Brasil

Presidente leva bolsonarismo para ONU em discurso de tom agressivo

O presidente Jair Bolsonaro levou ao plenário da ONU (Organização das Nações Unidas) um discurso que reproduziu o repertório ideológico de seu grupo político, com ataques a outros países e um tom de enfrentamento em relação às críticas sofridas por seu governo.

O objetivo de Bolsonaro era marcar o que classifica como nova era para o Brasil, segundo auxiliares. Nas palavras de um deles, que participou diretamente da elaboração do texto, a imagem que o presidente queria imprimir era a de um governo revolucionário.

Em 32 minutos, apresentou o socialismo como adversário e risco às nações, fez uma série de referências religiosas, chegou a celebrar o golpe militar de 1964 e insistiu na ideia de que a crise da Amazônia é contaminada por interesses econômicos estrangeiros.

Ele também acusou a imprensa de manipulação, atacou seus adversários políticos, voltou a criticar a França e questionou a atuação da ONU na defesa dos interesses dos países membros.

“É uma falácia dizer que a Amazônia é patrimônio da humanidade e um equívoco, como atestam os cientistas, afirmar que a floresta é o pulmão do mundo”, afirmou.

“Valendo-se dessas falácias, um ou outro país, em vez de ajudar, embarcou nas mentiras da mídia e se portou de forma desrespeitosa, com espírito colonialista. Questionaram aquilo que nos é mais sagrado, a nossa soberania.”

Bolsonaro ficou sob pressão principalmente depois que o presidente francês, Emmanuel Macron, e a chanceler alemã, Angela Merkel, apontaram publicamente o risco de retrocessos na agenda ambiental do governo brasileiro.

O presidente respondeu às cobranças e mencionou o que chamou de espírito colonialista, num tom inédito em discursos de líderes brasileiros na Assembleia Geral da ONU.

“Um deles, por ocasião do encontro do G7, ousou sugerir aplicar sanções ao Brasil, sem sequer nos ouvir”, afirmou, em referência a Macron. “Agradeço àqueles que não aceitaram levar adiante essa absurda proposta”, e citou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Bolsonaro fez seguidas críticas à imprensa nacional e internacional, acusando-a de propagar informações que, segundo ele, prejudicam a imagem do país. Negou as recentes queimadas na Amazônia, embora ele mesmo tenha enviado tropas militares para ajudar a combater o fogo.

“Queremos que todos possam conhecer o Brasil e, em especial, a nossa Amazônia, com toda a sua vastidão e beleza natural. Ela não está sendo devastada e nem consumida pelo fogo como diz mentirosamente a mídia”, disse.

A delegação brasileira levou ao plenário a índia Ysani Kalapalo, criticada por organizações por não representar as comunidades nacionais. Bolsonaro rebateu com uma carta de agricultores indígenas. O texto atacava o que chamava de “ambientalismo radical” e “indigenismo ultrapassado” e dizia que esses movimentos contribuem para o atraso e marginalização dos povos.

O presidente acusou estrangeiros de cobiçarem a floresta por interesse econômico. “Os que nos atacam não estão preocupados com o ser humano índio, mas sim com as riquezas minerais e a biodiversidade existentes nessas áreas.”

O plenário da Assembleia Geral estava cheio para o discurso. Macron não assistiu à fala de Bolsonaro. À BBC News Brasil, disse querer “ajudar as pessoas da Amazônia, com completo respeito pela soberania, ajudando o povo”. “Não é questão de lobby ou interesse, os lobbies são para destruir a floresta para seus próprios interesses.”

Na parte da tarde, quando discursou na reunião, o presidente francês não citou o Brasil nem as críticas feitas a ele por Bolsonaro. Ao abordar o tema ambiental, fez um pedido para que os países se engajem na preservação da floresta amazônica e do Congo, protegendo a biodiversidade dos ecossistemas e tomando atitudes para o reflorestamento.

Merkel acompanhou o pronunciamento do brasileiro com aparelho de tradução simultânea. A alemã mexia no telefone e, ao fim, bateu palmas quatro vezes, vagarosamente. A chanceler fará seu discurso no sábado (28).

Na sequência de seu discurso, Bolsonaro se encontrou brevemente com Trump nos bastidores, e os líderes trocaram um aperto de mãos. O brasileiro voltou ao plenário para assistir ao pronunciamento do americano.

Bolsonaro abriu sua fala agradecendo a Deus e retomou sua interpretação de que o país esteve à beira de um regime socialista durante as gestões do PT.

Usou o argumento do risco socialista para atacar seus antecessores, países vizinhos e a própria ONU. “Não estamos aqui para apagar nacionalidades e soberanias em nome de um ‘interesse global’ abstrato. Essa não é a organização do interesse global, é a Organização das Nações Unidas. Assim deve permanecer”, afirmou.

Segundo ele, a ONU também respaldou programas como o Mais Médicos, que transferiam milhões de dólares “para a ditadura cubana”. O chanceler cubano, Bruno Rodríguez, reagiu poucos minutos depois.

Em uma rede social, escreveu: “Rejeito categoricamente os ataques de Bolsonaro a Cuba. Ele é delirante e deseja os tempos da ditadura militar. Ele deveria cuidar da corrupção de seu sistema judicial, seu governo e sua família.”

Também foram alvos prioritários o Foro de São Paulo –organização de partidos políticos de esquerda na América Latina– e o regime de Nicolás Maduro. “A Venezuela, outrora um país pujante e democrático, hoje experimenta a crueldade do socialismo. O socialismo está dando certo na Venezuela. Todos estão pobres e sem liberdade”, disse.

Minutos antes, Bolsonaro havia feito referência elogiosa ao golpe militar de 1964 no Brasil. “Há poucas décadas, tentaram mudar o regime brasileiro e de outros países da América Latina. Foram derrotados. Civis e militares brasileiros foram mortos e outros tantos tiveram suas reputações destruídas, mas vencemos aquela guerra e resguardamos nossa liberdade.”

O presidente explorou o discurso para divulgar a guinada de seu governo nas relações internacionais. Além de enfrentar outros países, Bolsonaro fez afagos a Israel e a Trump. Citou a China apenas ao mencionar a intenção de visitar o país e de facilitar a entrada de turistas no Brasil.

O ministro da Justiça, Sergio Moro, que não acompanhou a comitiva que foi a Nova York, foi o único membro do governo a ser citado nominalmente no discurso do presidente.

“Há pouco, presidentes socialistas que me antecederam desviaram centenas de bilhões de dólares comprando parte da mídia e do parlamento”, disse. “Foram julgados e punidos graças ao patriotismo, perseverança e coragem de um juiz que é símbolo do meu país, o dr. Sergio Moro, nosso atual ministro da Justiça e da Segurança Pública.”

Num trecho curto, exibiu credenciais de uma política econômica liberal. Citou privatizações e concessões, além do esforço de implementação de medidas para a entrada do Brasil na OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), o clube dos países ricos.

Durante toda a fala, o brasileiro seguiu sua linha nitidamente conservadora. Citou Deus e valores da família. Encerrou com um versículo bíblico que se tornou recorrente desde sua campanha presidencial –“e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, de João 8:32.

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