Suu Kyi, líder civil de Mianmar deposta pela ditadura, é condenada a mais 4 anos de prisão
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Suu Kyi, líder civil de Mianmar deposta pela ditadura, é condenada a mais 4 anos de prisão

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Um tribunal controlado pelos militares que tomaram o poder em Mianmar sentenciou, nesta segunda-feira (10), a ex-líder civil Aung San Suu Kyi a quatro anos de prisão pela acusação de importação ilegal de equipamentos de comunicação.

A nova decisão ocorre pouco mais de um mês depois de o mesmo tribunal sentenciar a líder deposta a outros quatro anos de prisão por incitação à dissidência e violação de restrições impostas para conter a Covid-19 –a sentença foi reduzida, posteriormente, a dois anos.

Assim, a vencedora do Nobel da Paz pode passar mais seis anos presa em decorrência do julgamento que seus advogados, grupos de direitos humanos e lideranças ocidentais denunciam como uma farsa.

O julgamento, realizado em Naypyitaw, capital do país, ocorreu a portas fechadas, sem observadores independentes. Os advogados de defesa, que vinham sendo a única fonte de informação sobre o processo, são atualmente objeto de um mandado de silêncio sob a alegação de que comentários poderiam desestabilizar o país.

Suu Kyi, 76, parecia calma quando o veredito desta segunda foi lido, de acordo com fontes ouvidas em anonimato por agências de notícias internacionais. Ela também responde por outros nove supostos crimes, como corrupção, fraude eleitoral e violação de segredos de Estado. Se condenada por todos eles, pode pegar mais de cem anos de prisão.

A líder civil, cujo rosto estampou cartazes durante a onda de manifestações que levaram milhares de mianmarenses às ruas contra o regime militar, está detida desde 1º de fevereiro de 2021, quando as Forças Armadas a depuseram junto com outros líderes de seu partido e assumiram o comando do país.

Dois dias após o golpe de Estado, Suu Kyi recebeu as acusações formais pelas quais foi sentenciada nesta segunda. Segundo os militares, um conjunto de rádios walkie-talkie e de bloqueadores de sinal foi localizado na casa da ex-líder durante uma operação de busca. Os dispositivos teriam sido importados ilegalmente e usados sem permissão.

Mianmar vive um cenário de múltiplas crises, em que ao menos 1.400 pessoas foram mortas, e mais de 10 mil, feridas durante protestos contra o regime, de acordo com a Associação de Assistência a Presos Políticos de Mianmar. Também há um movimento de forte repressão à imprensa livre, o que limita ainda mais a possibilidade de uma apuração independente dos acontecimentos no país.

Países ocidentais e organizações de defesa de direitos humanos têm pedido a libertação da ex-líder mianmarense reiteradamente. A Anistia Internacional descreveu a decisão desta segunda como “o último ato no julgamento farsesco contra a líder civil”.

“O circo do tribunal da junta militar de Mianmar, de procedimentos secretos sob acusações falsas, tem tudo a ver com o empilhamento de mais condenações para que ela permaneça na prisão indefinidamente”, disse Phil Robertson, vice-diretor para a Ásia da ONG Human Rights Watch, em um comunicado.

Para a presidente do Comitê do Prêmio Nobel, Berit Reiss-Andersen, a sentença contra Suu Kyi foi um “veredito político”. “Ela continua sendo a combatente mais proeminente na luta pela democracia em Mianmar. O Comitê está profundamente preocupado com sua situação”, disse a norueguesa à AFP.

Apesar de todas as manifestações de repúdio, a condenação já era esperada. Aliados e apoiadores dizem que as acusações são infundadas e planejadas para pôr fim a sua carreira política –a lei de Mianmar proíbe condenados de disputarem cargos eletivos–, enquanto os militares se consolidam no poder.

Filha de um herói da independência de Mianmar, a líder civil, que recebeu o Nobel da Paz em 1991, já havia passado 15 anos em prisão domiciliar entre 1989 e 2010. Depois de libertada, conduziu seu partido a uma vitória esmagadora em 2015. Em novembro do ano passado, a Liga Nacional pela Democracia (LND) venceu novamente as eleições, em detrimento da legenda apoiada pelas Forças armadas.

Os militares, entretanto, alegaram fraude nos resultados –embora observadores independentes não tenham constatado qualquer irregularidade– e assumiram o poder horas antes da posse da nova legislatura por meio da deposição e detenção de Suu Kyi, do presidente Win Myint e de várias outras lideranças civis.

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