Rio de Janeiro

Vaquinha para proteger o celular: mais barata que seguro, mas tem riscos

Nos últimos cinco anos, na comparação do período entre janeiro e agosto, o número de roubos de aparelho celular no estado do Rio de Janeiro saltou de 3.455 para 17.397, de acordo com dados do Instituto de Segurança Pública (ISP). Uma pesquisa recente do Mobile Time/Opinion Box constatou que 49% dos brasileiros tiveram o celular roubado ou furtado ao menos uma vez. Como consequência, a procura por proteção para os aparelhos aumentou e surgiram empresas que oferecem novas modalidades do serviço, com preços mais baixos que seguros tradicionais mas, também, com mais riscos.

A Pier Digital, por exemplo, é um modelo de compartilhamento de risco para proteção de smartphones. Para participar, é necessário receber convite de amigo ou solicitar entrada no grupo, que tem cerca de 800 pessoas. Apenas 60% das solicitações são aprovadas, após avaliação de perfil. O valor é pago como uma assinatura e pode ser cancelado a qualquer momento. Tanto no plano de reembolso de 80% do celular, quanto no de 100%, a mensalidade pode variar até 20%, para mais ou para menos, de acordo com volume do fundo, dependendo da quantidade de pessoas roubadas no período anterior. Apesar de não cobrir danos, o contrato engloba roubo, furto qualificado e simples, que não costuma ser contemplado em planos tradicionais. A ideia se assemelha com o formato de cooperativas mas, um dos fundadores da startup, Lucas Prado, rebate:

— Os membros recebem relatório de transparência e trabalhamos com quatro níveis de solvência, que são acima do ideal, normal, atenção e crítico. Nesse último, reembolsos estão comprometidos.

Atualmente, o risco de a empresa quebrar é de 4,5%. Nesse caso, todo o dinheiro da comunidade será devolvido para usuários ativos, na proporção de pagamentos já realizados, segundo o empreendedor. O cálculo de frequência de ocorrências é feito com base em dados das secretarias de segurança de vários estados. Hoje, a previsão é de 6.25% reembolsos para 6 meses. Em contrapartida ao risco, além do baixo preço, é possível segurar aparelhos comprados no exterior e sem nota fiscal.

Maior cobertura e agilidade para reembolso após roubo

Depoimento: Beethoven medeiros. Agente de aeroporto, 27 anos

“Infelizmente, quem mora no Rio de Janeiro e possui um aparelho celular caro não pode deixar de contratar um seguro. Há algum tempo, eu fui furtado e entrei em contato com a seguradora. Eles pediram muitos documentos, colocam vários empecilhos para aprovar o reembolso e, no fim, não consegui o dinheiro de volta porque não houve violência.

Quando comprei outro smartphone, optei por fazer a assinatura da Pier, pelo processo simplificado e pela maneira com a qual eles tratam os clientes. As seguradoras sempre parecem não querer reembolsar! A segurança que a empresa me passou prevaleceu sobre o fato de ser uma startup e sobre o risco de o negócio quebrar. Além disso, eles são muito transparentes: todos os meses, informam um balanço geral de como está a comunidade e, caso você se sinta ameaçado, pode sair sem problemas.

No mês passado, fui roubado de novo, próximo de casa. Levaram o aparelho, cartões, bilhete único. Como essa já foi a terceira vez que me aconteceu, tirei de letra. Fui na delegacia, fiz o boletim de ocorrência, acionei a empresa com o documento e informei o bloqueio do IMEI. Já imaginava que ia ficar pelo menos dois sem aparelho, até comprar outro, quando veio a surpresa: em 20 minutos estava com o dinheiro do reembolso na minha conta, sem nenhuma burocracia. Fui atendido pelo facebook de forma solícita e, no mesmo dia, comprei outro celular à vista.”

Riscos e custo-benefício

Professor de economia do IBMEC-RJ, Filipe Pires, analisou contratos da Porto Seguro e da Pier Digital para descobrir o custo-benefício. Segundo ele, é preciso ler com cuidado as cláusulas para não deixar de receber por uma situação não inclusa e colocar na balança a robustez da empresa para saber se há riscos de não receber.

— A pessoa tem que escolher se prefere pagar mais para ter um seguro contra roubo mais efetivo, ou ter uma cobertura mais restrita, pagando menos e sem risco de falência da empresa. Essa decisão é bem difícil, porque é como comparar banana e tomate — explicou Pires.

Pelo lado econômico, o primeiro cálculo a ser feito é o valor de reembolso, cuja fórmula é o valor de compra, menos o de depreciação, menos a quantia paga como franquia, ou seja, o percentual que deve-se pagar na hora de acionar o seguro. Depois, pode-se calcular o saldo final, que é resultado da subtração entre o valor de reembolso e o valor pago em parcelas até a data da ocorrência. Até o sexto mês de contratação, o seguro da Pier tem saldo líquido maior que o da Porto Seguro. No nono mês, o saldo de ambos é equivalente. Já no décimo segundo, a situação se inverte.

Susep terá postura mais agressiva

A Superintendência de Seguros Privados (Susep), que é responsável por regular e fiscalizar seguradoras, também atua no combate ao mercado marginal, como o de automóveis e o internacional. A partir da próxima segunda-feira (15), o órgão terá uma postura mais agressiva, divulgando em seu site não só a lista de empresas autorizadas para funcionarem, mas também uma relação de instituições autuadas.

Segundo o diretor de Supervisão de Conduta da Susep, Carlos de Paula, mesmo que a palavra ‘seguro’ seja omitida na hora de vender um negócio, se a atividade se caracterizar como tal, configura crime. A partir de então, o órgão entra com recurso no Ministério Público Federal, seguido de processo administrativo e ação civil pública.

— Apesar do mercado fazer manobras para fugir da fiscalização, configura seguro a promessa de reposição de bem, o risco de ocorrência do evento, a aleatoriedade e o pagamento efetuado por terceiro — explicou o diretor.

Paula ainda alerta que, por não terem que responder a nenhum órgão superior, empresas sem registro na Susep podem atrair consumidores e não cumprir o prometido quando acionadas, enquanto seguradoras têm longo processo de acompanhamento.

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