Com 'lockdown', média móvel de casos de coronavírus no Reino Unido cai 79%
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Com ‘lockdown’, média móvel de casos de coronavírus no Reino Unido cai 79%

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O terceiro “lockdown” decretado pelo governo do Reino Unido apresentou bons resultados. Depois de 47 dias de confinamento no país inteiro, a média móvel diária de novos casos caiu 79%, passando de 59 mil para 12 mil. Também se observa uma redução sustentada no número de internações e mortes e a vacinação está bem adiantada em comparação com outros países da Europa.

O primeiro-ministro Boris Johnson deve anunciar nesta segunda-feira, 22, um plano para aliviar gradualmente as restrições. A primeira atividade a ser retomada provavelmente será o ensino presencial nas escolas, no dia 8 de março. Elas estão fechadas desde 5 de janeiro, quando se iniciou o “lockdown” no país.

“A retomada precisa ser gradual para dar tempo de observar os números e, se necessário, voltar com as medidas severas de isolamento”, explica a infectologista Ana Luiza Gibertoni. A brasileira trabalha no serviço nacional de saúde britânico (NHS, na sigla em inglês) e cursa doutorado na Universidade de Oxford.

Outra consequência visível do “lockdown” é a diminuição do número de internações. A frase “Fique em casa, proteja o NHS” virou símbolo do “lockdown” inglês e pode ser vista em pontos de ônibus, letreiros luminosos e em anúncios governamentais nas redes sociais.

A média móvel diária de pessoas admitidas em hospitais com covid-19 chegou ao pico de 4.230 em 9 de janeiro. No dia 12 de fevereiro, último dado disponibilizado pelo governo, o número estava em 1.583, uma redução de 62,5%.

A mesma tendência é observada nos óbitos. Em 19 de janeiro o país atingiu o pico, com média móvel diária de 1.280 mortes. Em 12 de fevereiro, a média de mortes por dia caiu para 494, uma redução de 61%.

“O Reino Unido conseguiu provar que o ‘lockdown’ é uma boa medida para conter o coronavírus”, analisa Ana Luiza. A infectologista diz que outro fator que pesa bastante na estratégia britânica de contenção do coronavírus é a testagem em massa. Todo mês, 150 mil pessoas são testadas aleatoriamente em um monitoramento feito pelo Imperial College para monitorar a situação da epidemia na comunidade.

A médica do NHS afirma que ainda não é possível afirmar que a vacinação está ajudando no controle da pandemia. “Um estudo do Imperial College mostrou que a redução do número de casos foi proporcional nas faixas etárias”, diz Ana Luiza. Se a vacinação já estivesse contribuindo com os números, deveria haver uma redução muito maior nos casos entre pessoas maiores de 65 anos, prioridades na campanha de imunização do governo.

O Reino Unido é o país que mais vacinou na Europa segundo o site Our World in Data, da Universidade de Oxford. Até a sexta-feira, 19, cerca de 25% da população havia recebido a primeira dose do imunizante, enquanto a média no continente é de 6%. Em números absolutos, 16,8 milhões de pessoas receberam a vacina no país. No entanto, os dados ainda não mostram relação entre a vacinação e a redução no número de casos.

Problemas

Apesar de as medidas do governo serem duras e restringirem significativamente a mobilidade da população, ainda se vê gente circulando pelas ruas do país. Só é permitido sair de casa para atividades essenciais ou exercícios físicos. Para Ana Luiza, falta fiscalização. “Tem muitas pessoas conversando na rua sem respeitar a distância adequada. Faltam fiscais para orientar a população”, diz.

Outro ponto levantado pela médica é o uso de máscaras. Na Inglaterra, não é obrigatório usar a proteção em locais abertos como ruas e parques. São raras as pessoas que usam máscaras quando saem para praticar exercícios ao ar livre, por exemplo.

“Fico perplexa porque até hoje o governo ainda não estabeleceu uma regra para o uso de máscara na rua. Isso pode até ter relação com o aumento do número de casos no fim do ano passado”, fala.

Mutação

O terceiro “lockdown” foi decretado no Reino Unido no início de janeiro após um aumento exponencial no número de casos. A principal explicação dos especialistas para isso é uma mutação identificada na região de Kent, no sudeste da Inglaterra, com alta capacidade de transmissão. Ana Luiza esclarece que essas mutações são algo comum.

As variantes são encontradas quando pesquisadores fazem o sequenciamento do genoma dos vírus. O Reino Unido está à frente nesse assunto, que ajuda o governo a acompanhar a evolução da pandemia e entender as medidas que devem ser tomadas.

A nova linhagem, chamada de B117, surgiu no início de setembro de 2020. Na época, era encontrada em uma a cada quatro novas infecções. Três meses depois, mais de dois terços dos casos registrados em Londres estavam relacionados à nova cepa. Análises mostraram que enquanto a taxa de transmissão das cepas anteriores era de 0,4, o índice da nova mutação já estava em 0,7.

No início de novembro, com a pandemia saindo novamente do controle, o governo decretou “lockdown” nacional por um mês. As restrições eram menos severas do que as atuais e as escolas permaneceram abertas. Em dezembro, mesmo sem controlar a disseminação do vírus, o primeiro ministro Boris Johnson decidiu reabrir os serviços.

Para Ana Luiza, o “lockdown” deveria ter continuado por mais tempo. “Havia um dado muito claro de que o número de infecções não baixava. Seria melhor ter pecado pelo excesso”, analisa. No entanto, ela fala que houve muita pressão, especialmente da área econômica, para que a reabertura acontecesse.

Cerca de um mês depois do relaxamento das medidas, o terceiro e atual isolamento rigoroso foi anunciado. A médica afirma que o governo acertou em retomar as restrições. “As medidas de distanciamento estão corretas. O isolamento tem que ser levado a sério”, diz.

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