Pesquisa investiga fungos geneticamente similares que causam infecções em hospitais
São Paulo

Pesquisa investiga fungos geneticamente similares que causam infecções em hospitais

Divulgação/Agência Fapesp/Acervo do pesquisador

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Presentes no intestino humano, espécies de Candida podem causar infecções de corrente sanguínea em pacientes internados em UTI; estudo internacional em 16 hospitais encontrou amostras com maior potencial de virulência (Imagens de microcultivo de Candida tropicalis isolada de pacientes com candidemia)

Um grupo de pesquisadores do Brasil, Itália, Espanha e Dinamarca analisou um total de 884 amostras de fungos do gênero Candida, coletadas em 16 hospitais, e encontrou um número significativo do que chamam de clusters presentes em mais de um hospital. Os clusters são conjuntos de isolados de fungo que apresentam sequências de DNA idênticas. A descoberta pode ser um indicativo da presença de variedades mais virulentas e resistentes a tratamentos.

O estudo, publicado na Frontiers in Cellular and Infection Microbiology, teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Fungos como as leveduras do gênero Candida fazem parte da biota do intestino humano e não causam nenhum problema quando o organismo está em bom funcionamento. Porém, quando há algum desequilíbrio por conta de doenças crônicas e internação para a realização de diversos procedimentos terapêuticos por tempos prolongados, elas podem entrar na corrente sanguínea e causar infecções graves, potencialmente mortais.

A candidemia, como é chamada a infecção por Candida em corrente sanguínea, ocorre principalmente em pacientes internados em unidades de terapia intensiva (UTIs), bem como em pacientes submetidos a transplantes de órgãos e tratamento de alguns tipos de câncer, como leucemia.

“Em um momento em que há muitas internações de pacientes graves, é preciso monitorar com ainda mais atenção as possíveis fontes de infecção. Apenas a título de exemplo, no momento atual, onde temos um grande número de pacientes críticos com COVID-19, esta é uma complicação para a qual o sistema de saúde deve estar alerta. Esses pacientes demandam de duas a três semanas de internação em unidades de terapia intensiva, expostos a antibióticos, medicamentos imunomoduladores, procedimentos médicos invasivos e hemodiálise”, diz à Agência Fapesp Arnaldo Lopes Colombo, professor da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) e único coautor brasileiro do estudo.

Infecções

A maioria das infecções por Candida acontece quando o fungo ultrapassa a barreira do intestino e entra na corrente sanguínea, em função de complicações de doenças graves e admissão hospitalar prolongada. No entanto, uma parte dessas infecções é decorrente da chamada quebra de técnica de higiene das mãos de profissionais de saúde, bem como de cuidados inadequados no manuseio de pacientes submetidos a procedimentos médicos invasivos.

“Esses fatores permitem a ocorrência de transmissão horizontal desses agentes entre diferentes pacientes, o que explica a presença de clusters de infecções acometendo indivíduos internados em uma mesma enfermaria ou, menos frequentemente, em diferentes instituições”, explica o pesquisador.

Os pesquisadores analisaram 884 amostras dos 16 hospitais, nas quais identificaram 723 genótipos de três espécies: Candida albicans (534 amostras), C. parapsilosis (282) e C. tropicalis (68). A boa notícia é que o Hospital São Paulo, da Unifesp – único representante brasileiro do estudo – não se diferenciou muito de países desenvolvidos na frequência de formação de clusters.

Todos os hospitais envolvidos no estudo possuem programas para evitar infecções hospitalares, o que em tese deveria reduzir o número de infecções cruzadas entre pacientes. No entanto, foi encontrado um total de 78 (11%) isolados formando clusters (amostras de mesmo perfil genético infectando pacientes).

A maioria (45 ou 57%) não ocorreu em mais de um hospital ao mesmo tempo, mas uma pequena proporção do total de genótipos encontrados (52 ou 7,2%) foi encontrada em diferentes hospitais, sendo 21 na mesma cidade e 31 em cidades diferentes.

Diferenciação de amostras

As análises foram comandadas por Jesús Guinea, no Instituto de Investigación Sanitaria Gregorio Marañón, da Universidad Complutense de Madri, na Espanha. O único hospital da América Latina incluído no estudo foi o Hospital São Paulo, da EPM-Unifesp.

A técnica usada para encontrar os fungos foi a de marcadores de microssatélite, que analisa regiões do DNA que se repetem ao longo do código genético. Embora não seja tão precisa quanto o sequenciamento do genoma total, ela permite a análise de muitas amostras a um custo razoável, com uma boa precisão para diferenciá-las.

Futuramente, os pesquisadores farão a análise do genoma completo de uma parte das amostras, a fim de confirmar a semelhança genética dentro dos clusters e aperfeiçoar a metodologia de marcadores de microssatélite para estudos genéticos de Candida. Além disso, eles estudam o que torna as cepas que formam clusters tão virulentas, a fim de desenvolver tratamentos mais eficazes.

“Estamos observando que as cepas envolvidas em episódios de clusters apresentam maior capacidade de produção de biofilme, uma matriz extracelular que serve para aderir a superfícies e se proteger do ambiente inóspito – nesse caso, o sistema imune humano”, diz Colombo.

O artigo (em inglês) pode ser lido em: www.frontiersin.org/articles/10.3389/fcimb.2020.00166/full.

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