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Novo ‘Massacre da Serra Elétrica’ escorrega sobre o sangue dos tiktokers

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – “O Massacre da Serra Elétrica”, de Tobe Hooper, lançado em 1974, é cercado de mitos. A começar por um caro aos brasileiros –não há qualquer serra elétrica no filme, mas uma motosserra. Se tivesse uma do primeiro tipo, Leatherface, o brutamontes que conduz o tal massacre, precisaria de uma boa dose de extensões e uma tomada infalível. Os portugueses, mais cautelosos, optaram por apenas “Massacre no Texas”, incorporando o centro do título original.

Não sei bem se a morte de cinco jovens hippies sob o sol infernal do Texas é bem um massacre. O filme teve problemas com censura e colecionou reações exageradas do público, com pessoas que saíam afirmando terem visto um banho de sangue explícito, digno de “snuff movie”. Não é, mal se vê sangue ou gore.

Tudo ajudou a formar o mito que é o “Massacre da Serra Elétrica”, um dos grandes –senão o maior– filme de terror já feito.

Eis que o mesmo título retorna, quase 50 anos depois, agora não mais como um projeto tresloucado de uma trupe de iniciantes, mas sob as mãos da Netflix.

David Blue Garcia, diretor do novo filme, tem um currículo curto como o de Hooper em 1974. Apesar de um bom par de curtas para os quais fez direção de fotografia, desde 2005, seu primeiro longa é de 2018, “Tejano”, e se passa na fronteira do México com o Texas.

Sua familiaridade com esse interior grosseiro foi definitiva para retomar a franquia como uma continuação do primeiro filme. Com exceção do brilhante “O Massacre da Serra Elétrica 2”, de 1986 –que mesmo sob diversos cortes do estúdio, ficou sob a batuta de Hooper–, as outras tentativas de continuar a saga apostaram em outras abordagens, no pior dos casos, explicando as origens do gigante que usa máscara de pele humana, inspirado no serial killer Ed Gein.

Na maioria das vezes, fracassaram seja como filme, seja como revitalização da grife –mesmo que o roteirista Kim Henkel, do filme original, participe em vários deles. Assim, é difícil celebrar esse novo “Massacre”, também com produção e consultoria de Henkel, ainda que ele se esforce em entender o seu tempo.

Se perguntassem à trupe do primeiro filme o que eles queriam dizer com tudo aquilo –como fez Stefan Jaworzyn no livro sobre o filme, publicado no Brasil pela editora Darkside–, saberíamos que o fracasso dos Estados Unidos no Vietnã e a decadência da família americana não eram bem as musas das bugigangas feitas de ossos que empesteavam o set.

Ainda assim, o filme é visto sob essa e outras óticas –daí ser clássico. Mas, antes, é o horror impenetrável concentrado em uma hora e vinte minutos de carne e cinema.

Isso o novo filme entende bem e faz algo raríssimo em Hollywood, uma trama de apenas setenta minutos. Garcia constrói o clima no prólogo e abaixa a guarda do espectador antes dos primeiros jorros de sangue. O problema são os comentários sociais que, em paralelo, jorram dos protagonistas –um grupo de quatro jovens tiktokers que chega à remota cidadezinha de Harlow, no Texas.

Eles levam a reboque um grupo de riquinhos dispostos a transformar a cidade decadente em um novo polo de gourmetização, repleto de restaurantes “instagramáveis”, endereços de brunch e cafés descolados, tudo a sete horas de carro de Austin.

As piadas são óbvias, sobretudo em relação à cultura do cancelamento e das redes sociais que, sem dó, Leatherface vai mutilar. Não deixa de ser espirituoso, mas falta tato para encontrar algum caminho pelas questões raciais –sobretudo com o deslocado Dante, vivido por Jacob Latimore– ou para lidar com o armamentismo civil.

Deste último assunto, aliás, sai a ideia mais genuína. A óbvia “final girl” da vez –a personagem que, nos filmes slasher, é a única a ficar viva–, interpretada por Elsie Fisher, é uma sobrevivente de um desses massacres em escolas americanas, como em Columbine.

Não há a sensibilidade de um Gus Van Sant em “Elefante”, mas Garcia brinca com essa contradição, de uma garota traumatizada que, na hora do aperto, tem de recorrer às armas de fogo para salvar a irmã, vivida por Sarah Yarkin. No final, esse jogo se vira contra o filme porque, em vez de crítica, expressa mais um conservadorismo reprimido, que joga a questão para o “e se fosse com você?”.

O pior mesmo é a conexão que se estabelece com o filme original, recuperando a personagem de Sally Hardesty (a “final girl” de 1974, interpretada por Marilyn Burns), agora sob a pele de Olwen Fouéré. Ela reaparece em busca de vingança, no terço final do filme, quando a ação ultrapassa o terror como gênero.

Basta dizer que o roteiro até faz sentido como uma piada com as mortes em sequência dos slashers, mas isso se junta à tentativa de dar alguma sensibilidade ao novo Leatherface –sob o 1,93 metro de Mark Burnham.

Mas o que é esse personagem, ora sanguinário, ora racional? Antes uma máquina de matar, ele agora é uma criança problemática, abandonada em um orfanato, e que quer punir quem perturba seu único ente querido. A hilária família dos outros filmes foi para o espaço –e, com isso, toda a acidez contra a mediocridade e o capitalismo canibal.

O filme ganharia se tivesse menos câmeras lentas, soluções baratas para “jump scares”, com melhor geografia de cena ou um humor que não dependesse do gore –Hooper, aliás, sempre viu muito humor no “Massacre”.

Esse tipo de filme é um contraponto saudável à moda de Jordan Peele, mas essa patinação fútil sobre o sangue dos tiktokers faz da dança macabra de Leatherface, ao final, um aceno ao popularesco.

O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA: O RETORNO DE LEATHERFACE

Onde: Disponível na Netflix

Classificação: 18 anos

Elenco: Elsie Fisher, Sarah Yarkin e Mark Burnham

Produção: EUA, 2022

Direção: David Blue Garcia

Avaliação: Regular

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