ANÁLISE-Riscos políticos na América Latina perseguem investidores com aproximação de eleição no Peru
Central America

ANÁLISE-Riscos políticos na América Latina perseguem investidores com aproximação de eleição no Peru

ANÁLISE-Riscos políticos na América Latina perseguem investidores com aproximação de eleição no Peru

A corrida eleitoral no Peru entre dois candidatos polarizados é o mais recente em uma série de eventos de risco político que assombram investidores na América Latina, região que luta para acompanhar seus pares globais apesar do boom das commodities.

A América Latina já estava mergulhada em agitação social antes que a pandemia de Covid-19 a atingisse. Agora, uma sequência de eleições que se estende para 2022, protestos na Colômbia e turbulências sobre a Constituição do Chile têm levado investidores a se preparar para uma nova onda de incertezas sobre a formulação de políticas.

Além disso, o coronavírus ainda está devastando a região, com Argentina, Colômbia, Brasil e Chile registrando muito mais casos confirmados por milhão de pessoas do que a Índia.

“O mercado, e os investidores em geral, estão muito nervosos com a América Latina”, disse Ricardo Adrogue, chefe do grupo de moedas e dívida soberana global da firma de investimentos Barings.

“A América Latina vive um momento muito difícil. Está tendo eleições em um momento em que (a Covid-19) tem sido tão dolorosa, tão mortal e tão disseminada em tantos países da região que torna possível uma mudança de direção econômica e política.”

A economia da América Latina encolheu 7% no ano passado, contração mais acentuada de todas as regiões emergentes, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Crescentes pressões globais de inflação e rendimentos atingiram a região de forma desproporcional, com bônus em moeda forte e local atrasados ante seus pares ​​em 2021 e muitas das moedas regionais apresentando desempenho inferior.

Os preços em alta das commodities não proporcionaram muito alívio a uma região dominada por exportadores de recursos básicos. A previsão de crescimento econômico de 4,7% neste ano depende de que a recuperação continue no caminho certo, apesar do lento progresso da vacinação.

“O aumento da volatilidade política tirou o brilho de muitas coisas positivas no que diz respeito ao impacto do preço das commodities na região”, disse Angus Bell, da Goldman Sachs Asset Management.

“Obviamente, tem havido um fluxo de notícias no Peru, há coisas acontecendo no Chile, também estamos entrando em um ciclo eleitoral no Brasil, onde o ex-presidente está de volta à cena.”

A moeda do Peru, o sol, está em uma montanha-russa, conforme pesquisas mostram que o socialista Pedro Castillo –que quer mais impostos e pagamentos de royalties no setor de mineração– está à frente da candidata de direita Keiko Fujimori antes da eleição presidencial de 6 de junho.

Gustavo Petro –um ex-insurgente antes próximo ao líder venezuelano Hugo Chávez e cujas propostas de gastos sociais levantam as sobrancelhas da disciplina fiscal– lidera as primeiras pesquisas para a eleição presidencial de 2022 na Colômbia.

O ex-presidente de esquerda Luiz Inácio Lula da Silva parece ter uma chance de destituir o governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro no ano que vem no Brasil, e a votação do Chile neste mês para uma assembleia constituinte desferiu um golpe no partido de centro-direita do governo antes das eleições presidenciais de novembro.

No Equador, a vitória surpresa de Guillermo Lasso na eleição presidencial de abril foi um raro êxito da direita no atual ciclo eleitoral.

Apesar de um padrão de rejeição percebido no mercado financeiro, a ascensão da política de esquerda está longe de ser por regra negativo para os mercados, como mostram o presidente do Equador, Lenín Moreno, ou o mexicano Andrés Manuel López Obrador.

Mas alguns investidores estão receosos de mudanças bruscas de política que ponham o importante setor de mineração na mira, ou coloquem economias no mesmo caminho da Venezuela –onde uma longa crise econômica se transformou em uma crise humanitária–, ou mesmo aproximem os países da situação da Argentina, prejudicada por inflação e dívida sufocantes.

“Os ciclos políticos tendem a ir em ondas, e acho que estamos nos estágios iniciais de uma onda política de esquerda na América Latina”, disse Peter Gillespie, gestor de portfólio de ações da Lazard Asset Management que investe principalmente no México, Brasil, Peru e Colômbia.

Os mercados de ações latino-americanos estão atrás de outras regiões em pelo menos 18 pontos percentuais desde o início de 2020, pois lutam para se recuperar da crise.

O aumento do desemprego e da desigualdade gerou novos distúrbios. Na Colômbia, protestos mortais estão em sua quarta semana, após pressão relacionada a reformas tributária e de saúde.

“Lembramos os movimentos sociais de 2019 –alguns países estão vendo ressurgimentos em 2021, refletindo circunstâncias que precisam ser corrigidas em muitos países latino-americanos”, disse Alejandro Werner, diretor do FMI para o Hemisfério Ocidental.

O peso colombiano, em queda de mais de 8% neste ano em relação ao dólar, está entre as moedas de pior desempenho global em 2021.

A queda foi rápida e sem diminuição à vista.

A agência de classificação de risco de crédito S&P Global reduziu o rating da Colômbia para “junk” (grau especulativo), com mais rebaixamentos esperados.

Uma análise pela S&P de credit default swaps (CDS, derivativos que medem risco de calote de dívida) implica um rebaixamento de dois graus na classificação de crédito do Peru e do Chile e um corte de um grau no México, mal mantendo o país dentro da faixa de grau de investimento.

“A Covid, assim como faz no corpo humano, expõe as condições pré-existentes. E houve uma espécie de erosão da fé na capacidade de a democracia funcionar em um número cada vez maior de países da região”, disse Dan Restrepo, pesquisador sênior do Center for American Progress.

“Estamos em tempos difíceis politicamente e, como resultado, economicamente em vários desses países da região.”

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