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Em novo livro, autor imagina encontro de João Gilberto e Novos Baianos

Gabigol descarta empolgação na reta final de temporada. 

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Imagina só esse encontro. João Gilberto, com sua voz baixinha, visita os Novos Baianos no famoso sítio do grupo, o Cantinho do Vovô, no Rio de Janeiro. E fica lá, num transe canábico: bim, bom, bim, bim, bom, bim, bom, bim, bim, bom. Um sujeito olha a cena e acha aquilo chatíssimo. Chato de tirar a cueca pela cabeça, diz só para si.

É assim que o escritor Sérgio Rodrigues imagina o lendário encontro entre o criador da bossa nova e a trupe formada por bichos-grilos como Baby, Pepeu e Moraes Moreira –este, aliás, fica num canto balbuciando “marimbondo, marimbondinho”.

A cena está em “A Visita de João Gilberto aos Novos Baianos”, novo livro do escritor. Dividida em lado A e lado B, a edição é um volume de contos com textos publicados em revistas ou na internet, além de alguns inéditos.

São pequenos experimentos formais. Quer dizer, ao falar em experimento, o leitor pode pensar logo em um escritor de fraque e cartola. Melhor seria dizer brincadeiras formais –quase todos os contos são bem-humorados.

Aquele que dá título ao livro, por exemplo, tem um narrador chapado. Sua atenção flutua, se apega a pequenos detalhes. João Gilberto está em pessoa na sua frente, mas o doidão vê a luz que bate nos óculos do cantor, ricocheteia na buganvília do portão e “vai chispar lá longe”.

“Sempre tentei conciliar duas coisas que parecem inconciliáveis, que são o rigor com a linguagem, identificado com a altíssima literatura, e o prazer de contar uma história, trabalhar com o enredo e a surpresa, identificados com a baixa literatura”, diz Rodrigues.

No lado B, há uma pequena história que inverte a narrativa policial, escrita como um depoimento.

Um sujeito sueco tem uma academia. Seu funcionário falta, e ele começa a ligar para pessoas a fim de oferecer promoções. Alguém atende, ouve e fica mudo. Mais à frente, ele vê a notícia de um famoso escritor que morreu e reconhece o nome. Era uma das pessoas para quem telefonou. Cuidado, spoiler: o literato empacotou ao ouvir, no telefone, que era da Academia Sueca –só por acaso, o mesmo nome da instituição que concede o Nobel de literatura.

“Não tenho dúvidas que ‘Dom Quixote’ virou um sucesso porque as pessoas estavam interessadas nas peripécias, nas aventuras. A maioria nem deve ter percebido que tinha uma construção rigorosíssima”, afirma o escritor.

Há muita metalinguagem no livro. Um conto brinca com as histórias que começam “in media res”, jargão para narrativas que começam com a cronologia já avançada –um recurso tão antigo que já estava na “Odisseia”, de Homero.

Outro traz um poeta que deixa de escrever ao saber de um fotógrafo que retrata todo dia a manhã vista de sua janela, no mesmo horário. Mesmo tirada do mesmo ângulo, a foto é sempre diferente. Já o poeta, ao tentar fazer o mesmo de sua janela, escreve “manhã”. No dia seguinte “manhã”. Depois, “manhã” de novo. A palavra é sempre a mesma.

Muito da metalinguagem é usada para fazer troça da vida literária. “É um campo rico para a sátira, porque ela é cheia de situações ridículas, personagens ridículos, com vaidades imensas e desmesuradas.”

O livro traz ainda um folhetim que Rodrigues publicou durante a Copa de 2014, no jornal Le Monde, “Jules Rimet, Meu Amor”, sobre o roubo do troféu que o Brasil conquistou na Copa do Mundo de 1970.

“Essa novela ficou pronta antes da Copa. Não sabia que vinha um 7 a 1, mas ele foi de certa forma um prenúncio do que veio em seguida. O Brasil está preso no 7 a 1 até hoje, como se os alemães não parassem de fazer gol. Deve estar 250 a 1.”

O roubo, diz o protagonista, revela tanto sobre o Brasil quanto a conquista da taça. “Inferno e céu. Uma coisa precisa da outra, do contrário a imagem do país fica incompleta. Como menos com mais dá menos, fica matematicamente provado que não temos salvação!”

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