma Paola Poma.

Não é de estranhar a oposição que Sophia traça entre sua obra e a de Fernando Pessoa.

Aristocráticos os Andresen são mesmo. O sobrenome da poeta vem do avô dinamarquês, Jan Henrik, que enriqueceu no Porto com transporte marítimo e vinhos.

A família também viveu no entorno da corte -outro antepassado, Tomás de Mello Breyner, foi porta-bandeira de dom Pedro 4º.

Seu primeiro contato com a poesia foi graças a uma criada da família. Para que não passasse vergonha em uma festa de Natal, onde alguns primos iam declamar, ela fez a menina decorar a ‘Nau Catarineta‘, de Almeida Garret.

‘Ouvia um soneto de Camões e do Antero e dava-me a sensação de um palácio extraordinário. O de Camões era de vidro, ou de cristal, brilhante, o de Antero era mais sombrio‘, disse em entrevista ao Jornal de Letras, em 1991.

Foram 15 livros que Sophia publicou até morrer, em 2004, começando com ‘Da Poesia‘ (1944), cuja edição foi bancada pelo pai. Está lá a influência grega, a mistura de cristianismo e paganismo -e também a política.

Sophia foi uma forte opositora do salazarismo. Em um poema, chama Salazar de ‘o velho abutre‘. E, na Revolução dos Cravos, em 1974, as pessoas carregavam cartazes com uma frase criada por ela: ‘A poesia está na rua‘.

‘O mundo solar e harmonioso [na poesia dela] aparece ameaçado por monstros. Nunca ficou claro que monstros eram esses, mas paulatinamente isso vai ganhando um sentido político‘, diz Eucanaã Ferraz.

Sophia foi próxima de muitos intelectuais brasileiros, como Manuel Bandeira e Murilo Mendes. ‘Era uma aristocrata perfeita. E tinha uma visão comoventemente afetuosa das coisas e das criaturas‘, afirma o historiador Alberto da Costa e Silva, que foi embaixador do Brasil em Portugal nos anos 1980.

Teve um diálogo próximo, até pelas características das duas obras, com João Cabral de Melo Neto. Um dos livros na antologia, ‘O Cristo Cigano‘, é essencialmente cabralino.

Os dois se conheceram em Sevilha, em 1958, e o poeta da faca só lâmina admirou-se de ver a quantidade de substantivos concretos nos versos de Sophia.

Uma história que ela contou em seu discurso do Camões ilustra bem essa característica. Viajava, certa vez, de ônibus e via que a janela pela qual observava a paisagem às vezes coincidia com as janelas das casas. Disse ter intuído ali o mistério da poesia:

‘Pensei que talvez fosse isso: as palavras às vezes coincidem com os seus significados, e depois deixam de coincidir, e voltam a coincidir outra vez.‘

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