Sem eficácia comprovada, 4,3 milhões de unidades de cloroquina são entregues pelo governo
Brasil

Sem eficácia comprovada, 4,3 milhões de unidades de cloroquina são entregues pelo governo

Sem eficácia comprovada, 4,3 milhões de unidades de cloroquina são entregues pelo governo

Por Pedro Fonseca

RIO DE JANEIRO (Reuters) – O Ministério da Saúde já entregou 4.374.000 unidades de cloroquina aos Estados brasileiros desde o início da pandemia de Covid-19, apesar da falta de comprovação científica de eficácia do medicamento contra a malária para tratar a doença respiratória provocada pelo novo coronavírus.

Enquanto diversos países do mundo proibiram o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina contra a Covid-19, diante da falta de eficácia comprovada e devido a riscos de saúde, o Brasil ampliou neste mês a recomendação de tratamento com o remédio, incluindo gestantes e crianças com determinadas condições de saúde entre os grupos com recomendação de uso.

Na semana passada, o Hospital Israelita Albert Einstein –cujos estudos com cloroquina foram citados pelo presidente Jair Bolsonaro para defender o uso do medicamento contra a Covid-19– decidiu recomendar a não utilização do remédio contra a doença, citando a falta de evidências de eficácia e os riscos conhecidos e potenciais.

A decisão do Einstein foi tomada depois que Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês) suspendeu a recomendação de uso emergencial do medicamento, apontando estudos que sugeriram que não é eficaz contra a Covid-19.

Apesar das recomendações contrárias ao medicamento, o Brasil já distribuiu quase 4,4 milhões de unidades de cloroquina para todos os Estados e o Distrito Federal, sendo quase 1 milhão apenas para São Paulo, de acordo com dados apresentados pelo Ministério da Saúde nesta segunda-feira.

Entre as regiões do país, o Nordeste recebeu o maior número de unidades, com 1,5 milhão de comprimidos no total, sendo 720 mil entregues somente neste mês. Os Estados das Regiões Sul e Sudeste, por outro lado, não solicitaram doses do medicamento neste mês.

Elcio Franco, secretário-executivo do Ministério da Saúde, reconheceu a falta de eficácia comprovada da cloroquina, mas defendeu seu uso durante a pandemia.

“A cloroquina é uma possibilidade que já se mostrou efetiva conforme as referências, inclusive na Índia tem sido bastante positivo o uso… Há evidências bastante consistentes de que tem sido efetivo o uso deste medicamento em associação com outros medicamentos”, afirmou o secretário em entrevista coletiva no Palácio do Planalto.

“É um medicamento de muito baixo custo, e em situações de pandemia é natural que se busque, baseado na análise clínica do médico, soluções, porque é um fator desconhecido. Daqui a um ano talvez a gente tenha evidências científicas comprovadas do efeito maior ou menor”, acrescentou.

Desde o final de maio o Ministério da Saúde alterou sua recomendação para o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina, por pressão de Bolsonaro, para passar a recomendar a utilização também em casos leves da doença. Anteriormente, a recomendação era apenas para pacientes hospitalizados e em estado grave.

Questionado se o ministério estuda divulgar um protocolo recomendando o uso da dexametasona, um esteróide apontado pela Universidade de Oxford como um “grande avanço” no combate à doença, o secretário disse apenas que o medicamento já está incluindo numa lista de opções disponíveis para os médicos utilizarem em comum acordo com os pacientes.

Resultados de testes anunciados neste mês mostraram que a dexametasona, que é usada para diminuir inflamações de outras doenças, reduziu as taxas de mortalidade em cerca de um terço entre pacientes de Covid-19 hospitalizados em estado grave. [nL1N2DT15Q]

O Brasil é o segundo país mais afetado pela pandemia de coronavírus, com mais de 1,3 milhão de casos confirmados e mais de 58 mil mortes até esta segunda-feira. Apenas os Estados Unidos têm mais casos e mais óbitos em consequência da Covid-19.

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