É Tudo Verdade comemora 25 anos com retrospectivas e competições politizadas

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em tempos de fake news, a verdade tornou-se bem escassa. Dados científicos parecem estar perdendo a relevância, disparos de WhatsApp espalham desinformação e corridas eleitorais inteiras têm pontos importantes reduzidos ao termo e seu significado.
É nesse contexto que o É Tudo Verdade chega aos seus 25 anos, comprometido com a exibição de filmes cujas narrativas não são distorcidas pelas lentes da ficção. Maior festival de documentários do país, o evento tem início no dia 26 de março, em São Paulo, e em 31 de março, no Rio de Janeiro. Ao todo, 83 títulos serão projetados em seis salas paulistanas e em três cariocas.
“O documentário tem um compromisso ético com a verdade, filtrada pelo ponto de vista de seu autor”, diz o criador do É Tudo Verdade, Amir Labaki. “As fake news são anti-éticas por definição. Elas são o veneno e os filmes do festival, o antídoto.”
E para combatê-las, nada mais apropriado do que abrigar na seleção deste ano filmes que lidam diretamente com o conceito de fake news. “Influência”, coprodução entre África do Sul e Canadá, e “Silêncio de Rádio”, parceria entre Suíça e México, são dois integrantes da competição internacional de longas ou médias-metragens que dialogam com o tema.
Acompanham a seção de produções estrangeiras as tradicionais competições de longas ou médias brasileiros  -que este ano saltou de sete para dez concorrentes- , de curtas nacionais e de curtas internacionais.
Também estão presentes mostras não competitivas destinadas a títulos latino-americanos e a documentários com viés mais informativo e jornalístico, no recorte O Estado das Coisas.
Para celebrar os 25 anos do É Tudo Verdade, também surgiram na programação seis seções especiais que rememoram sua história.
Projeções Especiais recupera o desenvolvimento do gênero ao longo deste período e inclui uma homenagem a José Mojica Marins, o Zé do Caixão; Ano 1 exibe filmes presentes na edição inaugural do festival; O Legado das Retrospectivas fala sobre o trabalho de recuperação desenvolvido pelo festival; Santiago Álvarez por Silvio Tendler retoma a obra do cineasta cubano homenageado na edição de 1996; Um Marco Restaurado contempla uma nova cópia de “O Prisioneiro da Grade de Ferro” (2003); e Séries Inéditas.
Nesta última, fazem suas estreias a série francesa “A Herança da Coruja”, sobre o legado da Grécia Antiga no mundo contemporâneo, e a britânica “Women Make Film – Um Novo Road Movie Através do Cinema”, sobre a produção cinematográfica feminina, citando nomes como Agnès Varda e Jane Campion.”
A efeméride de alcançarmos um quarto de século pautou os ciclos fora de concurso, com projeções retrospectivas em torno da rica produção lançada pelo festival e com um diálogo com o presente”, diz Labaki.
E, neste diálogo com o contemporâneo, surgem filmes com uma forte veia política e com narrativas em primeira pessoa  -algo observado e polemizado com a indicação de “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa, ao último Oscar de documentário. Nele, a diretora mineira acompanha o impeachment de Dilma Rousseff a partir de uma perspectiva declaradamente pessoal.
“Fico Te Devendo uma Carta sobre o Brasil”, de Carol Benjamin, e “Libelu – Abaixo a Ditadura”, de Diógenes Muniz, por exemplo, versam sobre a ditadura militar brasileira e disputam o prêmio de melhor média ou longa nacional. Já “Dentro da Minha Pele”, de Toni Ventura, aborda o preconceito de raça e de classe nos dias de hoje.
“Festival é espelho. Reflete a produção do momento. Não há um eixo temático específico nesta edição, mas há tendências marcantes, como o documentarismo político”, explica Labaki.
Com entrada gratuita, as sessões do É Tudo Verdade se estendem até o dia 5 de abril, quando os vencedores deste ano serão conhecidos. Os premiados são automaticamente classificados para serem considerados pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e tentam uma vaga no Oscar do ano que vem.