ANÁLISE-Bolsonaro tem em Lula adversário ideal, não fácil, e deve reforçar populismo
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ANÁLISE-Bolsonaro tem em Lula adversário ideal, não fácil, e deve reforçar populismo

ANÁLISE-Bolsonaro tem em Lula adversário ideal, não fácil, e deve reforçar populismo

A volta do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao tabuleiro eleitoral de 2022 dá ao presidente Jair Bolsonaro o adversário ideal para sua tentativa de reeleição, mas está longe de lhe dar favoritismo no pleito e deve ter o efeito de fazer o presidente reforçar a postura populista que vem adotando nas últimas semanas, afastando a possibilidade de aprovação de reformas.

Analistas ouvidos pela Reuters afirmaram que a volta de Lula ao jogo, com a anulação das condenações que sofreu na Lava Jato em Curitiba e consequente retomada de seus direitos políticos, altera significativamente o panorama colocado até então para o pleito do ano que vem.

“Isso muda todo o desenho, todo o panorama que a gente tinha”, disse à Reuters o consultor político e CEO da Dharma Politics, Creomar de Souza.

“É óbvio que está muito cedo, mas isso estrangula todo aquele esforço de uma candidatura de centro, mais moderada. Talvez algumas candidaturas que eram ventiladas morram antes mesmo de decidirem nascer”, avaliou.

Na segunda-feira, o ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, anulou todas as condenações impostas ao ex-presidente pela 13ª Vara Federal de Curitiba no âmbito da operação, medida que devolve ao petista seus direitos políticos.

Ao mesmo tempo que uma candidatura de Lula favorece a estratégia de Bolsonaro, que funciona na busca constante de antagonistas, o petista também é um adversário forte, apontado em pesquisas como dono de um potencial eleitoral maior que o de Bolsonaro, e que esteve à frente de um governo extremamente popular, que fez a sucessora, em que pese o desgaste dos últimos anos com acusações e condenações por corrupção no âmbito da operação Lava Jato.

“Dado o antipetismo, Bolsonaro teria mais chance enfrentando um candidato como Lula do que um candidato com menor rejeição”, disse o cientista político Carlos Melo, professor do Insper.

“(Mas) o maior adversário do Bolsonaro vinha sendo ele mesmo, agora ele tem um adversário para explorar política e eleitoralmente os erros dele. Um adversário com rejeição, mas um adversário que, mostram as pesquisas, tem um potencial eleitoral maior que o dele”, disse. “Não significa que o Lula seja o queridinho do país, como era em 2010 quando saiu com 86% de aprovação, significa que o antibolsonarismo é muito grande”, avaliou.

Para Melo, confirmadas as candidaturas de Bolsonaro e Lula, o pleito do ano que vem tende a ser uma polarização entre antibolsonarismo e antipetismo.

“Não vai ser uma eleição de afirmação do Bolsonaro ou uma eleição de afirmação do Lula; vai ser uma eleição de negação do Bolsonaro ou de negação do Lula. O que é ruim para o país”, disse.

“Bolsonaro vai poder tentar de alguma forma fazer o chamamento ao antipetismo. Aí nós vamos ver qual o tamanho do antipetismo hoje. Em 2018 nós sabemos. Hoje esse antipetismo ainda é deste tamanho? É um jogo diferente de 2018, não é o mesmo jogo.”

“PIOR FASE”

Para Melo e também para o cientista político e diretor da Vector Relações Governamentais, Leonardo Barreto, outra dificuldade que Bolsonaro deve enfrentar é o fato de seu governo não ter muito a mostrar até o momento e sofrer desgaste por causa da gestão da pandemia de Covid-19, enquanto Lula carrega no currículo o posto de presidente que deixou o cargo com maior popularidade na história do país.

“Ele (Bolsonaro) está na pior fase dele, que é uma fase que não tem nem vacina (contra a Covid-19), nem auxilio (emergencial para os vulneráveis na pandemia)”, avaliou Barreto.

“Mas isso deve mudar em dois meses. Vai ter 40 milhões de doses previstas, e vai ter o retorno do auxilio, que deve melhorar um pouco a situação do Bolsonaro, embora ele tenha que se preocupar com a inflação, que é uma coisa quente e complicada que devora a popularidade dos presidentes.”

Os analistas concordam que a entrada de Lula deve acentuar o movimento de Bolsonaro em direção a medidas mais populistas, deixando de lado uma agenda de reformas econômicas –nas áreas fiscal, administrativa e a tributária– vetores tradicionais de desgaste eleitoral por contrariarem uma série de interesses.

“Alguém acha que o Bolsonaro vai assumir algum passivo eleitoral com o Lula sendo candidato? E com todas as projeções colocando que o Lula tem maior potencial que ele? Não vai. Então não vem reforma, não vem nada”, disse Creomar, da Dharma.

Melo, do Insper, concorda, e pontua, ao mesmo tempo, que a situação fiscal do país limita o espaço para a adoção de medidas populistas na seara econômica. Na política, no entanto, o presidente pode dobrar a aposta na radicalização, inclusive com a retomada de uma retórica mais incendiária em relação a outros Poderes, como o Judiciário, simbolizado pelo STF.

“Isso pode dar a ele alguma coisa como 25%, 30% dos eleitores, que é o que está com ele. Com 25%, 30% dos votos, ele vai para o segundo turno”, disse Melo. “Aí no segundo turno é jogar com a reprovação do adversário.”

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