Best-seller Hilary Mantel ecoa Shakespeare ao narrar poderio de Thomas Cromwell
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Best-seller Hilary Mantel ecoa Shakespeare ao narrar poderio de Thomas Cromwell

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SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) – É cômodo encaixar “Wolf Hall”, livro da britânica Hilary Mantel que acaba de ganhar nova edição brasileira, na categoria de romance histórico.

Mas o rótulo simplifica uma combinação bem mais difícil de classificar, que inclui tanto a pesquisa minuciosa, comum nos melhores exemplos do gênero, quanto a densidade psicológica, o uso de elementos míticos -e a sombra de William Shakespeare.

“Eu venero Shakespeare desde quando era muito jovem”, afirma Mantel. “Ele foi responsável por formar minha imaginação. Mas suas peças históricas brincam tanto com mitos quanto com fatos mais sóbrios. Escrever uma série de romances longos permite que você siga o registro histórico mais de perto, porque não é preciso condensar tanto o que está contando, e o seu elenco de personagens pode ser maior.”

Em “Wolf Hall” e nos livros seguintes da série -“Tragam os Corpos” e “O Espelho e a Luz”, que devem sair no Brasil em novembro deste ano e março do ano que vem, nesta ordem-, a escritora aborda as primeiras décadas do século 16 e o reinado do monarca inglês Henrique 8º -protagonista, aliás, de um dos dramas históricos menos conhecidos de Shakespeare.

Nos romances de Mantel, que já ganharam duas vezes o Booker Prize -maior prêmio literário britânico-, os momentos-chave do governo de Henrique são sempre vistos da perspectiva de um plebeu que, saindo praticamente do zero, se tornou o político mais importante do reino e principal conselheiro do rei.

Thomas Cromwell, filho de um ferreiro dos arredores de Londres, era um sobrevivente por excelência. Na juventude, foi mercenário na França e agente dos banqueiros da família Frescobaldi, de Florença.

Depois de aprender diversas línguas e travar contato com os principais centros comerciais da Europa, voltou para a Inglaterra e passou a atuar como advogado e braço direito do cardeal Thomas Wolsey, então uma espécie de primeiro-ministro de Henrique 8º.

A ligação de Cromwell com o cardeal é uma das grandes ironias de sua trajetória, explorada com habilidade no romance. Embora extremamente fiel a Wolsey, a ponto de continuar ao lado do religioso mesmo depois que ele cai em desgraça na corte e perde todos os seus bens, o advogado nutre simpatias secretas pela Reforma Protestante num momento em que a Inglaterra ainda é um país católico.

Boa parte da complexa vida interior do protagonista talvez seja um reflexo dessa posição dúbia em quase todos os aspectos.

Cromwell se corresponde com protestantes de outros países, auxilia discretamente os que tentam levar ao público uma tradução inglesa da Bíblia -na época, algo proibido-, mas todos os seus atos são medidos com cabeça de estrategista e supremo realismo político -não é por acaso que, em dado momento, ele recorda suas leituras de Maquiavel, “uma edição em latim”.

Segundo o Cromwell retratado no romance, o objetivo de se desvencilhar do que enxerga como a corrupção do catolicismo de seu tempo caminha sempre de mãos dadas com sua visão de um futuro mais independente para a própria nação inglesa.

Esse ponto de vista, bem como a ambição pessoal de Cromwell, acabam se encaixando com os desejos de Henrique 8º. Sem conseguir ter filhos homens com sua primeira mulher e sem uma dispensa do papa para se casar de novo, Henrique usa a habilidade de Cromwell para convencer a nobreza do reino a o aceitar como chefe supremo da igreja inglesa, abrindo caminho para o protestantismo.

Esse processo desencadeia um dos embates mais importantes do romance, opondo Cromwell a sir Thomas More, ex-conselheiro do rei que se recusa a aceitar a supremacia religiosa de Henrique. More, que foi canonizado pelo papa Pio 11 em 1935, é visto tradicionalmente como um mártir da liberdade de consciência. Mantel discorda.

“As gerações posteriores caíram na armadilha de examinar esses homens por meio de suas próprias preocupações mais recentes. O que More realmente defendia era a obediência à tradição religiosa e a Roma. Cromwell foi visto como seu principal perseguidor, mas as próprias cartas de More nos contam sobre os esforços de Cromwell para o persuadir a evitar a morte.”

A alusão a Maquiavel é uma das muitas peças do quebra-cabeças cultural, social e político do mundo renascentista espalhadas pelo tecido da obra.

“Não há como meus personagens usarem uma linguagem que seja puramente do século 16, mas é importante que eles tenham ideias do século 16. E todas as metáforas que usam têm de ser consistentes com a maneira como eles veem o mundo”, afirma a autora.

“Portanto, o escritor precisa entender a religião deles, suas visões sobre a saúde e a doença, suas ideias sobre como o corpo funciona e sua visão do Universo.”

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