Asia

ANÁLISE-Produtores de trigo da Argentina miram safra recorde; mau tempo afeta rivais

Por Hugh Bronstein e Karl Plume

BUENOS AIRES/CHICAGO (Reuters) – Os produtores de trigo da Argentina estão se preparando para uma colheita recorde, enquanto seus rivais globais veem suas perspectivas de produtividade em queda, em meio às enchentes nos Estados Unidos, à onda de calor na Europa e à seca na Austrália.

A abundância do grão no sexto maior exportador mundial de trigo irá impulsionar o país sul-americano nos mercados globais, enquanto as receitas provenientes do cereal, cujo fluxo de exportação vai se iniciar na virada do ano, deve beneficar quem quer que vença as eleições presidenciais de outubro.

“O trigo será dinheiro em nossos bolsos em dezembro”, disse Francisco Santillan, agricultor na cidade rural de Pergamino, que deverá ter uma grande safra.

As bolsas de grãos e analistas do país projetam uma colheita de cerca de 21 milhões a 22 milhões de toneladas, superando o recorde de 19 milhões de toneladas da temporada anterior. O plantio está quase completo e foi auxiliado pelo bom clima.

Enquanto isso, os rivais mundiais despencam.

O Conselho Internacional de Grãos (IGC, na sigla em inglês) reduziu na quinta-feira sua estimativa para a produção de trigo global em 2019/20 em 6 milhões de toneladas, um reflexo das perspectivas de queda nas safras de áreas como Rússia, Europa e Canadá.

O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) também diminuiu suas estimativas para as produções de Austrália, Ucrânia, União Europeia e Rússia –esta, a principal fornecedora mundial. Além disso, uma expedição nesta semana por lavouras na Dakota do Norte, segundo maior Estado produtor de trigo dos EUA e principal produtor do grão de primavera, encontrou perspectivas de rendimentos abaixo da média.

“A situação do mercado global deve, pelo segundo ano consecutivo, alavancar a Argentina, com o trigo de plantio adiantado nos EUA sofrendo com problemas climáticos e a Europa em meio a uma onda de calor”, disse Gustavo López, chefe da consultoria Agritrend.

“O superávit exportável desta temporada, destinado para o Norte da África, Sudeste da Ásia, Brasil e outros locais na América Latina, deve ser tão grande quanto –se não maior que– o da Austrália, onde a produção está sofrendo com uma seca”, afirmou López.

Com o agravamento dos problemas do trigo ao redor do mundo, os contratos futuros do cereal em Chicago, valor de referência, avançaram quase 23% em maio e junho, no maior ganho bimestral em quatro anos, antes de recuarem em julho.

BONS PREÇOS

A parcela global da Argentina nas exportações de trigo deve crescer para 7,7% na temporada 2019/20, uma máxima de oito anos, segundo dados do USDA. A Rússia, por sua vez, verá sua fatia atingir uma mínima de três anos, enquanto a Austrália terá seu segundo pior nível em 12 anos.

A Argentina, que consome cerca de 6 milhões de toneladas de trigo domesticamente, parece ser a grande vencedora na situação, e isso ainda pode melhorar, com a manutenção de um panorama de clima favorável.

“As expectativas atuais para a safra devem ser atingidas ou superadas”, disse o climatologista Eduardo Sierra, de Buenos Aires.

Os agricultores também deverão ter a possibilidade de exigir bons preços.

A safra argentina de 2018/19 registrou produtividade recorde para o trigo, atingindo 200 dólares por tonelada, nível mais rentável na última década, disse Pablo Adreani, chefe da consultoria local AgriPac. Agora, o preço ronda os 215 dólares por tonelada.

“Com este cenário, as semeaduras 2019/20 vão avançar em pelo menos 500 mil hectares ante 2018/19, com a produção total podendo atingir os 23 milhões de toneladas”, acrescentou Adreani.

Os produtores argentinos já plantaram 96,4% dos 6,6 milhões de hectares esperados para o trigo neste ano, de acordo com a Bolsa de Grãos de Buenos Aires, contra 6,2 milhões de hectares plantados há uma temporada.

A Bolsa de Grãos de Rosário espera um plantio ainda maior para 2019/20, com uma área de cerca de 6,9 milhões de hectares.

“E esperamos rendimentos melhores, o que deve resultar em uma safra de cerca de 21 milhões de toneladas”, disse Emilce Terre, analista-chefe da bolsa de Rosário.

“O trigo argentino está entrando em mercados além do Brasil, que continua sendo nosso parceiro estratégico histórico. Esperamos obter acesso a outros mercados latino-americanos, além da África e do Sudeste da Ásia.”

(Reportagem de Hugh Bronstein e Karl Plume)

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