Mensagem de empatia de Springsteen inspira filme com história real

Mix Vale

LOS ANGELES, EUA (FOLHAPRESS) – “Blinded By The Light” foi o primeiro single do disco de estreia de Bruce Springsteen, “Greetings from Asbury Park, N.J.”, de 1973. A música agora batiza o novo drama da diretora Gurinder Chadha. Mas só na versão original em inglês. No Brasil, o filme que estreia nesta quinta (19) recebeu o título genérico de “A Música da Minha Vida”.

“Soa interessante, mas qual a razão? Bruce não é tão conhecido no Brasil?”, pergunta a cineasta à reportagem. Quando descobre que Springsteen só visitou o país duas vezes, em 1988 e 2013, e que não é um nome tão popular quanto nos Estados Unidos ou Inglaterra, ela não desiste. “Precisamos mudar isso. Ele precisa voltar para tocar com Caetano Veloso e Marisa Monte.”

A improbabilidade do encontro só não é maior do que a da própria existência de “A Música da Minha Vida”. O filme conta a história real de um adolescente de origem paquistanesa que descobre Springsteen e usa a música para suportar a xenofobia do dia a dia na Inglaterra da década de 1980. Ele é baseado na autobiografia “Greetings from Bury Park: Race, Religion and Rock N’ Roll” (2007), de Sarfraz Manzoor.

Manzoor conheceu a música de Springsteen no colegial e, mais tarde, começou a segui-lo por diversos países, testemunhando mais de 150 shows e outros eventos. Na pré-estreia londrina de “The Promise: The Making of Darkness on the Edge of Town”, de 2010, documentário oficial sobre Springsteen, o jornalista foi tietá-lo no tapete vermelho ao lado de uma amiga, também fã do roqueiro. Era a diretora Gurinder Chadha.

“Me perguntava se éramos os únicos fãs de Springsteen com aquele visual asiático”, brinca a diretora. “Ele reconheceu Sarfraz dos shows e se aproximou de nós.”

Naquele momento, a diretora já tinha feito sucesso com “Driblando o Destino” (2002), filme que revelou a atriz Keira Knightley, e o jornalista tinha acabado de lançar o livro. Os dois queriam levar a biografia para o cinema, mas não começariam o projeto sem a benção de Springsteen, já que o roteiro é inteiramente ancorado por suas músicas e letras.

“Bruce falou que tinha lido o livro e que a história era linda. Falei que eu era uma grande fã e que dirigi ‘Driblando o Destino’. Ele falou que ouviu falar do longa, então expliquei que gostaria de adaptar o livro, mas precisaria do apoio dele”, lembra Chadha.

“Bruce olhou para nós e disse: ‘Me parece legal. Falem com Jon [Landau, produtor e agente de Springsteen]’. Foi assim que conseguimos.”

Com os direitos musicais garantidos, “A Música da Minha Vida” conta a história de Javed (Viveik Kalra), descendente de paquistaneses que vive na cinzenta Luton, nos arredores de Londres. Ele sonha com poesia, letras e música, mas precisa lidar com o pragmatismo do pai (Kulvinder Ghir), que enfrenta a crise econômica na Inglaterra de Margaret Thatcher, e o preconceito contra imigrantes. Temas que voltaram em 2019.

“Não imaginava que o filme seria tão relevante hoje em dia”, afirma a cineasta. “Assim que o brexit ganhou, fiquei chocada com o tamanho da xenofobia que emergiu. Achei tudo um horror e precisava falar sobre isso. Tornei o racismo que vivemos bastante visceral e grotesco no filme. Mas também queria mostrar que existe esperança, que a maioria das pessoas deseja viver junta em sociedade.”

Essa mensagem vem quando Javed descobre Springsteen. Ouvindo álbuns como “Born to Run” (1975), “Darkness on the Edge of Town” (1978) e “The River” (1980), o jovem é tomado por rebeldia, inspiração e indignação, pelo sentimento de ser considerado um pária.

“Springsteen tem cantado por cinco décadas sobre como devemos nos respeitar, que ninguém vence a menos que todos vençam”, diz Chadha.

“Ele escreve sobre as pessoas à margem da sociedade, que lidam com depressão, desejam uma vida melhor, trabalhadores. Springsteen clama para que tenhamos empatia e simpatia uns pelos outros. Acho que agora precisamos dessa mensagem mais que nunca. Ele é um profeta.”

A MÚSICA DA MINHA VIDA

Produção: Reino Unido, Estados Unidos, 2019

Direção: Gurinder Chadha

Elenco: Viveik Kalra, Kulvinder Ghir e Meera Ganatra

Estreia: nesta quinta (19)

Classificação: 12 anos

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