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Flávia Boggio (quinta 23/05)

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Crônica de gelo e sono

Cheguei ao ponto de criar a Tradicional Noite na Winterfell Paulista

Flávia Boggio

Roteirista de séries de ficção e do núcleo de humor da Globo, escreveu para programas como o ‘Lady Night’

Segunda-feira. Saí de casa usando fones de ouvido como se fossem escudos. Fugi dos amigos como se evitasse um exército de mortos-vivos. Me isolei do mundo virtual como um corvo de três olhos. A última coisa que queria ouvir era alguém falando sobre o fatídico final de “Game of Thrones”.

Não que eu faça parte do grupo de pessoas que nunca assistiu à série. Mas comecei como quem não quer nada. Vi o anúncio em um ponto de ônibus e comprei a caixa de DVDs na 2001 Vídeo. Oito anos atrás, ainda existia DVD. E fazia sentido comprar uma caixa de DVDs. Nem preciso falar o que aconteceu com a 2001 Vídeo.

Assisti ao piloto. Interessante. Passei para o segundo episódio. Que gancho. Fim da temporada. Meu Deus, eles decapitaram o protagonista! Quando me dei conta, estava lendo todos os livros lançados. Montando organogramas para entender dinâmicas. Participando de fóruns na Inglaterra para desvendar mistérios.

Cheguei ao ponto de criar a Tradicional Noite na Winterfell Paulista. Um grande encontro –três pessoas, na verdade– para assistir ao final de cada temporada. Vestida com um colete felpudo preto, servia linguiças de javali e vinho em uma taça dourada. Sim, era ridículo. Mas o que é a vida sem passar ridículo?

Assim foi por oito temporadas, dois presidentes e duas Copas do Mundo. Pessoalmente, passei por cinco empregos, um divórcio e um segundo casamento. Este último só se concretizou porque meu marido é nerd e fã de “Game of Thrones”. Claro que outros fatores contribuíram. Quais? Não me lembro.

Domingo foi o dia da 8ª Tradicional Noite na Winterfell Paulista. Vesti meu colete felpudo preto e preparei as linguiças de javali. Vi, pela última vez Daenerys, o exército de imaculados, o pequeno Tyrion e, quando me dei conta, eram 2h. Estava estatelada no sofá, com minha taça dourada cheia e a sensação de que perdi o Réveillon.

Lá estava eu, no dia seguinte, evitando contato humano como o povo de Westeros temia o inverno. Medo de spoilers? Antes fosse. Estava fugindo da lembrança de que, ao longo das oito temporadas, também fiquei mais velha. Hoje não consigo mais passar das 22h30 sem cair no sono.

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