'Tenho medo de sair na rua', diz médico que denunciou Prevent Senior
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‘Tenho medo de sair na rua’, diz médico que denunciou Prevent Senior

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O médico Walter Correa Neto, um dos autores das denúncias contra a Prevent Senior, disse que tem medo de andar na rua após sofrer ameaças de diretores da empresa. “Tenho medo de sair na rua. Ando olhando para trás para ver se tem alguém atrás de mim”, disse o médico durante depoimento à CPI da Prevent na Câmara Municipal de São Paulo na manhã desta quinta-feira (25).

Correa Neto disse que aguarda resposta para o pedido de ser incluído no programa de proteção à testemunha. “Tenho medo desde que recebi uma ligação de Fernando Parrillo [um dos donos da empresa] dizendo que eu estava expondo minha filha e minha família ao risco”, disse.

A operadora de saúde tem negado as acusações feitas no dossiê, mas ainda não se manifestou especificamente sobre as declarações de Correa Neto nesta quinta.

Correa Neto está entre os profissionais que elaboraram o dossiê entregue à CPI do Senado que acusa a empresa de prescrever de forma indiscriminada o chamado “kit Covid”, composto por medicamentos sem comprovação para o tratamento da doença.

A prescrição e distribuição do “kit Covid” pela Prevent foram vetadas pelo Ministério Público após assinatura de um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) com a empresa que inclui outras determinações.

O médico, que fazia plantões nos prontos-socorros da Prevent, conta que orientava os pacientes a não tomar os medicamentos e que os prescrevia por uma determinação da empresa. “Ficávamos na dúvida se o paciente voltava ao hospital com sintomas por causa do agravamento da doença ou dos efeitos colaterais dos medicamentos”, disse.

O depoente também acusou Parrillo, um dos donos da operadora, de quebrar o sigilo médico de seu pai, que recebeu prescrição do “kit Covid” assinada por Correa Neto. A Prevent Senior divulgou essa informação durante as investigações da CPI do Senado. “Ele é um mentiroso”, disse o médico que também se referiu à direção da empresa como “uma máfia”.

Em depoimento à CPI, ele também acusou a operadora de saúde de tolerar erros médicos para priorizar a agilidade no atendimento dos pacientes. O profissional disse que presenciou pressão para acelerar as consultas e a existência de um ranking de quais profissionais atendiam mais. “Há pressão por um atendimento muito rápido o que induz o médico a erros, muito tolerados pela Prevent.”

Segundo o médico, a dinâmica de atendimento no pronto-socorro era iniciada pelos enfermeiros que faziam o papel de médicos. “Os médicos só passavam para carimbar e assinar a receita”, disse.

Ele lembrou que foi chamado pelo diretor Fernando Oikawa após passar um dia sem prescrever o kit, em maio do ano passado.

“Ele disse que eu tinha que prescrever. Tentei argumentar que estávamos entregando aos pacientes um pacote de efeitos colaterais pura e simples, mas não adiantou. Ele apresentou os mesmos argumentos do Pentágono [termo usado pela empresa para se referir à chefia médica] de que teriam números muito bons [sobre a eficácia do kit]. Diziam que iam publicar algo e que iam revolucionar a medicina.”

Oikawa foi ouvido pela CPI da Prevent na semana passada e negou a distribuição indiscriminada do kit. Protegido por um habeas corpus preventivo, que lhe garantiu o direito de não produzir provas contra si mesmo, ele disse que os médicos tinham autonomia e que os medicamentos eram prescritos de forma individual, segundo as necessidades de cada paciente.

A CPI da Prevent ouviu também os médicos Andressa e George Joppert, que trabalhavam nas unidades da operadora e também forneceram informações para a elaboração do dossiê entregue aos senadores.

De acordo com a médica, que trabalhou nos prontos-socorros da operadora até agosto do ano passado, havia orientação para alterar a CID (Classificação Internacional de Doenças) após pacientes internados com Covid-19 permanecerem por mais de 14 dias internados.

Joppert também confirmou a prática de alta precoce na Prevent Senior. “Eu chegava no plantão pela manhã com a obrigação de dar alta a pacientes que ainda estavam com baixa saturação [concentração de oxigênio no sangue] e era questionada se adiasse as altas.”

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