Com crise do clima, mercado de arte tenta mudar impacto do setor no meio ambiente
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Com crise do clima, mercado de arte tenta mudar impacto do setor no meio ambiente

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Críticas ao impacto da vida humana na Terra não são novas nas artes visuais. Olafur Eliasson denunciou o derretimento das geleiras com instalações e fotos de gelos se desmanchando. Frans Krajcberg, ativista ambiental, defendia a natureza com esculturas disformes, em referência ao desordenamento do meio ambiente, para ficar só em dois exemplos.

Mas esses comentários não encontravam correspondência no mercado de arte propriamente. O número de feiras, por exemplo, só cresceu nas últimas décadas, bem como o número de viagens de avião, de gasto de energia e de transporte de obras embaladas com toneladas plástico e madeira.

Obras críticas à presença predatória na Terra, portanto, são levadas de uma ponta a outra do globo causando o impacto que elas denunciam –mas uma série de iniciativas mira mudar esse quadro nos próximos anos, na esteira das discussões sobre a crise do clima.

Uma resposta coletiva à crise do clima nesse setor aparece na criação da Gallery Climate Coalition, a GCC, em outubro de 2020. A organização internacional criou manuais e metas para os membros reduzirem o impacto ambiental, e a ideia é que até 2030 eles diminuam, coletivamente, pelo menos 50% das emissões de carbono e cheguem próximo ao desperdício zero de materiais.

Existem muitas maneiras das instituições culturais mudarem sua pegada ecológica –trocar o tipo de combustível de geradores dos eventos, enviar obras em navios em vez de aviões e priorizar deslocamentos terrestres são algumas delas.

Duas galerias paulistanas, aliás, estão entre os membros da GCC. Lucas Cimino, sócio da Zipper, conta que o espaço já produz energia com placas solares no edifício, recicla os materiais usados para embalagem e tem uma parceria com a SOS Mata Atlântica para reflorestamento.

Na prática, a galeria já emite menos carbono do que produz, e até o fim do ano também deve captar a água da chuva no edifício.

“É uma questão de tempo para isso ser o mínimo que você tem que fazer”, diz Cimino, para quem esse é um movimento similar ao que aconteceu com as redes sociais no começo dos anos 2010. “A galeria não ser só uma questão de arte, mas de referência comportamental, é de extremo valor.”

Cimino conta que o projeto de tornar a galeria sustentável surgiu espelhada no movimento de empresas de outros setores, como de tecnologia, que começaram a reduzir a produção de resíduos e a repensar a poluição que geraram.

Trata-se de uma questão geracional na avaliação de Cimino –e corrobora com isso a série de produtos nas gôndolas que se vendem com um discurso ambiental de embalagens biodegradáveis e insumos não poluentes.

Mas ele também reforça que esse não é um debate que ele vê acontecer entre associações de galerias, por exemplo, e que ainda engatinha no Brasil. Seria factível, então, que um setor que ainda começa a debater o tema reduza em 50% o impacto que gera na próxima década, como a GCC propõe?

Para Cristina Tovoli, diretora da galeria Jaqueline Martins, sim. O espaço passa por uma avaliação geral do que é possível adaptar, apesar de já usarem luzes de led, que gastam menos energia, e terem reduzido a mobilidade de obras.

Ela conta que há uma mobilização da GCC para que os membros forneçam dados a tempo da COP-26, em novembro.

“Parece que chegou a vez de olhar para o setor de arte nessa perspectiva”, diz Tovoli, que já discutia questões de sustentabilidade em outras áreas antes de entrar para o mundo da arte dez anos atrás. “Por isso tanta coisa está acontecendo simultaneamente em instituições.”

O grande problema desse mercado, diz Tovoli, é justamente o transporte. Na escala de uma galeria como a Jaqueline Martins, é possível repensar a logística com alguma facilidade. Mas quando o que está em jogo são Bienais ou feiras como a Art Basel, é mais difícil fechar a equação.

Mesmo assim, esses grandes atores também começam a se movimentar. A Christie’s, uma das maiores caisas de leilão do mundo, se comprometeu a atingir a meta estabelecida pela GCC e também deve mudar o transporte aéreo para o terrestre ou marítimo onde for possível.

Já a feira de arte contemporânea Frieze mudou o tipo de combustível de seus geradores após descobrir que essa era a maior fonte de produção de carbono do evento. As emissões diminuíram em 67% desde que a alteração foi feita, entre 2018 e 2019.

“A globalização levou a uma circulação muito maior de obras e, portanto, a um gasto muito maior de transporte, deslocamento, caixas”, diz Fernanda Feitosa, diretora da SP-Arte. “Cada obra de arte é envolvida num papel, plástico bolha, depois numa espuma, vem uma caixa e, aí, vai para o avião. E depois tudo tem que voltar.”

Para ela, esse é um debate que vem ganhando tração, e indica que alguns artistas, como a Erika Verzutti, também têm migrado para materiais menos poluentes para criar suas obras.

Concorda Brenda Valansi, presidente da ArtRio, que também conta que o evento de 2022 terá uma consultoria especializada em projetos de sustentabilidade para compensar carbono em todas as etapas da feira.

Na SP-Arte deste ano, segundo Feitosa, já há uma nova diretriz no manual da feira para que todos os participantes recolham e tentam reaproveitar o lixo que geram. O evento também contrata, desde 2007, uma empresa especializada em neutralização de carbono.

Ela avalia que o próximo passo para a feira seria criar uma diretriz geral para todas as galerias no evento reduzirem cada vez mais a quantidade de lixo que geram, ou proporem um trânsito de obras que impacte menos o planeta, mas não há planos concretos para isso acontecer.

“O mercado de arte atua dentro de um contexto de pessoas formadoras de opinião e de comportamento”, diz ela, que também acredita que o público da feira deve estar cada vez mais atento a quais instituições culturais se engajam com a discussão ambiental.

“Essa consciência é ganhada com o tempo, que talvez seja maior do que a gente gostaria porque há falta de uma campanha generalizada nesse sentido.”

Metas do mercado de arte Criada em outubro de 2020, a Gallery Climate Coalition, a GCC, tem como meta que seus membros reduzam, coletivamente, pelo menos 50% das emissões de carbono e chegue próximo do desperdício zero de materiais A contemporânea Frieze é um dos membros da GCC e mudou o tipo de combustível de seus geradores após descobrir que essa era a maior fonte de produção de carbono do evento; as emissões diminuíram em 67% desde que a alteração foi feita, entre 2018 e 2019 No Brasil, a galeria Zipper atingiu a meta de zerar sua emissão de carbono com produção de energia com painéis solares, reciclagem de materiais e reflorestamento de áreas de Mata Atlântica; já a também paulistana Jaqueline Martins faz um mapeamento geral do impacto do espaço no meio ambiente para planejar mudanças futuras; ambas são membros da Gallery Climate Coalition Uma série de outros eventos também querem aumentar a consciência do setor em relação à crise do clima, como um leilão da Christie’s, uma das maiores caisas de leilão do mundo, em parceria com a GCC A organização internacional de proteção ao meio ambiente WWF também lançou uma campanha que envolve leilão de obras, campanhas em parceria com museus e em mídias sociais

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