Crimes

Em região controlada pela milícia, desenhos de Bispo do Rosário são revelados

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Em 22 de dezembro de 1938, o faz-tudo, ex-marinheiro e ex-boxeador Arthur Bispo do Rosário surtou. Saiu andando pelas ruas do Rio de Janeiro e anunciou aos monges do mosteiro de São Bento, no bairro de Botafogo, que tinha vindo para julgar os vivos e os mortos. 

Depois de receber um diagnóstico que o apontava como portador de esquizofrenia paranoide, ele foi 

internado no ano seguinte na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, zona oeste da capital fluminense.

Ali ficaria por cinco décadas –com algumas raras saídas–, até sua morte, 30 anos atrás.

Sua missão no pavilhão de número dez, onde convivia com cerca de cem internos, não era simples. Ele tinha de catalogar todas as coisas do mundo, dizendo seguir as vozes que martelavam em sua cabeça.

Daí ter costurado, construído e montado cerca de mil mantos, faixas, estandartes e objetos variados com o material que encontrava pelos cantos e no lixo do instituto, além daquilo que conseguia com os administradores do manicômio.

As obras ainda estão lá em Jacarepaguá, num museu que leva seu nome e que hoje tomou o prédio da administração da antiga colônia –espaço que, por sinal, ainda funciona. Dos 6.000 doentes mentais, classificados como psicopatas, esquizofrênicos, alcoólatras, drogados, doidos, anormais e indesejados que já viveram ali no passado, o instituto hoje abriga seus derradeiros 150 pacientes.

O Museu Bispo do Rosário, que é vinculado à Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, não mantém uma exposição permanente. Mas duas serão abertas neste mês, em São Paulo e no Rio.

Nos últimos anos, a região tem passado por mudanças profundas. A Colônia Juliano Moreira tem sete quilômetros quadrados, quase duas vezes a área de Copacabana. De cenário bucólico, no passado era abastecida por um aqueduto que descia de uma cachoeira próxima. Mansões da antiga fazenda Engenho Novo, desapropriada pelo governo federal em 1912, passaram a servir de pavilhões para a colônia.

Hoje, quase todos estão caindo aos pedaços. Mas um deles, por exemplo, se transformou, pelas mãos da prefeitura, numa creche para atender uma nova população que chegava com a construção de 1.400 apartamentos do Minha Casa Minha Vida.

A milícia logo apareceu. Hoje, cobra proteção de pequenos comerciantes, taxa dos moradores e vende terrenos que não possui para quem quiser construir. O aqueduto, por exemplo, tem casas ao seu redor que não estavam ali há dois ou três anos.

“Administrações passadas já propuseram levar o museu para o centro do Rio, onde poderia ter melhor conservação e exposição. Mas nós entendemos que a obra do Bispo foi construída num manicômio, e é assim que deve ser vista, como uma memória do sistema psiquiátrico que já tivemos. Se não, estaríamos desvirtuando”, diz o diretor artístico do museu, Ricardo Resende.

O espaço vem buscando parcerias do setor privado ao longo dos últimos anos, já que a prefeitura paga os salários dos funcionários e não dá nenhuma verba ao museu. No total, entre 2013 e 2018, o museu recebeu R$ 2 milhões de parcerias, licenciamentos, editais e verbas de leis de incentivo. 

Um dos novos apoiadores a injetar verbas ali, a Fundação Marcos Amaro destinou à instituição cerca de R$ 500 mil, para a adequação da reserva técnica, onde ficam guardadas as obras de Bispo, melhorias do espaço museográfico, onde se realizam exposições, e a restauração do pavilhão onde Bispo criou seus trabalhos e morou até o fim de sua vida.

Destes, os dois primeiros já foram realizados e a reforma deverá ficar pronta em um ano. A ideia é transformar o pavilhão num lugar de vivência para os visitantes. 

“Manteremos as características das celas, a pintura descascada em alguns lugares e o clima pesado do lugar, ao mesmo tempo que as pessoas poderão conhecer o local onde ele viveu e como criava”, diz Raquel Fernandes, diretora do museu.

Ela mostra, na antiga cela do artista, desenhos e inscrições recém-descobertos. Traços feitos a lápis, por exemplo, esboçam um navio. Estavam encobertos por três camadas de tinta. “Vamos revelar tudo no restauro”, afirma Fernandes.

Com dinheiro próprio, que vem do empréstimo de peças para outros museus, o instituto fez a desinfestação de todo o material. No ano passado, foram construídas duas gigantescas bolhas de plástico –dentro delas, puseram as obras do acervo e então substituíram o oxigênio por nitrogênio. Depois de 45 dias, as peças estavam livres de cupins ou fungos.

A catalogação de tudo está sendo bancada pela galeria Almeida e Dale, que nos últimos meses vem comprando casas rivais para formar um grande conglomerado no mercado. Já foram feitas 6.000 fotografias e está sendo preparado o catálogo raisonné do artista, um livro que lista todas as suas obras conhecidas, com descrições e fotografias.

“Como não é possível ao mercado de arte ter acesso ao Bispo, essa ligação em forma de apoio ao museu é boa para os dois lados”, diz Resende. Ele esclarece que interesse do mercado há, e muito. “Em 2014, uma das maiores galerias do mundo propôs comprar quatro peças em troca de construir o museu que a gente quisesse aqui. Mas não vendemos.”

O fato é que as obras de Bispo do Rosário não podem ser vendidas. São públicas. Em primeiro lugar, quando morreu, em 1989, ele não tinha herdeiros nem família conhecida, e suas criações foram feitas numa colônia federal (a municipalização aconteceu em 2000), que passou a ter a guarda delas.

Depois, em 1992, a administração do lugar fez com que as obras fossem tombadas pelo Instituto Estadual do Patrimônio Artístico e Cultural, Inepac. Um novo tombamento, desta vez em nível federal, foi concedido há um ano pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan.

Mesmo que mais ou menos blindadas da voracidade do mercado, as obras de Bispo do Rosário não deixam de circular debaixo do nariz dos colecionadores. Marcos Amaro, empresário, herdeiro do fundador da antiga TAM e dono de uma galeria comercial paulistana e de um museu privado em Itu, no interior paulista, é o homem por trás das recentes benfeitorias ao museu carioca.

Em contrapartida, vai poder mostrar em seu museu ao longo de um ano algumas obras-primas do artista, além de turbinar seu prestígio aos olhos de eventuais clientes para outras peças. Os laços vão além –Ricardo Resende, do museu de Bispo, também trabalha para a Kogan Amaro, galeria do empresário nos Jardins.

Isso, no entanto, não significa que possa haver mantos e outras peças de Bispo por aí. As exceções podem ser contadas nos dedos. Nos anos 1980, uma estagiária de saúde mental criou um vínculo com o paciente esquizofrênico. Ele deu duas obras a ela, as únicas de que se sabe, já que ele tinha enorme ciúmes das peças.

Em 2013, uma faixa para a Miss Rio de Janeiro, bordada por ele, foi roubada de um museu em Lisboa. E, dez anos antes, meia dúzia de peças foi surrupiada quando uma exposição itinerante voltava ao Rio.

Fora essas, as outras mil continuam ali, em Jacarepaguá.

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