BC precisará se manter ativo no câmbio para evitar descolamento mais amplo do real, dizem analistas
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BC precisará se manter ativo no câmbio para evitar descolamento mais amplo do real, dizem analistas

BC precisará se manter ativo no câmbio para evitar descolamento mais amplo do real, dizem analistas

Por José de Castro

SÃO PAULO (Reuters) – O Banco Central aparentemente conseguiu controlar a fúria dos comprados em dólar, depois de atuação dupla no mercado de câmbio desde a quarta-feira, mas a autoridade monetária terá mais trabalho à frente para evitar que o real volte a ampliar o desvio ante os pares, por questões que envolvem de sazonalidade aos EUA, passando por China.

As análises de profissionais do mercado apontam que o BC agiu certo em suas intervenções recentes, tentando fazer frente a um bilionário fluxo de saída de moeda, segundo comentário nas mesas de operação.

Mas os especialistas também ressalvam que um possível maior ativismo do BC agora viria num momento de mudança de clima no exterior, que está mais favorável ao dólar, tanto por expectativa de aperto na política monetária nos EUA quanto por problemas na economia chinesa, cujo menor passo causa tremores nos mercados emergentes –sobretudo naqueles dos quais é o principal parceiro comercial, caso do Brasil.

Na prática, o BC brigaria contra um afastamento ainda maior da taxa de câmbio em relação a seus rivais, mas com pouco espaço para corrigir o amplo deslocamento já presente.

“Acho que ele (BC) deixou correr solto demais… De certa forma foi pouco ativo, mas agora recentemente acho que agiu bem”, disse Daniel Tatsumi, gestor de moedas da ACE Capital.

“No contexto atual, tudo leva a crer que eles deveriam ser mais atuantes. Tem problemas fiscais ainda a serem resolvidos, o risco de maior fluxo de dividendos por causa da PEC…”, completou Tatsumi, avaliando que as intervenções parecem inclinadas a instrumentos derivativos, uma vez que o fluxo de moeda física está positivo no ano.

Ilustrando os desafios do BC, o diretor de Política Econômica do BC, Fabio Kanczuk, admitiu na quarta-feira que se esperava uma reação maior do mercado aos leilões de swap para amenizar impactos decorrentes do desmonte do “overhedge” e que essa repercussão não veio.

Nesta quinta, a diretora de Assuntos Internacionais e de Gestão de Riscos Corporativos​ do BC, Fernanda Guardado, afirmou que a autoridade monetária não mudou sua forma de atuar no mercado de câmbio e que nunca mira níveis para a taxa de câmbio.

O BC anunciou leilão de swap cambial na quarta quando o dólar estava acima de 5,57 reais. Já com o mercado fechado, a autarquia informou nova operação para o dia seguinte. No somatório, 2 bilhões de dólares em dinheiro “novo” ingressaram no mercado.

Os leilões se somaram às ofertas líquidas e às operações de rolagem que a autarquia vem realizando nos últimos dias como forma de prover liquidez ao mercado num momento de forte demanda por dólar –relacionada ao desmonte de proteções cambiais pelos bancos (“overhedge”) e ao fim do ano, quando aumentam as remessas de lucros e dividendos.

A depreciação do real ante outras moedas pode ser medida de várias formas, sendo uma delas uma comparação entre a taxa média de câmbio num período longo e o patamar atual.

De acordo com um índice de taxa de câmbio do BIS, o real estava, até agosto (dado mais recente), quase 36% mais fraco que sua média desde janeiro de 1999, em termos nominais. Mesmo em termos reais, em que a moeda é “beneficiada” pela inflação mais alta no Brasil, o câmbio ainda estava 21,6% abaixo da média histórica.

TRANSIÇÃO NA POLÍTICA MONETÁRIA

Gustavo Menezes, gestor macro com foco em câmbio na AZ Quest, avaliou que uma atuação mais incisiva do BC no mercado de câmbio a partir de agora poderia ajudar a autarquia a suavizar o processo de transição de uma política monetária muito estimulativa para uma mais contracionista –movimento que tem ocorrido para debelar as agudas pressões inflacionárias recentes.

De forma geral, a alta da inflação exige uma depreciação nominal da taxa de câmbio para que a taxa real se mantenha mais alinhada aos níveis de risco percebidos pelo mercado no momento.

“Você já poderia ter feito mais uso das reservas, é um seguro pelo qual você paga”, disse Menezes, lembrando que outros países também têm enfrentado problemas relacionados ao aumento da inflação. Ele citou o Chile, que na véspera promoveu alta de juros bem mais expressiva que a esperada pelo mercado.

“Isso mostra a dificuldade que temos enfrentado. A inflação prejudica o retorno real da moeda, aumentando a pressão por depreciação”, disse o gestor.

Roberto Serra, gestor sênior de câmbio da Absolute Investimentos, comentou sobre uma tendência de venda de reais que tem se retroalimentado e pontuou que, por ora, o BC conseguiu quebrar essa sistemática.

“O BC quebrou essa dinâmica pelo menos por hoje, mas o mercado tem na memória de curto prazo esse ‘trade’ de desempenho fraco do real. A questão é se esse ‘price action’ (reação de preço) vai se equilibrar.”

Serra chamou atenção para o fato de o real sofrer com maior debilidade mesmo com o aumento dos retornos oferecidos pelos contratos de renda fixa na moeda brasileira –devido à alta dos juros. A taxa básica de juros do Brasil (Selic) saiu de 2% em março para 6,25% e deve seguir em alta para cerca de 9%, estimam alguns no mercado.

“O problema é que quando você vê o ‘carry’ ajustado pela ‘vol’ (volatilidade), você desanima”, disse.

Enquanto a taxa embutida em contratos de real para um ano está em torno de 8,3% ao ano (nominal), a volatilidade anualizada para o mesmo período está em 17,8%, abaixo apenas da atribuída à lira turca, acima de 20%.

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