Judoca capixaba será porta-bandeira do Líbano na abertura dos Jogos
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Judoca capixaba será porta-bandeira do Líbano na abertura dos Jogos

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WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) – O capixaba Nacif Elias chamou a atenção quando disputou o Grand Slam de judô de 2009 no Rio. Não apenas por causa do bom desempenho –ficou em segundo lugar na sua categoria– mas também pelo nome. “Representantes do Líbano me viram e falaram ‘poxa, esse cara deve ser libanês!'”, diz Elias.

Não era, mas virou. Naturalizado, o judoca é um dos seis integrantes da delegação do Líbano na Olimpíada de Tóquio e uma das apostas do país para garimpar o ouro. Ele será o porta-bandeira da seleção libanesa na cerimônia de abertura que acontece nesta sexta-feira (23), carregando o estandarte do cedro.

Elias nasceu em Vitória em uma família de origem libanesa. Seus bisavós tinham migrado daquele país havia tanto tempo que o judoca não sabe dizer de que cidade vieram nem quando. A imigração em massa de sírios e libaneses para o Brasil foi particularmente intensa de 1870 a 1930, quando pessoas como os antepassados de Elias buscavam melhores condições de vida.

O atleta fez carreira no seu Brasil natal. “Fiz parte da seleção desde o infantil e passei por todas as categorias”, diz em uma ligação de vídeo, dentro de seu alojamento no Japão. Com um jeitão informal, visivelmente entusiasmado com o campeonato, ele não veste camiseta durante toda a entrevista.

Elias conta que, depois de ter sido identificado como descendente do país árabe, foi convidado para representar o Líbano em competições internacionais. Começou nos Jogos da Francofonia de 2009, em que conseguiu a medalha de prata. “Fui recebido como herói no Líbano. É um povo bastante receptivo que me fez sentir em casa.”

Elias representou o Líbano em diversos torneios que, sem ligação com a federação, não exigiam que o judoca tivesse a nacionalidade para vestir o quimono. Em 2013, no entanto, recebeu um convite para se naturalizar e participar de todas as competições, inclusive a Olimpíada.

“Me ofereceram salário, viagens e treinamento”, diz. Ele explica que o judô libanês é menos competitivo do que o brasileiro e, assim, oferece mais oportunidades para um atleta se destacar entre os seus colegas.

O judoca elenca suas medalhas enquanto fala com a reportagem, na madrugada japonesa. Ganhou ouro nos Jogos da Francofonia de 2013, prata nos Jogos Asiáticos de 2014 e bronze no Grand Prix de Cancún de 2018, entre outras condecorações. Foi eleito o melhor atleta libanês em dois anos diferentes e também considerado o melhor judoca da história do país.

Esta é a sua segunda passagem pela Olimpíada. Em 2016, Elias lutou pelo Líbano e carregou a bandeira do país na abertura, como fará novamente neste ano. Foi eliminado, porém, pelo argentino Emmanuel Lucenti. Àquela ocasião, discursou revoltado contra o resultado. Depois, voltou ao tatame e pediu desculpas. Desta vez, diz, espera realizar o sonho da medalha olímpica.

A vitória chegaria em boa hora para o Líbano. O país não conquista nenhuma medalha desde o bronze de Hassan Bishara em 1980 na luta greco-romana. Além de Elias, a outra aposta libanesa em Tóquio é a atiradora Ray Bassil, que será porta-bandeira ao lado do judoca.

Um ouro no judô seria um alento para um país que vive uma das piores crises de sua história. O colapso econômico fez a moeda nacional perder 90% de seu valor em relação ao dólar em dois anos. Metade da população do Líbano vive abaixo da linha da pobreza.

“Minha intenção é ajudar o povo libanês, que vive um momento difícil”, diz Elias sobre sua performance nos tatames.

Mas o judoca vive também suas próprias lutas. O judô libanês tem poucos recursos, ainda mais nas atuais circunstâncias, com a pandemia. Depois de meses sem salário, Elias chegou a buscar empregos paralelos e fazer uma vaquinha online para se financiar. Cogitou inclusive deixar o esporte. Depois da Olimpíada, quer concluir a faculdade em gestão pública, melhorar o inglês e -quiçá- aprender o árabe, que ainda não fala, apesar da naturalização.

“A rotina de atleta de alto rendimento é complicada, então não consegui estudar muito a língua.” Sabe alguns cumprimentos. Conhece também palavras como “habibi”, que quer dizer “querido”. Justamente como ele diz se sentir, no Líbano. “Eles fazem eu me sentir amado, querido, e querer continuar a luta.”

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