Irmãos sinalizam equipamentos de cinema para polícia não confundir com armas
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Irmãos sinalizam equipamentos de cinema para polícia não confundir com armas

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O cinema está na periferia, mas não da mesma forma que nas regiões centrais. A falta de recursos, de acessos e de segurança levaram dois irmão da zona oeste do Rio de Janeiro a criarem uma empresa de tecnologia cinematográfica voltada principalmente para jovens negros e periféricos.

A ideia da WoTec é produzir equipamentos de baixo custo, que também atendam necessidades de um contexto de violência e racismo. Entre as preocupações, por exemplo, está fabricar apetrechos coloridos para que não sejam confundidos com armas.

No ano passado, circulou nas redes um vídeo de um policial abordando um homem na garupa de um mototáxi justamente por carregar um tripé de câmera.

O PM chegou a dizer para o homem que não poderia andar com o equipamento à noite na favela. “Depois nego diz que morre à toa”, diz o policial na gravação.

Também no Rio, houve casos mais graves, como o de pessoas mortas por policiais por portarem guarda-chuvas ou furadeiras, que acabaram interpretados como armas.

Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, produzido pelo FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública), oito a cada dez pessoas mortas pela polícia são negras.

“Nada disso vai garantir que a pessoa não sofra assédio pela polícia, mas é uma estratégia que a gente adotou, estamos tentando”, diz Hugo Lima, cofundador da startup, sobre os equipamentos que produz.

“É extremamente revelador da falta de igualdade de tratamento e racismo que atravessa a sociedade brasileira, da necessidade de ter um nicho de mercado que se volte a uma proteção complementar das pessoas negras, contra o abuso policial”, comenta Jacqueline Sinhoretto, professora do departamento de sociologia da Ufscar (Universidade Federal de São Carlos) e coordenadora do grupo de estudos sobre violência e gestão de conflitos.

“É uma solução de mercado, e o mercado pressupõe igualdade”, completa.

Mas essa não é a única preocupação da empresa, que pretende também tornar mais acessível o fazer cinema. Levantamento feito pelo Gemaa (Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa) mostra que apenas 2% das pessoas no mercado de longas metragens comerciais são negras.

Lima criou a empresa ao lado da irmã, a antropóloga Nathali de Deus, depois da primeira experiência cinematográfica dos dois. Em 2016, eles participaram de um curso livre de cinema na Vila Valqueire e produziram o curta “Siyanda”, premiado no Festival 72horas —evento que reúne produções feitas em curtíssimo prazo.

“Aprendemos que não se faz cinema com uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, diz o empresário, referindo-se ao lema cunhado pelo cineasta Glauber Rocha (1939-1981). “Tínhamos uma câmera, mas não dava pra fazer o filme com a lente que ela veio. Quando falamos de pessoas que não têm acesso à cultura ou a equipamentos, isso se torna só uma frase, nada demais.”

Estudante na Academia Internacional de Cinema, Hugo é técnico em eletrônica, e lançou mão de sua experiência na área para começar a produzir seus próprios utensílios. O primeiro deles foi uma caixa adaptadora para ligar um boom, microfone omnidirecional usado em gravações externas. Depois começou a fabricar estabilizadores de câmeras para serem usados nos exercícios das aulas.

“Galera começou a gostar, alguns amigos pediram, então demos um salto.”

Hoje a WoTec oferece suspensões para microfones, estojos para cartão de memória, suporte para câmeras e mesas de luz inteligentes, entre outros produtos. Enquanto Hugo cuida da produção, Nathali, que é antropóloga pela Universidade Federal Fluminense e estuda as relações étnico-raciais no cinema negro, é responsável pelo atendimento aos clientes.

O projeto foi acelerado este ano pelo Instituto Ekloos, voltado para negócios de impacto social, em parceria com a Oi Futuro.

“Acreditamos que pessoas que vêm da periferia conhecem seus problemas e conseguem identificar as soluções mais inovadoras”, diz sobre o processo Andrea Gomides, ex-executiva da Microsoft e fundadora do Ekloos.

Durante a mentoria, a empresa passou por um reposicionamento de marca, quando surgiu o nome de inspiração iorubá —o “wo” de WoTec signfica visão no idioma iorubá—, dando uma roupagem mais moderna ao anterior Afro Engenharia. A aceleradora também desenhou com os empreendedores um plano de viabilidade financeira para levá-los ao break even, termo utilizado para o equilíbrio das contas em uma organização.

A WoTec ainda recebeu um aporte de R$ 13 mil, investidos na compra de duas impressoras 3D, o que permitirá aumentar o portfólio de equipamentos ofertados.

“Queremos promover acesso para que pessoas pretas e marginalizadas possam se representar nas telas ou contestar representações postas. Queremos fazer parte desse processo de democratizar as mídias. Estamos investindo em ideias e tecnologias para tornar isso realidade”, conclui Nathali.

Em nota, a Polícia Militar do Rio de Janeiro afirmou que “suas equipes são devidamente treinadas para atuarem no policiamento ostensivo urbano, dotadas de extrema atenção e orientadas tecnicamente.”

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