Depressão nas periferias de SP se agrava com pandemia e preocupa
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Depressão nas periferias de SP se agrava com pandemia e preocupa

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em Cidade Tiradentes, zona leste da cidade de São Paulo, as lembranças do poeta e rimador Flávio Dias Jr., conhecido como Buia, são a de um rapaz calmo, que mandava bem na poesia e inspirava jovens em sua volta.

Diagnosticado com depressão, Buia cometeu suícidio em 29 de outubro passado, dia em que faria 22 anos.

“Ele sempre foi reservado em casa, então para a gente era normal às vezes o Flávio se isolar. A primeira crise depressiva que notei foi aos oito anos após minha separação com o pai dele”, diz a mãe Vanessa Dias, 41. “Com o passar do tempo, reatei o relacionamento e tudo parecia normal, porém às vezes ele parecia triste demais, mas nunca dei a importância necessária.”

Com gritos de “Buia vive” e cercada de velas brancas acesas, em homenagem a Flávio, a manicure Júlia Navalha, 20, levantou a importância do debate sobre a depressão nas periferias. “A depressão é a doença do século e atinge a quebrada por vários motivos”, afirma.

A preocupação de Navalha não é isolada. A depressão tem sido um problema que se agravou com a pandemia de Covid-19 e a necessidade de isolamento social para se proteger da contaminação.

Em Heliópolis, a maior favela de São Paulo, o Observatório De Olho Na Quebrada fez um estudo sobre os impactos da pandemia na vida dos moradores. Entre as conclusões, detectou pessoas mais tensas, impacto no sono e aumento de casos de depressão. A iniciativa ouviu 281 moradores, sendo que a maioria foi de mulheres.

A pesquisa, que contou com o apoio de pesquisadores da área da saúde pública da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), mostrou que 86% dos entrevistados relataram depressão e 90% disseram que não estavam desfrutando das atividades normais. Morte foi uma das palavras mais citadas pelos moradores da favela.

“A falta de políticas públicas para o combate [da pandemia] como a demora na definição do auxílio emergencial, além da falta de testagem nos casos suspeitos e a de informações sobre os casos de mortes e contaminados deixou a periferia em uma espécie de apagão de informações”, comenta Reginaldo José Gonçalves, 44, coordenador de projetos da Unas (União de Núcleos e Associações dos Moradores de Heliópolis e Região).

Antes mesmo da pandemia, já havia uma preocupação com os casos de depressão e suicídio no Brasil. Segundo a cartilha Óbitos por Suicídio entre Adolescentes e Jovens Negros, lançada pelo Ministério da Saúde em 2018, adolescentes e jovens negros têm maior chance de se matarem.

O levantamento mostrou que o risco na faixa etária de 10 anos a 29 anos foi 45% maior entre jovens que se declaram pretos e pardos do que entre brancos no ano de 2016. A taxa de mortalidade por suicídio entre jovens e adolescentes brancos permaneceu estável de 2012 a 2016, mas aumentou 12% na população negra com a mesma idade no mesmo período.

Em todos os anos analisados pelo órgão, o número de suicídios foi maior entre adolescentes e jovens negros quando comparados com brancos.

“Ser gay, ser negro, são questões muitas vezes centrais no sofrimento psíquico. Mulheres tentam mais suicídio que os homens mas homens são os que mais se matam. Homens ficam em silêncio muito tempo sem que ninguém perceba, o que leva não apenas às ideias suicidas, mas ao planejamento do suicídio”, diz a psicóloga Helen Barbosa dos Santos, doutora em psicologia social e institucional pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

Para ela, faltam lugares de escuta e principalmente a quebra do preconceito com o tratamento. “O sujeito que vive a depressão sabe que ela grita, mas o silêncio vem do tabu e da falta de acesso aos espaços seguros de escuta e apoio”, aponta.

Por conta disso, coletivos e grupos têm se mobilizado nas periferias da capital e da Grande São Paulo para conscientizar a população sobre saúde mental e prevenção ao suícidio, sobretudo entre os mais jovens.

Desde 2008, os artistas Laiz Lamarante, 29 e Renan Samam, 31, atuam no Jardim Salete, município de Taboão da Serra, e em Paraisópolis, a segunda maior favela da capital, com o intuito de formar uma rede de afeto entre os moradores por meio de bate-papos, shows e outros eventos.

No acompanhamento, em que já participaram cerca de 200 pessoas, Lamarante vê avanços. “Meninos e meninas decidiram levar a sério a escola, fazer um curso, se tornaram líderes encorajadores dos amigos na escola e no bairro, pessoas que resolveram perdoar, enfim. Tudo se move quando o amor está presente.”

Uma das principais ações é o “Não Desista de Você”. Vestidos de preto, em sinal de luto, eles estendem bandeirões onde se lê o lema e usam um megafone para dar palavras de encorajamento às pessoas.

Durante a ação, as pessoas que aceitam ajuda são encaminhadas a psicólogos parceiros e começam a participar de bate-papos semanais. Na pandemia, as conversas têm sido online.

“A gente ouve criança abrindo o coração falando que é estuprada pelo pai, mãe que fala sobre o quanto apanha cruelmente em casa ou um menino pedindo ajuda porque o maior desejo é o de se jogar de uma laje”, relata Lamarante.

Para o designer Ney Oliveira, 31, morador de Artur Alvim, na zona leste da capital, o apoio de uma terapia online de baixo custo foi essencial. “Antes da terapia estava sofrendo com a pressão do dia a dia profissional, o que me levou a sofrer alguns desmaios por conta da crise de ansiedade. No primeiro dia da sessão já me senti mais calmo”, diz.

“Quando comecei o tratamento estava com muitos clientes inadimplentes e não teria a menor condição de fazer uma terapia com sessões nos valores praticados pela maioria dos terapeutas”, comenta.

Oliveira contou com o apoio do Núcleo Girassóis, grupo de psicólogos que desde 2017 faz atendimentos psicológicos de baixo custo, e viu seu estado de saúde melhorar em seis meses de atendimento.

Apesar disso, nem sempre o atendimento online é a melhor opção, observa a psicóloga e coordenadora do projeto, Marcia Vilas Boas 45. “Nas situações de surto ou de tentativa de suicídio é preciso que ele seja presencial e que seja feita uma equipe multidisciplinar”, explica.

O projeto visa conectar psicólogos disponíveis e pacientes por meio de uma rede online criada pelo grupo, o que consegue baratear o custo dos atendimentos sociais.

Em casos em que o paciente não pode pagar, o grupo o ajuda a encontrar atendimento na rede pública de saúde. As UBS (Unidade Básica de Saúde) e os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) são exemplos de serviços que servem como portas de entrada para quem precisa desse serviço.

Moradora de Artur Alvim, a enfermeira e pesquisadora de saúde mental Bruna de Paula Candido, 25, ressalta que é direito de todo brasileiro acessar instituições públicas e serem humanizadas em seus tratamentos psíquicos.

Ela enfatiza a importância, contudo, de grupos nas periferias que assumem o papel de mediação, o que contribui para evitar questões mais sérias, como o próprio suicídio. “Inseridos na comunidade, atuam com apoio emocional e afetivo com essas pessoas. A comunidade atua como ponte, como ajuda, até mesmo entre a comunidade e o serviço de saúde.”

Para a pesquisadora, a reivindicação por melhores serviços em saúde mental deve ser uma ação coletiva. “É importante que, para além das famílias e dos trabalhadores da área, a sociedade esteja envolvida nessa luta coletiva, pois os cuidados envolvem uma comunidade e o SUS.”

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