Ginasta rítmica quer levar Brasil e sonho da família à Olimpíada
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Ginasta rítmica quer levar Brasil e sonho da família à Olimpíada

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Geovanna Santos da Silva, 19, carrega o sonho de sua família inteira.

Nesta sexta-feira (11), a atleta e a seleção brasileira de ginástica rítmica estreiam no Pan-Americano da modalidade, no Parque Olímpico da Barra, no Rio de Janeiro. A competição representa a última chance de classificação para a Olimpíada de Tóquio.

Para conseguir a vaga no conjunto, o Brasil precisa vencer a disputa. No individual, necessita ter a melhor ginasta entre aquelas ainda não classificadas –Bárbara Domingos, 21, é uma das favoritas e talvez a maior esperança do país.

Para hoje estar na equipe brasileira em busca da vaga olímpica, Geovanna contou com a mobilização de toda a sua família, desde sua infância. Ela nasceu em 2002, na cidade de Pinheiros, que fica no norte do Espírito Santo, lugar com pouco mais de 27 mil habitantes, segundo o IBGE.

“Lembro que eu tinha um tio que levava o DVD da banda Calypso [em suas visitas] para poder ouvir na hora do almoço, e eu dançava a coreografia. Ele virou um dia e falou para minha mãe me colocar em alguma atividade física. Minha mãe sonhava que eu fosse bailarina, mas na minha escola só tinha ginástica”, contou à reportagem.

Geovanna diz que sua mãe, Silvana, era dona de casa, e o pai, Amarildo, trabalhava com extração de granito. Ela gostava de brincar de boneca ou na rua com os amigos. Mas, no início, o mais afeito ao esporte era mesmo seu irmão mais velho, João, que praticava diversas modalidades.

Até que a caçula entrou no Projeto Campeões do Futuro e começou a se destacar.

“[Em determinado momento,] ou minha mãe me bancava ou bancava meu irmão, não dava para os dois. Ele focou nos estudos e me deixou na ginástica. Ele começou a querer entender mais do meu esporte, queria entender esse perfeccionismo, as notas, para me ajudar”, lembra.

Formado em educação física, João é árbitro estadual e auxilia a irmã nos treinos. Seu objetivo é ser técnico de ginástica.

Geovanna conta que aos oito anos ouviu de seu treinador que precisava ir à capital, Vitória, fazer um teste.

Ela foi, passou, e a família não teve dúvida: seu pai arranjou um trabalho como montador de equipamentos de academia (hoje ele é pedreiro e entregador de coco em quiosques), e sua mãe alugou sua casa no interior para ajudar a pagar o aluguel da cidade grande. Todos se mudaram.

A ginasta construiu sua carreira na disputa individual, mas seu objetivo era conseguir entrar no conjunto brasileiro.

Conseguiu talvez no momento mais difícil, durante a pandemia, quando treinava em casa. Quem lembra é a técnica da seleção, Camila Ferezin.

Ela conta que convocou Geovanna pela primeira vez para a seleção brasileira durante o período de treinos por videochamada. Foi conhecê-la pessoalmente no trabalho da ginástica do Brasil na cidade de Sangalhos (Portugal), na metade do ano passado.

“Houve mudanças na ginástica rítmica nos últimos anos, e agora um dos pontos que ganharam importância são as ginastas habilidosas. Ela tem esse diferencial com os aparelhos, é como se fosse o nosso Ronaldinho Gaúcho”, brinca.

Após os treinos em Portugal, não houve volta. Geovanna foi chamada para morar em Aracaju, onde fica a sede da Confederação Brasileira de Ginástica e a base da seleção.

“Minha mãe queria ir, falou que ia se mudar, procurar casa lá, mas eu falei que não precisava, que depois a gente se reencontraria no fim do ano. Eu fui criando mais responsabilidade, amadurecendo”, conta a ginasta.

“Na nossa modalidade, não tem como não estar junto . E a pandemia atrapalha muito, porque dependemos do sincronismo, não tem como cada uma estar na sua cidade”, explica Camila.

O atual conjunto brasileiro é composto por, além de Geovanna, Débora Medrado, Beatriz Linhares Silva, Bárbara Galvão, Gabrielle Moraes da Silva e Maria Eduarda Arakaki, a capitã.

Levando essa sincronia ao pé da letra, a equipe brasileira inteira mora em um mesmo prédio, em três apartamentos. Foi só assim que as atletas conseguiram amenizar as dificuldades da quarentena para, na opinião da treinadora, estarem mais preparadas do que nunca.

Mas, quando a equipe estava pronta para voltar a competir, em março deste ano, já focando na classificação para Tóquio, veio um susto.

“A gente já estava no aeroporto para ir à nossa primeira Copa do Mundo, em Sófia [na Bulgária], e recebemos o resultado positivo [para Covid-19] da nossa capitã. As malas já tinham até ido embora”, lembra.

Tiveram de desistir da viagem, isolaram-se, e, nos dias seguintes, quase todas as ginastas também tiveram resultado positivo para coronavírus. E teve mais. Depois dessa quarentena, novamente no dia de viajar para uma etapa da Copa do Mundo, a única atleta que não havia sido infectada, foi –esta acabou substituída a tempo do embarque.

O adiamento das competições em razão da pandemia também deu à equipe brasileira, que ficou com o bronze no geral do Pan de Lima, no Peru, em 2019, mais tempo para amadurecer.

O bronze marcou o fim de uma hegemonia de 20 anos e cinco ouros brasileiros seguidos na competição –marca que começou quando a treinadora Camila ainda era uma jovem atleta buscando o primeiro título de Pan para o Brasil na modalidade.

Agora, no Rio, Geovanna sonha com a vaga pelo conjunto brasileiro. Com o Canadá fora da competição (em razão da pandemia), os principais adversários do Brasil são os EUA e o México, este último, o grande rival das brasileiras.

“A gente até evitou esse encontro. Ele ia acontecer na Itália [na última edição da Copa do Mundo], mas eu preferi não bater de frente, ainda mais depois de ir bem em Baku [etapa anterior]. Decidi brigar aqui no Rio, no nosso país”, conta Camila.

O Brasil também estreará seu novo uniforme no Pan.

Geovanna lembra ainda que por anos precisou subir os morros de Vitória a pé para treinar, vender doces e rifas para bancar suas viagens. Mal acredita que competirá pela seleção brasileira no mesmo ginásio que hospedou os Jogos do Rio-2016.

“A série está linda. A gente quer entrar com tudo na arena, ainda mais na arena em que foi a Olimpíada. Isso nos motiva ainda mais.

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