Africa

Pequenos produtores dizem que preço baixo do café pode eliminar sabores únicos

Por Marcelo Teixeira

CAMPINAS (Reuters) – Pequenos cafeicultores de países onde a produção ainda é em grande parte artesanal e o café é um produto de subsistência estão procurando maneiras para escapar da atual crise de preços, afirmando que uma falha na tentativa de garantir melhores rendas eventualmente extinguirá sabores únicos de café.

A crescente produção global de café nos últimos anos, em parte por conta da maior produtividade em países que usam maquinário e irrigação, levaram os preços do café a mínimas de mais de uma década, fazendo com que produtores de menor escala –mas com maiores custos de produção– enfrentem dificuldades para lucrar.

Como levar sustentabilidade econômica a esses cafeicultores gerou discussões no 2º Fórum Mundial de Produtores de Café, no Brasil, com discordâncias a respeito da ideia de que um aumento na produtividade ajudaria na sobrevivência de tais agricultores.

“Um sapato não vai calçar todo mundo”, disse Samuel Kamau, diretor-executivo da Associação Africana de Cafés Finos, referindo-se à apresentação do economista Jeffrey Sachs no fórum, que indicava que uma maior produtividade seria a chave para menores produtores.

“Nunca seremos capazes de competir com o Brasil em termos de volume. Temos diferentes sistemas de cultivo, diferentes topografias, diferentes cafés”, disse ele, acrescentando que a indústria deveria reconhecer a situação e oferecer preços diferentes para cada origem.

“Se não obtivermos melhores preços, a indústria arriscará perder alguns dos sabores únicos que os produtores africanos podem oferecer”, afirmou Kamau.

O colombiano Nelson Camilo Melo Maya, que comanda a SPP Global, organização internacional que representa agricultores de pequena escala, disse que a maior parte do café mundial ainda é produzida por pequenos agricultores, apesar do crescente número de grandes fazendas.

“Dizer que não há futuro se eles não forem suficientemente eficientes para competir com os maiores produtores do mundo é relativo. Pequenos produtores podem ser eficientes em suas próprias maneiras, e podem ter um futuro no café”, disse ele.

Além dos preços dos prêmios, esses produtores também estão avaliando opções como as vendas diretas, usando novas plataformas de comércio eletrônico e uma maior interação com consumidores finais, para captarem uma maior parcela das receitas de vendas.

Aman Adinew, presidente-executivo da produtora de café etíope Metad, sugere um movimento mais radical, com definição de preços mínimos, uma ação semelhante à que produtores africanos de cacau estão buscando junto à indústria de chocolate.

“Um preço mínimo é necessário. Exportadores competem uns com os outros, levando os preços para baixo. Precisamos evitar isso”, afirmou.

Nenhuma solução é fácil, acrescentou Adinew, mas o fato de que os problemas estão sendo abertamente discutidos no fórum é algo positivo, podendo chamar a atenção da indústria e ajudar na melhoria dos preços.

(Reportagem de Marcelo Teixeira)

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