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‘Tito e os Pássaros’ mostra que animação não é só desenhinho

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FOLHAPRESS – Tenha medo não, tenha medo não. Os versos são de Caetanos Veloso, imortalizados na voz de Elis Regina –mas parecem escorrer a todo instante pelo filme “Tito e os Pássaros”.

Antes de falar do terror petrificante que congela os personagens da animação, que estreia nesta quinta (14), vale um parêntese: a produção é mais um sopro de frescor no cinema nacional, vindo de um setor que vem mostrando que animação é muito mais do que só desenhinho para crianças.

Talvez o principal exemplo recente seja “O Menino e o Mundo”, de Alê Abreu, indicada ao Oscar de 2016. “Tito e os Pássaros” é agora a bola da vez.

O longa esteve na pré-lista de indicados ao Oscar deste ano, mas não foi à seleção final. Também concorreu como melhor filme independente no Annie, principal prêmio de animação -o japonês “Mirai” levou o troféu na categoria.

Figurinha carimbada em festivais mundo afora, “Tito e os Pássaros” traz esse frescor principalmente em duas frentes. Primeiro na estética experimental, que foge das arestas arredondadas e da computação gráfica exagerada e bonitinha.

Ao contrário. A produção tem cores que se equilibram entre o sonho e o pesadelo, com toques sombrios que muitas vezes produzem desconforto, e personagens que mantêm uma expressão cansada e até baixo-astral, em que se sobressaem as olheiras sob os olhos fundos.

O clima é finalizado com um cenário que parece ter sido feito à mão. À volta, é possível diferenciar pinceladas, áreas desfocadas, objetos que se unem e se separam como se fossem compostos por tinta fresca.

A segunda frente de vitalidade é o roteiro. Na história, o garoto do título luta contra uma epidemia misteriosa que encurva e paralisa as pessoas até que elas se transformem em pedra.

Então logo surge uma cultura do medo, uma histeria coletiva que impede todos de saírem às ruas, uma hipocondria sedenta por pílulas que nos livrem de todo o mal, uma vontade de morar em redomas de vidro. 

Contra isso, Tito tem a ideia de reconstruir uma antiga máquina inventada por seu pai, capaz de decodificar a língua dos pássaros, uma espécie de antídoto natural contra o tal surto. O problema é que o homem abandonou a casa depois que esse mesmo aparelho gerou um acidente -e a mãe de Tito não quer ver a engenhoca nem pintada de ouro.

Tirando uma ou outra mensagem pronta e requentada, que deixam a impressão de que os criadores do filme forçaram a barra em sua mensagem encorajadora, a trama tem um grande acerto: tudo gira em torno de um sentimento disseminado, de um medo cada vez mais presente no mundo real, o que faz com que a metáfora se torne poderosa. 

Tanto que, se assistida no Brasil, a história pode ter pontes com os discursos do governo Bolsonaro ou com os toques de recolher impostos por milícias e traficantes. Nos Estados Unidos, com o muro de Trump. Na Europa, com a questão dos refugiados ou com o brexit.

Diferentes leituras, mas geralmente com a mesma conclusão: uma ode ao pensamento crítico contra as respostas fáceis, o populismo desenfreado e a desumanização da sociedade.

Algo que também aparece de alguma forma em “Não Tenha Medo”, de Caetano com Elis, que canta: “nada é pior do que tudo que você já tem no seu coração mudo”.

TITO E OS PÁSSAROS

Classificação: Livre

Elenco: Denise Fraga, Matheus Nachtergaele, Mateus Solano

Produção: Brasil, 2018

Direção: Gabriel Bitar, André Catoto e Gustavo Steinberg

Avaliação: muito bom

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