'Me senti protegida', diz atriz árabe sobre viver dominatrix em 'Little Birds'
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‘Me senti protegida’, diz atriz árabe sobre viver dominatrix em ‘Little Birds’

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – “Pequenos Pássaros” foi lançada em 1979. Anaïs Nin, a autora, havia escrito a série de contos eróticos na década de 1940, mas nenhum editor se atreveu a publicá-los. Eram provocantes demais para a época. Talvez o sejam até hoje.

Na trama de “Passarinho”, por exemplo, colegiais saem correndo de um homem que exibe o pênis enrijecido para as meninas, que ele convidara para ver os pássaros que criava em casa. O livro acabou sendo lançado apenas dois anos após a morte da escritora.

Agora, a publicação empresta o título para a série “Little Birds”, que chegou ao Brasil no último dia 14 por meio do serviço de streaming Starzplay (a cada domingo, um dos seis episódios entra no ar). Os contos de Nin não aparecem diretamente na trama. Porém, o espírito libertário da autora pode ser percebido na recriação da artista visual Sophia Al Maria, que criou a série.

“Nós estávamos conversando sobre fazer algo relacionado à sexualidade moderna”, explica a produtora executiva Ruth McCance em entrevista à Folha de S.Paulo. “Sophia, que é muito interessada nas questões de identidade e gênero, foi quem sugeriu que centrássemos a narrativa no Marrocos na década de 1950, o que é um ótimo ponto de partida.”

Na trama, a americana Lucy (Juno Temple) se muda para Tânger (reproduzida no sul da Espanha para a série) enquanto a cidade ainda era uma colônia britânica para se casar com o prometido, Hugo (Hugh Skinner). Lá, se depara com uma liberdade sexual até então desconhecida para ela, e passa a explorá-la cada vez mais.

Entre as pessoas que mais lhe causam fascínio está Cherifa Lamour (Yumna Marwan), uma dominatrix que atende à alta sociedade local. A vida das duas passa então a se entrelaçar. “As duas estão em processo de mudança, em um momento em que o risco de permanecer igual é mais doloroso do que o de florescer”, avalia McCance. “A ligação entre elas se dá porque elas olham uma para a outra e se sentem mais capazes de confrontar as forças que as oprimem, especialmente no caso da Lucy.”

“Apesar de Lucy ter de tudo ao seu redor, ela ainda está tentando descobrir do que gosta e a parar de mentir para si própria”, concorda Yumna Marwan, que interpreta Cherifa. “Já a minha personagem eu defino como uma vadia durona (risos). Eu não sei ainda se é uma durona do bem. Ela é vulnerável, um quebra-cabeças sem medo de nada.”

A atriz libanesa, aliás, faz sua estreia em produções internacionais. O convite para ser testada para a série veio diretamente do diretor de elenco. “Eu nem sequer tinha um agente”, conta ela. “Apesar de trabalhar há alguns anos na indústria, no mundo árabe o mais comum é todo mundo trabalhar e gerenciar a própria carreira.”

Mesmo assim, ela pegou um dos papéis principais logo de cara. “Pelas cenas que haviam me mandado para os testes dava para ver que era uma personagem dinâmica, com muitos lados”, comemora. “É uma personagem muito interessante para qualquer atriz.”

Só que com o papel vinham também muitas cenas de sexo, o que poderia não ser muito bem-visto em seu país, de maioria muçulmana. “Isso me fez pensar um pouco”, diz. “Fico um pouco tímida quando não estou usando muita roupa, não gosto que meu corpo seja tão exposto. Porém, falei com os produtores e com a diretora sobre o assunto e senti que elas entendiam de onde eu vinha, então me senti protegida por saber que nada aconteceria sem a minha permissão.”

A produtora lembra que, apesar das diversas cenas eróticas, há muito mais coisa sendo sugerida do que mostrada de fato. “As cenas não são tão explícitas quanto em ‘Game of Thrones’, por exemplo, elas eram pensadas para serem provocativas e entretidas, mas nunca pornográficas”, diz McCance.

Ela lembra que boa parte da equipe era formada por mulheres, o que ajudou a criar um clima tranquilo para as atrizes. “Muitas séries usam um ‘coordenador de intimidade’, mas escolhemos não seguir esse caminho, senão tentar fazer de tudo para que todos estivessem confortáveis.”

Para se preparar para as cenas em que usa diversos brinquedos eróticos para causar dor nos clientes, Yumna visitou uma dominatrix de verdade. “Ela me ensinou como usar alguns dos artefatos”, lembra. “O mais importante e esclarecedor, no entanto, foi conversar com ela para entender como ela lida com os clientes, como se dirige a eles e em que estado mental ela fica quando está trabalhando.”

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