Quarto dia de SPFW tem inspiração em ‘Game of Thrones’ e resposta a Damares

Mix Vale

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – No universo de possibilidades disponíveis nos discursos identitários aplicados à moda, como os que tocam em questões de gênero e orientação sexual, só para citar os mais sensíveis à pauta de costumes do país, às vezes é preciso falar com todas as letras e tecidos aonde se pretende chegar com uma ideia.

No quarto dia de desfiles da São Paulo Fashion Week, dois estilistas que sempre fundiram elementos dos guarda-roupa masculino e feminino, bem antes do termo “sem gênero” surgir no vocabulário da moda, versaram sobre o cruzamento e os abismos da feminilidade versus masculinidade.

Glória Coelho abriu os desfiles desta quinta-feira (17) viajando longe, para uma terra de dragões, deusas e seres fantásticos inspirados na série “Game of Thrones” e no livro “Necromance e a Conquista do Planeta dos Dragões”, do autor mineiro Ricardo Gontijo Valle, de apenas dez anos.

O apelo pop era só desculpa, ainda que bem executada em ilustrações, texturas de pele animal aplicada em vestidos e proporções amplas, para atualizar sua reconhecível tesoura de alfaiataria.

Só um estilista com domínio da técnica poderia contrabalancear pesos de tecidos leves com o peso de casacos de lã, a indumentária esportiva com detalhes de selaria, bem ao estilo da grife francesa Hermès, embora mais solar como pede a cartilha brasileira.

Os astros que sempre encantaram a designer surgiram nas propostas metalizadas e nos volumes da moda espacial, mas foram embaralhadas em peças que bebem da fonte do smoking masculino e dos cortes “de homem”, soltos no corpo e de braços descobertos pronto para um combate interestelar ou mesmo, tomando como referência o mundo fictício da série da HBO, na Westeros da vida real. 

As clientes de Coelho, segundo ela mesma, são “mulheres especiais”, muitas delas mais velhas, que gostam de um visual clássico e sem as firulas do ideal doce da tal feminilidade que a moda reproduziu ao longo do século 20.

Elas guardam alguma semelhança com as de João Pimenta, estilista que subiu o tom contra o preconceito de gênero ao criar roupas pensando nas lésbicas, ou melhor dizendo, sapatonas, como a música “Felizmente Sigo Sapatona”, da cantora GA31, frisava pela sala de desfiles montada no Pavilhão das Culturas Brasileiras.

Reconhecido pela clientela masculina que curte saias, aplicações pela roupa e um visual menos engessado nos padrões machistas difundidos na costura, Pimenta solta a voz contra o cerceamento de liberdades, com destaque óbvio para as de vestir.

O bloco inicial de roupas foi espécie de réplica do discurso recente da ministra dos direitos humanos, Damares Alves, de que estamos “numa nova era, na qual meninos vestem azul, e meninas vestem rosa”.

Assim que a trilha começou, Pimenta sugere, por meio de GA31, que ela “aceite, supere, entenda, que essa é a nova era”. E logo entram modelos trajadas com terninhos desconstruídos, azuis-menino e cinza-unissex.

Como se contasse o périplo de aceitação e preconceito dessas mulheres jogadas à margem, mesmo dentro da comunidade LGBT, o estilista vai abrindo fendas, pontas soltas e arreando peças para libertá-las das convenções.

É poderosa a imagem de uma mulher lésbica assumida, como outras que desfilaram em meio a transexuais e garotos de traços femininos, totalmente nua por baixo do vestido transparente, longo e recatado não fosse o tecido translúcido.

Libertas das cartilhas de conduta, as sapatonas de Pimenta exibem peças de couro justas, doudounes de náilon transformadas em armaduras e itens fetichistas de metal.

Capas longas do tipo bruxa, ela, mais uma vez retratada nesta SPFW, só que dentro do contexto de perseguição milenar a que foram submetidas, receberam o escrito Lilith nas costas, uma referência àquela que muitos consideram a primeira feminista da mitologia.

Cortada dos textos bíblicos e presente em contos anteriores às de Cristo, acredita-se que ela foi a primeira mulher de Adão, expulsa do Éden por não querer se rebaixar à hegemonia do homem. Execrada pela história, foi tachada de demônio da noite que antecede tempestades e, na cultura pop, barriga que gestou os demônios do inferno.

O centro lunar colado na testa de Lilith ilustra partes da coleção, assim como os acessórios de metal vistos em representações de sua figura.

Esse personagem obscuro da mitologia ilustra não apenas a aura mística em voga nesta temporada, mas também o teor persecutório das relações atuais.

Numa época em que pairam palavras dúbias, lacres postados em redes sociais e atitudes obscurantistas contra a liberdade travestidas de defesa da moral, um papo reto às vezes pode ser a única saída para quem ainda resiste à caretice.

É como diz a música, “não tenho porque ter vergonha, da minha verdade e honra. Sapatona”.

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