Naufrágio no Canal da Mancha leva a troca de acusações entre França e Reino Unido
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Naufrágio no Canal da Mancha leva a troca de acusações entre França e Reino Unido

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Os governos da França e do Reino Unido trocaram acusações nesta quinta-feira (25), um dia após 27 migrantes morreram ao tentar cruzar o Canal da Mancha, no maior desastre desse tipo na região desde 2014, quando os dados começaram a ser coletados.

O ministro do Interior francês, Gérald Darmanin, disse que os dois países precisam trabalhar juntos, mas logo acrescentou que Londres tem uma má gestão da imigração. A uma rádio local, afirmou que os migrantes são frequentemente atraídos pelo mercado de trabalho britânico. “É um problema internacional; dizemos aos nossos amigos belgas, alemães e britânicos que eles deveriam nos ajudar.”

Já o premiê britânico, Boris Johnson, disse que Paris não está agindo o suficiente para controlar o fluxo de migrantes. Sobre a possibilidade de oferecer uma rota segura para os migrantes pedirem asilo na França, afirmou, por meio de um porta-voz, que a abordagem aumentaria os fatores de atração e “criaria um fator adicional para que gangues explorem pessoas com essas tentativas perigosas [de travessia]”.

O secretário de Estado britânico para assuntos de imigração, Tom Pursglove, informou à emissora BBC que Boris reiterou ao governo francês uma proposta recusada anteriormente por Paris para organizar patrulhas franco-britânicas nas costas francesas, de modo a impedir que embarcações partam do local em direção ao Reino Unido.

O presidente francês, Emmanuel Macron, por sua vez, defendeu as ações de Paris. Durante uma visita oficial à capital croata, Zagreb, disse que a França é apenas um país de trânsito para muitos migrantes e que uma maior cooperação da comunidade europeia é necessária para conter o fluxo de imigração ilegal. Entre as vítimas do naufrágio estão 17 homens, sete mulheres e três crianças, de acordo com as informações mais recentes fornecidas por autoridades locais de Lille, cidade francesa próxima à costa do país.

O ministro Darmanin informou que duas pessoas sobreviveram –um iraquiano e um somali– e estavam com grave hipotermia até a noite desta quarta (24). Os restos da embarcação serão examinados para esclarecer as causas do naufrágio, e cinco pessoas foram detidas até o momento por suspeita de tráfico de pessoas.

Desde o início do ano, cerca de 31,5 mil migrantes realizaram a travessia do Canal da Mancha, e ao menos 7.800 foram resgatados por agentes de segurança, de acordo com os dados locais. O fluxo não reduziu nem sequer com as baixas temperaturas do inverno.

A colaboração entre França e Reino Unido na área para conter a migração histórica é regida pelo acordo de Le Touquet, assinado em 2003. O entendimento prevê que agentes de controle de imigração franceses atuem nos postos da fronteira britânica e vice-versa.

Políticos franceses ligados à ultradireita já tentaram fazer o país abandonar o acordo. Nesta quinta, o Ministério das Relações Exteriores da França disse, em comunicado, que o entendimento continuará a ser a base para o controle do fluxo na fronteira.

ONGs voltadas para a questão migratória se manifestaram após a morte dos 27 migrantes, demandando mais ação dos governos. Algumas afirmam que a forma como o policiamento é feito no local coloca os migrantes em maior risco, ao tentarem fugir dos agentes.

Em um acampamento improvisado na cidade portuária de Dunquerque, imigrantes disseram que, apesar do incidente, continuariam tentando chegar ao Reino Unido. “O que aconteceu foi triste, e estamos assustados, mas temos que ir de barco, não há outro jeito”, disse Manzar, 28, do Irã, à agência de notícias Reuters.

“Talvez seja perigoso, talvez morramos, mas é a nossa chance”, acrescentou o jovem, que deixou seu país de origem há seis meses e chegou na França há 20 dias, depois de viajar a pé pela Europa.

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