"É morte por cima de morte"; remoção de corpos em casa cresce com disparada da Covid no Amazonas
Brasil

“É morte por cima de morte”; remoção de corpos em casa cresce com disparada da Covid no Amazonas

Por Bruno Kelly e Gabriel Araujo

MANAUS/SÃO PAULO (Reuters) – Com um sistema de saúde à beira do colapso devido a um novo aumento no número de casos e óbitos em decorrência da Covid-19 no Amazonas, a capital Manaus tem verificado uma alta demanda pela remoção de corpos de pessoas que morreram em suas próprias casas.

Um dos primeiros Estados do país a sofrer com a sobrecarga da rede hospitalar em função da pandemia de coronavírus ainda em abril do ano passado, o Amazonas viu suas contagens de casos e mortes dispararem nos últimos dias, mais uma vez.

Como reflexo da alta ocupação de leitos hospitalares, há um número também elevado de pessoas morrendo em suas casas. Equipes de agentes sanitários são responsáveis pelas remoções dos corpos, que já tinham ocorrido durante a primeira onda da pandemia, e agora o sistema de declaração de óbitos da prefeitura passou a registrar demanda acima do normal.

Muitas das pessoas que morrem em casa no Estado possuem sintomas de Covid-19 e têm os corpos posteriormente testados para confirmação da presença do vírus, já que em caso de resultado positivo a realização do velório é proibida e o enterro limitado a três pessoas.

Outros óbitos, porém, são consequência indireta do alto índice de ocupação dos leitos hospitalares locais por causa da pandemia, uma vez que há pessoas com outras doenças que são impossibilitadas de procurar hospitais para atendimentos de urgência em decorrência da baixa disponibilidade de vagas.

Um dos corpos removidos em casa foi o de Shirlene Morais Costa, de 53 anos, que morreu na segunda-feira, após apresentar sintomas de Covid-19, como tosse e febre.

Segundo seu padrasto, Esteliano Lopes Filho, de 74 anos, ela chegou a ir ao pronto-socorro durante os sintomas, mas voltou para casa, onde morreu logo depois.

“A morte dela foi rápida… Nós chamamos o Samu, mas só chegou depois dela morta. Teve o procedimento, depois passou a perícia, que fez os procedimentos”, disse ele, referindo-se aos trâmites para remoção do corpo. Shirlene foi enterrada nesta terça-feira.

“É morte por cima de morte… É uma calamidade muito grande, mesmo”, afirmou.

Segundo dados publicados pelo Ministério da Saúde, na segunda-feira o Amazonas reportou o terceiro maior número de casos de Covid-19 entre todos Estados do país, com mais de 2.000 infecções, além da segunda maior contagem de óbitos, com 59. O Estado é a terceira unidade da federação com mais óbitos acumulados por 100 mil de habitantes, atrás apenas do Rio de Janeiro e do Distrito Federal.

Com o repique nos números da doença, a ocupação dos leitos dos hospitais amazonenses também voltou a aumentar. No início desta semana, os leitos clínicos destinados a pacientes de Covid-19 no Estado atingiam taxa de ocupação de 98,2%, conforme informações da Secretaria de Saúde estadual.

Os leitos de UTI para pacientes do coronavírus, por sua vez, estavam 91,4% ocupados, enquanto a ocupação nas chamadas salas vermelhas, estruturas que visam a assistência temporária de pacientes críticos e graves para posterior encaminhamento a outros pontos da rede de saúde, chegava a 130,77%.

Na segunda-feira, a secretaria reportou 1.391 pacientes internados com Covid-19 no Estado, além de outras 603 pessoas hospitalizadas com suspeita da doença, aguardando confirmação.

Procurada, a Secretaria de Saúde de Manaus afirmou, por meio de assessoria de imprensa, que não realiza remoção de corpos e é responsável apenas pelo atendimento básico, enquanto a Prefeitura de Manaus não respondeu de imediato a um pedido por comentários.

Já a Secretaria de Saúde do Amazonas afirmou que “tem empreendido todos os esforços possíveis para ampliar o número de leitos na rede estadual de Saúde”, acrescentando que a rede de saúde teve um aumento de 155% no número total de leitos em função da pandemia.

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