Adolescentes namoram à distância, aprendem tricô e montam quebra-cabeça em tempo recorde
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Adolescentes namoram à distância, aprendem tricô e montam quebra-cabeça em tempo recorde

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Foi à moda antiga, com troca de cartas, que Sofia, 15, e Pedro, 17, comemoram um mês de namoro no último sábado (20). É o primeiro relacionamento mais sério dos dois, que, pouco antes da quarentena imposta pelo coronavírus, tinham trocado alianças de compromisso. Eles estudam na mesma escola, na zona oeste de São Paulo, e estão sem se ver desde que as famílias se isolaram, no início da semana passada.
Conversam todos os dias por chamadas de vídeo. Às vezes nem estão se falando, mas um está “ali ao lado” do outro, vendo-o ler, estudar, jogar. Tem hora que Sofia não se conforma e pergunta para a mãe por que tudo isso tinha que acontecer…
No aniversário de namoro, quebraram um pouquinho as regras. Pedro foi a pé até o prédio de Sofia e deixou para ela uma carta na portaria. A mãe da menina, quando soube, mandou mensagem para ele, dizendo que havia se arriscado. Ele se desculpou.
Sofia chorou muito nesse dia e convenceu a mãe a levá-la de carro até o prédio do namorado, onde deixou a resposta da carta, com um desenho, também na portaria. No próximo mês, ela faz 16 anos e já teme não poder vê-lo no aniversário. Tristes com essa situação, pediram para não ter o verdadeiro nome revelado nesta reportagem.
Nesta quarentena, adolescentes estão obviamente absorvidos pela tecnologia, e ela tem as tendências paradoxais de ora amainar o isolamento, ora amplificar a ansiedade. Diante de uma infinidade de tempo, no entanto, até os eletrônicos enjoam, e, como as cartas do casal de namorados, outras atividades “retrô” ajudam a preencher a rotina.
Rodrigo Cunha, 15, por exemplo, quando não está estudando, divide o tempo livre entre o videogame online e as lives no Instagram com os amigos, jogos de tabuleiro com os pais e a irmã mais nova, e a montagem de quebra-cabeças. Na sexta (19), logo na fase inicial do isolamento, bateu seu recorde: terminou um de 750 peças em um dia. Em tempos normais, levaria uma semana. Ironia do destino, a imagem do quebra-cabeças é uma da Times Square, em Nova York, lotada, num mundo sem coronavírus.
No sábado (21), foi o aniversário de Rodrigo, e ele comemorou com a família em um churrasco no apartamento, na Vila Clementino, e com outros familiares online.
A versão eletrônica de jogos das antigas está distraindo o pré-adolescente Miguel Kuntz, 12, que joga stop e cartas com os amigos por meio de aplicativos. Seu irmão mais velho, Lucas, 19, também resolveu se lembrar dos “velhos tempos” e brincar de stop com amigos à distância. Até a mãe dos meninos, Mariana, se animou com a ideia e baixou o aplicativo para jogar com as vizinhas do prédio, na Saúde.
Na casa de Letícia Correia Guariglia, 13, na Vila Mariana, os eletrônicos estão dividindo espaço com o tricô. Ela e a irmã, Mariana, 6, estão aprendendo a tricotar com a mãe, Kely, e o desafio é ter paciência para entender esse mundo de tantos pontos e nós.
A adolescente sente muita falta da escola. “Da aula de educação física, de ciências, de matemática, de todas”, diz. Ela faz inglês, jazz, curso de astronomia e terapia. A psicóloga está doente, com sinusite, e ainda não falou sobre sessões online.
Em casa, entediada, Letícia tem que lidar com os interesses da irmã, que, cheia de energia, fala alto e corre pela casa toda, até o cachorro está cansado de tanta correria. A mãe tem ligado no YouTube, na TV, o Just Dance, competição de dança, para cansar a pequena e aproveitar para se alimentar de endorfina. Também está fazendo oficina de maquiagem com as meninas. E faz uma bela metáfora de toda essa situação: “É como segurar um leão em uma caixa de sapatos, mas vamos em frente”. Vamos, sim.

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