Ciência não prova que adicção é doença cerebral, diz Carl Hart
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Ciência não prova que adicção é doença cerebral, diz Carl Hart

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A ideia de que a adicção é uma doença do cérebro é um mito, disse o neurocientista americano Carl Hart, 54, em palestra no Fronteiras do Pensamento, nesta quarta-feira (24) em São Paulo. Na fala em que também abordou a liberdade individual, o racismo e a guerra às drogas, ele dedicou parte do tempo a falar dos problemas da ciência relacionada ao uso abusivo de substâncias.

A ideia de que as drogas causam danos permanentes ao cérebro ou mudam a forma como circuitos cerebrais se organizam se popularizou a partir dos anos 1990, especialmente depois que o então diretor do NIDA (Instituto Nacional para Abuso de Drogas, na sigla em inglês), Alan Leshner, publicou em 1997 um editorial na revista Science defendendo a teoria. O DSM-5, manual diagnóstico de doenças mentais, também fala em mudanças estruturais no cérebro dos adictos.

Para Hart, a evidência científica não permite afirmar tais coisas. “Como você pode observar mudanças no cérebro? Nós teríamos que ter imagens dos cérebros das pessoas antes de consumirem qualquer droga e depois para comparar, mas isso não existe”, diz ele.

Além disso, o neurocientista frisa que estudos mostram que cientistas não conseguem afirmar quem é usuário de drogas e quem não é só olhando para exames de imagem de seus cérebros –ou seja, não existem marcadores definitivos nas estruturas cerebrais que indiquem o uso ou abuso de drogas, como existem para outras doenças degenerativas como Parkinson e Alzheimer.

Outro problema da pesquisa sobre uso de drogas é que a literatura científica sobre o tema tende a enfatizar exageradamente os aspectos negativos, afirma Hart. Para ele, isso se explica por excesso de cautela dos cientistas ou pela vontade deles de fazer seus estudos parecerem mais significativos. “Há um incentivo para procurar efeitos negativos. Isso influencia o que nós procuramos e portanto o que achamos” na pesquisa, diz ele.

Muitas das pesquisas de Hart envolvem experimentos em que ele oferece drogas ou alternativas a pessoas em laboratório, sejam elas dependentes químicas ou não. Ele conta que, ao longo dos anos, o principal efeito que observava nos pacientes após usarem uma droga era de que ficavam felizes. “Muitos diziam que me amavam”, lembra, rindo. “Temos uma base de dados enorme de experimentos mostrando os efeitos positivos das substâncias”, afirma. “Nesses tempos, parece que esquecemos a felicidade. As drogas são algo que melhora a vida das pessoas, mas não costumamos dizer isso em público.”

Ao final da palestra, ele lembra das garantias da Constituição brasileira, como liberdade e igualdade, e argumenta que, com a proibição de certas drogas, a promessa não está sendo cumprida. “Podemos corrigir isso, regulando a venda e o uso de substâncias como fazemos com o álcool e tabaco. Isso geraria milhões de empregos e grande arrecadação tributária.”

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