Afrofuturismo e revisão histórica são foco de museu voltado para a cultura negra
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Afrofuturismo e revisão histórica são foco de museu voltado para a cultura negra

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RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Passado e presente se encontram nas salas de exposição do Muhcab, o Museu da História e Cultura Afro-Brasileira. Inaugurado em novembro na Pequena África, região central do Rio de Janeiro, o espaço valoriza vozes contemporâneas, sem perder de vista o elo com a ancestralidade. Desse diálogo entre passado e presente, brotam elementos para imaginar o lugar do negro no futuro.

“A proposta foi essa desde o início. Fazer um passeio pela representação e a importância dos pretos e pretas na cultura brasileira no ontem e no hoje, pensando na importância que a afirmação disso tem para o nosso futuro”, afirma Leandro Santanna, diretor-geral do museu.

Nesse sentido, o Muhcab incorpora à sua identidade o afrofuturismo, movimento estético e político que olha o passado enquanto imagina novas representações para o futuro dos povos negros.

Essa relação entre o velho e o novo se faz sentir logo no saguão do museu. No espaço, há uma escultura do artista francês Mathurin Moreau que retrata uma mulher negra de traços embranquecidos. É como se o escultor tivesse tentado esconder a negritude da obra, privilegiando padrões eurocêntricos.

No entanto, no mesmo ambiente, uma xilogravura se impõe. Chamada “Oferenda à Liberdade”, a obra também retrata uma mulher negra, só que desta vez nada fica escondido. Ela ostenta com orgulho os traços negros.

“A artista Xilopretura faz um diálogo com a obra do passado, que já era do acervo, mas trazendo essa negritude com mais força, com mais presença”, diz Santanna, acrescentando que a obra sintetiza a proposta da exposição “Protagonismo: Memória, Orgulho e Identidade”.

A mostra de longa duração reúne 86 obras, entre pinturas, esculturas e fotografias. Os trabalhos estão divididos em cinco espaços expositivos, que foram batizados com nomes de figuras ilustres dos movimentos negros.

Na sala que homenageia Grande Otelo, a resistência ocupa uma posição de destaque. Fotografias mostram protestos nas ruas contra o racismo. A imagem de Carlos Marighella –militante que lutou contra a ditadura– está em frente a um painel com o nome de negros que desapareceram durante o regime.

Santanna diz que essas duas obras foram pensadas para lembrar que a luta contra a ditadura também teve participação negra.

“Quando a gente ouve relatos e vê filmes sobre os desaparecidos políticos, normalmente são centrados em pessoas brancas”, diz ele, acrescentando que isso se deve ao fato de que os familiares dessas pessoas conseguiram acessar os meios de comunicação para denunciar os casos com mais facilidade.

“Os pretos e pretas que sumiram vinham de famílias que não tinham o mesmo tipo de ascensão, e elas se calavam sobre esses assuntos. Por isso, imagens de negros que lutaram contra a ditadura acabam ocultas.”

Na sala Aguinaldo Camargo, o que chama atenção é uma obra do pintor e compositor Heitor dos Prazeres. A pintura, de 1963, retrata homens tocando viola e pandeiro enquanto duas mulheres sambam ao som da música. Ali também está a pintura digital “Persistir”, do artista Artedeft. No trabalho, um menino negro está de costas para o observador e de frente para a favela, que se estende diante dele.

As obras estabelecem mais um encontro entre o passado e o futuro. Embora sejam de gerações distintas, o cuidado em retratar corpos negros acaba unindo os dois artistas.

“Foi doido saber que eu iria ficar no lado do Heitor dos Prazeres, que é uma referência máxima para mim. Ele é uma pessoa que fez muita coisa e tirou leite de pedra. Ele foi autodidata em uma época que eu não consigo imaginar o que era ser uma pessoa negra”, diz o Artedeft, que também precisou driblar desafios.

O próprio nome da obra que está exposta no Muhcab é um reflexo disso. Ele decidiu chamar o trabalho de “Persistir”, porque o caminho até concluir a obra foi permeado por contratempos. “Como é uma pintura muito pesada, na primeira vez que fiz ela, meu computador queimou. E, antes, o arquivo dela já tinha queimado e precisei fazer de novo”, conta ele. “Desde criança, a gente precisa persistir para sobreviver.”

Segundo o artista digital, o Muhcab é um reencontro com a própria história. “É um lugar em que você sente uma energia diferente. As pessoas que trabalham lá fizeram algo sensacional. É um museu de história negra feito por pessoas negras”, diz ele. “A gente tem que lutar para voltar aos nossos espaços. Não é ocupar, e sim voltar, porque a gente faz parte daqui.”

Ele se refere ao processo de expulsão das populações negras do centro carioca, região onde o Muhcab está localizado e na qual havia grande presença negra durante o século 19. No entanto, no começo do século 20, o governo promoveu uma série de reformas urbanísticas naquela região para fazer do Rio uma espécie de Paris dos trópicos.

Com isso, houve a derrubada generalizada dos cortiços –habitações populares onde pessoas negras moravam–, num processo deliberado de expulsão da população negra da região central da cidade, segundo Monica Lima e Souza, professora de história da África da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a UFRJ.

Apesar disso, ela diz que as populações negras resistiram, tentando manter de pé casas e modos de vida. Dessa resistência, nasceu o termo Pequena África para designar a região que mantém vivo o legado afro-brasileiro. O local é composto por 15 pontos, entre eles o Cais do Valongo e o próprio Muhcab.

“O museu é parte desse movimento de resgate da história da região e vem com uma proposta muito importante de oficializar essa história. Ele é necessário como um espaço de reflexão e de síntese”, diz a pesquisadora.

Além de preservar memória, o Muhcab aposta na articulação com o território, promovendo encontros culturais e eventos com alunos da rede pública. “O museu não pode ser só memória e monumento. Isso é importante, mas tem que ter atuação”, afirma Marcus Faustini, secretário municipal de Cultura.

Ele diz que a prefeitura carioca vai investir R$ 3 milhões no espaço e que o objetivo é transformar no lugar numa referência internacional de arte contemporânea. “Essa cultura não pode ser pensada só em relação ao passado ou à resistência”, diz Faustini. “A arte contemporânea negra dá caminhos de futuro, de novas vozes e representações.”

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