Contra a doença, a distância que protege
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Contra a doença, a distância que protege

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A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde apontaram no início da pandemia que há pessoas mais suscetíveis aos efeitos da covid-19. Idosos, diabéticos, hipertensos, os que têm insuficiência renal crônica, doença respiratória crônica ou doença cardiovascular precisam redobrar a atenção durante a quarentena.

O jornal O Estado de S. Paulo conversou com cinco pessoas consideradas do grupos de risco, de diferentes faixas etárias, com vulnerabilidades distintas, para mostrar a rotina no isolamento social, as privações e quais cuidados estão tomando.

Ficar em casa contribui para diminuir a proliferação do vírus – por consequência, o número de internações e de mortes. Com todos longe das ruas, fica menos angustiante a vida de quem sabe que o contágio pelo novo coronavírus não será só uma simples gripe.

Gilberto Casanova, de 45 anos, lida com a diabete desde a infância. Na quarentena, precisou deixar o apartamento onde vive com a mulher e se mudou para a casa da mãe.

A aposentada Maria Adélia, de 72 anos, vive levando bronca da filha porque tenta sair de casa.

O estudante Saulo Gian Ferreira, de 16 anos, está à espera de um transplante de coração e tem a imunidade baixa.

É uma situação semelhante à do publicitário Renato Consonni, de 39 anos, e de Cauani Batista, de 8. O primeiro fez há dez anos um transplante multivisceral e a menina passou por cirurgia cardíaca com um mês de vida.

Em vídeo publicado em seu site oficial na última quinta-feira, o médico Dráuzio Varella falou sobre a importância de quem não está no grupo de risco colaborar com essas pessoas. “Não podemos pensar só na gente. Temos de pensar em proteger as pessoas mais frágeis da nossa família, da comunidade e do País inteiro. Temos de reduzir ao máximo o número de transmissões. Agora é a fase mais perigosa de todas. Temos de nos defender dessa maneira, ficando em casa.”

‘Aceno à noite para reduzir a saudade’

Há duas semanas, o dentista Gilberto Casanova deixou a mulher e mudou-se com o filho de 7 anos para a casa da mãe. Não houve briga nem discussão. O casamento continua, a vida conjugal só precisou ser alterada por causa do novo coronavírus. Gilberto é diabético e a mulher, Gabriela Ferreira, trabalha como dentista no SUS.

A diabete deixa o sistema imunológico mais fraco e, ao longo do tempo, pode causar complicações em coração e rins. Gilberto já teve de colocar três stents para desobstrução de artérias e um balão, quando há entupimento quase completo das veias. Ele também tem problema circulatório. “Se pegar o coronavírus, a chance de ter um desfecho pior é muito alta.”

Por isso a opção pelo isolamento na casa da mãe. Gilberto atendia pacientes em consultório particular e está sem trabalhar. Ele também preside a Associação de Diabetes Juvenil (ADJ) e sabe a importância de permanecer isolado. Isso não significa que permaneça o tempo inteiro em casa.

Na quarentena, criou um hábito. Todo dia, por volta das 21 horas, ele e o filho vão de carro encontrar com Gabriela. Um encontro a distância.

Os dois ficam na janela do carro e ela aparece na janela do terceiro do prédio onde moram, em Perdizes, zona oeste de São Paulo. “Esperamos ela chegar em casa, colocar a roupa para lavar, tomar um banho e comer alguma coisa. Aí vamos. É um jeito de matar um pouco a saudade.”

‘Falo que vou sair e vem bronca’

Maria Adélia, de 72 anos, está impaciente. Ela vive com uma das filhas e o genro. “Levo bronca o tempo inteiro. Falo que vou sair e vem a bronca.” Aposentada, tinha como passatempo dar uma volta pelo Mandaqui, visitar a irmã e brincar com a neta. Foi proibida de tudo isso.

A neta aparece de vez em quando no portão da casa, mas fica distante da avó. “Não tenho mais assistido ao noticiário. Fico nervosa, minha pressão começa a oscilar”, comenta. Ela tem pedalado na bicicleta ergométrica e ajuda nos afazeres domésticos. “Quando você me ligou a primeira vez não atendi porque estava estendendo roupa. Não estava na rua não, viu?”

A pressão em cima da filha e do genro para sair de casa surtiu um efeito. Ela os convenceu a trazer a irmã para passar a quarentena ao seu lado. “Vou ter alguém para conversar.”

Longe da Bahia, mas a salvo em SP

Cirlene Fagundes Batista, de 41 anos, e a filha Cauani, de 8, estão presas em São Paulo. Elas vivem em Salvador e precisam vir à capital paulista a cada seis meses para que a menina faça exames no Instituto do Coração (Incor). Com a pandemia, foram aconselhadas a não pegar o avião de volta para casa.

Cauani nasceu com problema cardíaco e, no primeiro mês de vida, passou por cirurgia. Com 1 ano, precisou fazer uma traqueostomia. Cirlene e a filha estão passando a quarentena na sede da Associação de Assistência à Criança e ao Adolescente Cardíacos.

O local proporciona hospedagem, alimentação e apoio para quem não tem condições de arcar com despesas em São Paulo durante tratamento no Incor. As duas dividem uma casa com nove quartos com outras duas famílias. “Há bastante ventilação e álcool em gel”, diz Cirlene.

A passagem de volta para Salvador ainda não foi comprada. “A gente fica preocupada de estar longe de casa, mas estamos conscientes da importância do isolamento.”

À espera de um coração para voltar

O estudante Saulo Gian Ferreira, de 16 anos, é de Arapongas, no Paraná, e em novembro precisou se mudar para São Paulo, pois está na fila de um transplante de coração. O hospital recomenda que a pessoa que vai passar por essa cirurgia fique a no máximo duas horas de distância do local. A mãe, Ana Lúcia Conceição, está com o filho e pediu aos médicos para não saber em que lugar ele está nessa fila. “Acho que me deixaria ainda mais nervosa. Eles podem ligar a qualquer momento e temos de correr para o hospital.”

Saulo tem miocardiopatia dilatada não compactada – os sintomas apareceram aos 10 anos. Desde o início deste ano, estuda em uma escola da capital. Agora, as aulas foram interrompidas.

Saulo não vê a hora de a pandemia passar, fazer a cirurgia e voltar para o Paraná. “Está um pouco sem graça ficar aqui. Não é fácil, mas procuro ficar sossegado. Estou preocupado com o coronavírus. Meu pai tem 70 anos. Estou no grupo de risco. O que sinto mais falta é de meus amigos do Paraná.”

O melhor lugar para estar hoje

O publicitário Renato Consonni, de 39 anos, acabou isolado, sem querer, quando a pandemia chegou ao Brasil. Desde janeiro, ele se mudou para uma fazenda em São Joaquim da Barra, no interior de São Paulo, para cuidar dos negócios do pai, que morreu no fim do ano passado. “É o melhor lugar em que poderia estar nessa situação.”

Em 2010, ele passou por um transplante multivisceral: trocou pâncreas, fígado, duodeno, estômago, intestino e mesentério. Está dentro do grupo de risco por ser imunossuprimido. “Para tentar manter minha imunidade alta procuro fazer sucos. Dificilmente fico gripado.”

A cidade onde Consonni vive tem só um caso confirmado do novo coronavírus. De qualquer forma, ele vive atento à higienização das mãos. A vida no campo é provisória. Depois da pandemia, após organizar os negócios da família, pretende voltar a trabalhar no terceiro setor e criar o Instituto Visceral, uma ONG para ajudar pessoas que estão em situações similares às que ele passou. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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