Ex-morador de rua vira assistente social da linha de frente contra a Covid-19
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Ex-morador de rua vira assistente social da linha de frente contra a Covid-19

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Baiano de Feira de Santana, mais velho de 12 irmãos, ele estudou só até a quarta série primária, quando teve de dar lugar ao próximo da fila.

“Todo mundo ficava na escola até assinar o nome e fazer as quatro operações”, lembra Marivaldo da Silva Santos, cuja trajetória inspiradora é exemplo no Consultório na Rua, projeto que presta atendimento de saúde a populações em situação de vulnerabilidade.

Hoje ele é coordenador de equipe e assistente social da linha de frente dos projetos que atuam com moradores de rua, como o #SeparadosSomosMaisFortes, lançado na pandemia e premiado na categoria Ajuda Humanitária do Empreendedor Social do Ano em Resposta à Covid-19.

Marivaldo já esteve do lado de lá dessa história. “Sempre coloquei na cabeça que viria para São Paulo e foi o que fiz, com 18 anos. Vim direto para a construção civil”, lembra. Aos 19 começou a trabalhar como segurança, onde tiravam sarro de seu sotaque nordestino.

Homem, negro, homossexual, Marivaldo era um poço de recalques.

E foi ali, nas boates onde dava expediente, que rolaram os primeiros contatos com as drogas, álcool, maconha, cocaína. “Aos 27 anos, a droga me desorganizou. Trabalhava para usar, usava para trabalhar, e me vi nessa situação”.

O Marivaldo que sonhava em estudar e nunca se conformou em ter só o ensino fundamental foi parar nas calçadas. “Todo mundo diz que a população de rua é invisível, mas eu não queria ser invisível.”

Nas ruas, ele adquiriu o gosto pela leitura. Queria sair daquela situação um cidadão diferente. “Ia à biblioteca do Centro Cultural Vergueiro, e lia coisas como Karl Marx.”

Marivaldo vivia na praça da Sé quando sete moradores de rua foram assassinados. “No dia do massacre eu fui pro Anhangabaú. No dia seguinte, depois do que aconteceu, resolvi ir para um abrigo. Eu não gostava dos equipamentos sociais, com horários, regras, mas não queria morrer.”

Com a ajuda de uma assistente social de um abrigo na Moóca, Marivaldo voltou a estudar, fazendo cursos como supletivos e pulando etapas. Ela foi fazendo tratos com ele. Antes de começar a beber ou usar maconha, o que fazia todas as manhãs, sugeriu que ele lesse um livro. A leitura, mais uma vez, foi pavimentando seu caminho de conhecimento.

Marivaldo tentava conseguir emprego de segurança, mas quando colocava o endereço do albergue, perdia a vaga. “As pessoas acham que quem está ali veio do sistema prisional, aí fica difícil. A empresa que pegava, mandava embora quando via o endereço. Fiquei quase 6 anos sem contato com a minha casa, perdi todos os vínculos.”

Mas ele já estava disposto a criar outra realidade. Passou a fazer atividade física no Parque da Moóca, seguia com as leituras, quando soube do processo seletivo para ser agente social do programa Consultório na Rua.

“Tinham só 11 vagas, mas pensei ‘não preciso das 11 vagas, precisava de uma’”, lembra. Quando ligaram para o albergue para dizer que ele tinha passado, Marivaldo ficou gelado, apesar do calor que fazia naquele mês de setembro. Sabia que a partir dali daria um significado diferente para sua vida.

Como profissional, queria ser alguém que soubesse valorizar quem está na rua. Mas com seis meses de trabalho, pediu a conta.

“Eu queria voltar para a minha família, mas a Marta não deixava eu ir embora. Ela acreditava em mim”, diz, ao se referir a Marta Regina Marques Akiyama, coordenadora do Consultório na Rua. “Até que entendi que saudade era diferente de partir.”

Marivaldo enfim chegou à faculdade e ficou dois anos cursando Ciências Políticas, até perceber que não estava ali a sua vocação.

Em 2009, foi fazer Serviço Social e se encontrou. Hoje, faz a supervisão de equipes de atendimento do Consultório da Rua. “Dizem que sou um exemplo, mas não me vejo assim.”

A supervisão de UBSs, como as da República e da Brasilândia, deram a ele a oportunidade, com o projeto #Separados Somos mais Fortes, de levar cuidado e orientação a uma população que, se acreditava, seria dizimada com a chegada do novo coronavírus.

“Foi um trabalho fundamental”, comemora Marivaldo. Além de toda sua dedicação à população de rua, o assistente social escreve poemas, que compartilha com os amigos do projeto e são mais uma fonte de elogios para o baiano realizado.

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