Rio de Janeiro

Passageiros de carro fuzilado no Rio relatam rajada já com veículo parado

Passageiros de carro fuzilado no Rio relatam rajada já com veículo parado

Sobreviventes do carro fuzilado por militares do Exército em Guadalupe, no último domingo (7), contaram ao Fantástico detalhes inéditos sobre o crime que matou o músico Evaldo dos Santos Rosa, de 51 anos. Entre outros detalhes, eles contam que o carro estava em baixa velocidade quando começou a ser atingido, e que foi alvejado mesmo parado.

Militares dispararam ao menos 83 vezes contra o carro em que estava Evaldo e sua família, segundo peritos da Delegacia de Homicídios. Cinco pessoas estavam no carro e iam para um chá de bebê. A mulher de Evaldo, Luciana, o filho do casal, de 7 anos, e Michele, amiga de Luciana, não se feriram.

Sérgio Gonçalves de Araújo, padrasto da mulher de Evaldo, foi baleado nos glúteos e seu quadro é estável. Durante a reportagem do Fantástico, ele mostrou uma carteira rasgada pelos tiros que o atingiram. Ele estava no banco de carona do veículo alvejado. Um pedestre identificado como Luciano, que passava no local, também ficou ferido ao tentar ajudar. Ele está em coma e corre risco de morrer.

“Quando a gente adentrou na estrada em que estava o Exército, aí foi quando o Exército começou a metralhar a gente e ele foi o primeiro que morreu no meu ombro, na primeira rajada de tiros…A gente não tem muita reação, só tentar reanimar porque ele estava no volante, tentando reanimar ele batendo na cara dele…o carro perdeu a noção. Eu tinha que conseguir parar o carro porque não estava em alta velocidade, puxei o freio de mão, desliguei o carro e o tiro comendo…”, contou Sérgio.

Michele, a outra sobrevivente, revelou mais detalhes sobre o momento dos disparos: “Quando a gente parou, os tiros cessaram. Foi na hora que ela (Luciana) teve a reação de abrir a porta do carro e a gente saiu”.

Mas, logo depois, uma nova rajada de tiros foi efetuada. “Veio um morador da área ali e foi tentar socorrer o meu genro. Quando ele bateu na porta que eu abri aí começou de novo a rajada de tiro…me escondi debaixo do painel do carro. Foi aonde alvejou aqui atrás, nas minhas costas, de raspão”, comentou Sérgio. Nesse momento, Luciano, o morador da região que tentou ajudar, também acabou sendo atingido.

“Pararam na segunda rajada, depois de bastante tiro, aí foi que eu percebi que estava baleado. Eu abri a porta e saí correndo”, acrescentou Sérgio.

“Os tiros que pegaram no padrasto da Luciana, o Sérgio, e no morador que foi tentar ajudar foi depois que a gente saiu, a gente já tinha saído do carro”, explicou Michelle.

Um vídeo mostra o momento em que os militares disparam os últimos tiros. Nas imagens é possível ver Luciano se aproximando do carro. Logo depois, ele aparece caído no chão. Luciano foi atingido por três tiros de fuzil. Uma das balas perfurou um dos pulmões. As outras duas feriram o ombro e o braço.

No vídeo é possível ver também quatro militares se aproximando de Luciano, que continua deitado no chão. Depois, a mulher de Evaldo aparece chegando perto do veículo depois que os tiros cessaram. “Destruiu a minha família, destruiu meu sorriso, destruiu a minha força de viver, destruiu a minha autoestima, estou sem chão”, lamenta Luciana.

“A gente nunca pensa que isso vai acontecer com a gente. E segundo, jamais vindo das Forças Armadas, principalmente do Exército Brasileiro, que é pra proteger a gente”, diz Sérgio.

Depoimentos dos militares

O Fantástico teve acesso aos depoimentos prestados pelos militares. Eles disseram ter sido alertados de que um assalto teria ocorrido perto da área militar de Deodoro e que, logo depois, criminosos armados passaram atirando contra eles. Os bandidos estavam num carro branco e conseguiram fugir.

Vários militares confirmaram nos depoimentos que perderam o carro de vista e que atiraram quando voltaram a ver um veículo branco. Doze militares foram indiciados, nove tiveram a prisão preventiva decretada a pedido do procurador Luciano Gorrilhas, do Ministério Público Militar.

O Ministério da Defesa enviou uma nota informando que “os militares investigados se encontram à disposição da justiça militar da união, pertencente ao poder judiciário, a quem cabe manifestar-se sobre a sequência do processo penal em andamento”.

O advogado João Tancredo, que representa a família de Evaldo, afirma que, uma semana após a morte do Evaldo, consegue identificar etapas que seriam necessárias pra investigação sendo descumpridas.

“A primeira foi a da perícia. Foi imediata. Primeiro que mexeram muito no corpo. os próprios militares mexeram. Depois chegaram policiais do Exército à paisana e fizeram a mesma coisa, mexeram no corpo do Evaldo também. Então, você altera a cena do crime. Isso foi informado para a Polícia Civil que fez imediatamente um laudo. A policia do exercito não fez nada. Não teve perícia, não teve nada. Quem isolou o local foi um cunhado do Evaldo que é militar para garantir uma investigação adequada”, disse ele.

Um pesquisador da Human Rights Watch ouvido pelo programa também afirma que é preciso investigar porque militares do Exército estavam procurando um carro de ladrões. “Isso não é a missão das Forças Armadas”, diz César Muñoz.

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