Bilheterias de Paulo Gustavo enfrentaram religião e Hollywood
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Bilheterias de Paulo Gustavo enfrentaram religião e Hollywood

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FOLHAPRESS – É no mínimo bizarro olhar para as listas das maiores bilheterias e dos maiores públicos do cinema brasileiro. Como pode a primeira ser encabeçada por “Minha Mãe É uma Peça 3”, filme com um homem gay fazendo drag, e a segunda, por algo tão fervorosamente religioso como “Nada a Perder”, biografia do bispo Edir Macedo?

Talvez poucas imagens sejam tão ilustrativas do turbilhão de contradições que é o Brasil. Criação de Paulo Gustavo, morto nesta terça em decorrência de complicações causadas pela Covid-19, a Dona Hermínia, protagonista de “Minha Mãe É uma Peça 3”, abocanhou R$ 143,8 milhões das bilheterias entre 2019 e 2020 –R$ 23 milhões a mais do que o título gospel.

Dados de arrecadação de bilheteria diferem dos de público. No Brasil, ao contrário dos Estados Unidos, o sucesso dos filmes costuma ser medido pelo segundo fator, que ignora ajustes nos preços de ingresso, por exemplo. Isso permitiu que “Nada a Perder” ficasse à frente de “Minha Mãe É uma Peça 3” no “ranking oficial” do cinema nacional. Mas não sem inflacionar dados com distribuição de ingressos gratuitos e salas vazias.

A comédia concebida pelo ator não precisou apelar para conquistar o Brasil. O carisma de seu protagonista bastou para que o país se rendesse ao charme estridente de Dona Hermínia.

Franquia de maior sucesso do cinema nacional, “Minha Mãe É uma Peça”, que tem origem no teatro, teve 4,6 milhões de espectadores em sua estreia cinematográfica, em 2013. Seu segundo volume levou 9,3 milhões de pessoas às salas, em 2016, e o terceiro e mais recente, 11,6 milhões –meio milhão a menos que os supostos espectadores de “Nada a Perder”.

Muita gente gargalhou no escurinho do cinema acompanhando o alter ego de Paulo Gustavo. Mais importante do que isso, vários LGBTs se viram representados nas telas, não exatamente por causa de Dona Hermínia, mas de seu filho gay. Famílias souberam acolher melhor seus parentes, enquanto nesse mar de gente que lotou as salas, muitos certamente aprenderam e largaram seus preconceitos graças à trilogia.

“Minha Mãe É uma Peça” é um sucesso que vai muito além do fator financeiro. Mas é claro que ele foi essencial para garantir sequências que colaram a imagem de Dona Hermínia no imaginário popular. Um quarto filme para a franquia seria inevitável, enquanto um derivado em formato de série já estava em desenvolvimento. É um blockbuster de dimensões estratosféricas, raras entre as produções nacionais.

O terceiro filme chegou até mesmo a desbancar a animação da Disney “Frozen 2” e o aguardado “Star Wars: A Ascensão Skywalker” nas arrecadações diárias entre dezembro de 2019 e janeiro de 2020 no Brasil. Não havia rainha de gelo que encarasse os gritos da dona de casa protagonista.

Com uma fórmula de humor escrachado usada quase que à exaustão por filmes nacionais, “Minha Mãe É uma Peça” não inventou a roda –mas Paulo Gustavo a soube usar com genialidade. A maneira como falou sobre homossexualidade nos filmes, e seus próprios posicionamentos pessoais, avessos à militância, são questionáveis. Mas talvez por isso mesmo a franquia tenha dialogado com tanta gente, sem polemizar ou levantar bandeiras de forma direta.

Foi com essa abordagem mansa e cômica que o sucesso do ator nas telonas extrapolou “Minha Mãe É uma Peça”. Na lista dos 30 filmes de maior público do cinema nacional, Paulo Gustavo aparece quatro vezes. Com a trilogia que o catapultou à fama, claro, e também com “Minha Vida em Marte”, em que faz o “amigay” afetado da protagonista vivida por Mônica Martelli.

O ator certamente ajudou o longa a alcançar seus R$ 80 milhões de arrecadação em 2018. Outros sucessos, como “Divã”, “Vai que Cola: O Filme” e “Fala Sério, Mãe!”, também tiveram Paulo Gustavo em sua força-tarefa para conquistar o público nacional. Foram milhões e milhões de reais movimentados no setor cinematográfico com a ajudinha do ator.

Sua capacidade de se conectar com o público, como as demonstrações de pesar de agora comprovam, e o alcance de seus filmes são monstruosos. Críticas à parte, vai fazer falta ter um Paulo Gustavo para fazer sombra aos discursos conservadores de “Nada a Perder” e suas crias.

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