Eu não conheço mais Manaus, disse Thiago de Mello a Milton Hatoum
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Eu não conheço mais Manaus, disse Thiago de Mello a Milton Hatoum

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O escritor amazonense Thiago de Mello estava amargurado ultimamente, até sua morte nesta sexta-feira (14), aos 95 anos. Quem vinha testemunhando seu humor era Milton Hatoum, escritor conterrâneo e amigo do poeta desde os anos 1980.

Ele conta que o descontentamento do poeta era reação ao “rumo de destruição” pelo qual passam tanto a cidade de Manaus quanto a floresta amazônica, que sempre foram objeto privilegiado da poesia e do afeto de Mello.

“Uma vez ele me disse ‘Milton, eu não reconheço mais essa cidade’. Mais do que eu, ele –que era mais velho– conheceu uma Manaus em harmonia com a natureza, uma cidade integrada à natureza. Mas depois da Zona Franca, que se estabeleceu durante a ditadura militar, isso foi completamente destruído.”

Mesmo tendo vivido por anos no Rio de Janeiro –onde conviveu com os principais poetas brasileiros do século 20, como Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade– e em diferentes países –ele se exilou no Chile fugindo da ditadura–, Thiago de Mello amava suas origens.

“Ele tinha uma paixão pelo lugar. Ele viveu muito entre Manaus e Barreirinhas [sua cidade natal] e não sentia a necessidade de sair dali. Eu, que saí muito, quando voltei para lá, não suportei aquela pressão e opressão. Mas ele sentia esse enraizamento profundo”, diz Hatoum.

Romancista vencedor dos prêmios Jabuti, APCA e Portugal Telecom –atual prêmio Oceanos–, Hatoum conheceu Thiago de Mello quando este o elogiou pelo livro de estreia “Relato de um Certo Oriente”, que posteriormente foi homenageado numa composição de Mello. “Contente de antigo enleio,/ leigo e longo como o seio/ da linha de uma banda de asa,/ leio e releio o Relato,/ que aconchega lucidez/ e devaneio e me ensina/ porque Milton ao mundo veio” são os versos que abrem o poema “Lucidez e Devaneio”, incluído no volume “Acerto de Contas”.

“Ele era um grande contador de causos e histórias, uma pessoa bem-humorada, afável e generosa. Ele às vezes ligava só para dizer que estava com saudade”, conta Hatoum.

Célebre por demonstrar, por meio de seus versos, o encanto pela natureza, Mello trouxe a Amazônia à poesia lírica brasileira contemporânea -os temas da floresta, do bioma, a relação das pessoas com seu lugar. Hatoum também destaca o caráter social de sua obra, dedicada aos direitos humanos. “Foi um dos pioneiros da natureza, do meio ambiente, pelos quais ele sempre lutou.”

“O seu lado lírico está profundamente ligado à natureza. Ele usa um vocabulário amazônico. Ele não se inibe em citar peixes, frutas e árvores que são tipicamente de lá. Ele não faz isso numa expressão pitoresca. Ele dá a essas características um valor universal. Ele transcende o regionalismo.”

Ainda que notasse a degradação visível com o desmatamento e da poluição dos rios que banham sua região, Mello não vinha acompanhando o atual estágio da crise ambiental com o governo Bolsonaro.

“Ele não estava lúcido nos últimos anos e não viu –ainda bem– o que vinha acontecendo nesse governo”, afirma Hatoum, que termina dizendo que, “em sua memória, nós devemos continuar a batalha pela preservação da Terra”.

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