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Sapucaí em silêncio faz lembrar outras ausências marcantes na História do carnaval

Pelo segundo ano consecutivo, nem um surdo, repique ou tamborim se ouvirá na Marquês de Sapucaí durante o carnaval. As escolas de samba — e tudo o que as cerca — se apegam a um esquisitíssimo desfile em abril.

— O prefeito deu a chave da cidade ao Rei Momo na quinta-feira passada? — pergunta a entidade carnavalesca Milton Cunha. — Não deu, né? Aquilo é um ritual, é uma espécie de ordem para as pessoas: “Brinquem! Enlouqueçam!”. Mas agora o povo vai enlouquecer sem ter as escolas de samba. Em abril, quando acontecer o desfile, a loucura ficará apenas na Sapucaí.

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Porta-bandeira da Mangueira, Squel Jorjea é uma das mais inconsoláveis nas redes sociais:

— É muito triste. Vamos trabalhar e esperar abril.

A completa ausência das escolas na Avenida é rara, mas não aconteceu pela primeira vez em 2020. Outro dia mesmo, em 1988, a Vila Isabel era campeã pela primeira vez, com o histórico “Kizomba, a festa da raça”, mas a azul-e-branco do Bairro de Noel não pôde voltar para o desfile das campeãs, cancelado por causa das enchentes (sim, elas tampouco são novidade) que castigaram o Rio.

— Os deuses não quiseram que aquele desfile retornasse à Avenida — lembra Milton Cunha.

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Antes da era das escolas de samba, o carnaval foi cancelado duas vezes, em 1892 e 1912 (números terminados em 2 como o atual; atenção, fãs de coincidências). No primeiro, o ministro do Interior achou que a festa gerava muito lixo, e que junho, com menos calor, seria um mês mais adequado — ele certamente se referia ao odor dos líquidos atirados entre os foliões em “brincadeiras” violentas como o entrudo, potencializado pela temperatura do verão. O resultado era previsível até por Pero Vaz de Caminha, tradicional personagem dos sambas-enredo, 400 anos antes: o povo foi para a rua brincar em fevereiro e teve direito a um segundo turno em junho. O mesmo aconteceu em 1912, quando a morte do Barão do Rio Branco (outra figura eventual de enredos) a uma semana do carnaval levou ao adiamento da folia. Sério? Claro que não. O povo botou a fantasia e foi para a rua pular em fevereiro e na data oficial, em abril.

Na Avenida mesmo, a primeira ausência a entrar para a História aconteceu em 1941, com um dos principais personagens das origens das escolas de samba.

— Paulo da Portela tinha ido a São Paulo — conta o músico e escritor Luis Filipe de Lima, jurado do Estandarte de Ouro. — Voltou correndo para o desfile da escola, na Praça Onze, e trouxe com ele os amigos Cartola e Heitor dos Prazeres.

Prazeres, compositor e pintor, presente à fundação de escolas como a Mangueira, a Vizinha Faladeira e a própria Portela (ainda com o nome Deixa Falar), tinha desafetos em Oswaldo Cruz. Um deles se aproveitou da ocasião.

— Manoel Bambambam era o mestre-sala e valentão da escola — lembra Luis Filipe. — Ele tinha um problema com o Heitor, devido a uma briga antiga, e disse a Paulo que seus amigos não poderiam desfilar, porque não estavam usando as cores da escola.

Paulo ainda tentou argumentar, lembrando da importância dos dois para o samba, mas o bad boy foi irredutível. Resultado: a Portela foi campeã com o enredo “Dez anos de glória” sem Paulo Benjamin de Oliveira, aquele que fez este mundo crescer, segundo o clássico samba “Contos de areia”, de 1984. E ele se afastou definitivamente dos desfiles da escola.

A mesma Portela foi protagonista de outro momento dramático, este mais recente, em 2005: por problemas com os carros alegóricos, a Velha Guarda, maior patrimônio da escola (onde estaria Paulo da Portela, se fosse vivo) acabou barrada do desfile, causando uma comoção no mundo do samba.

A desfeita com a Velha Guarda da Portela é uma das derrotas mais marcantes, mas está longe de estar sozinha nesse rol.

— Esses dramas às vezes acontecem — lembra Milton Cunha. — Como esquecer aquele ano em que as passistas saíram de calcinha e sutiã porque as fantasias não chegaram? E a bateria da Tradição sem roupa, com os ritmistas de calça branca e sem camisa?

Nos grupos inferiores, que não aparecem tanto para o grande público, são frequentes as lágrimas de tristeza. Em 1995, o Sambódromo viu uma escola sem bateria: o caminhão com os instrumentos (ou as “peças”, como se diz no mundo do samba) dos Canários das Laranjeiras sofreu um acidente e não chegou. A escola passou com um enredo sobre o bonde com apenas um ritmista, vestido de verde, diferente do amarelo e branco dos Canarinhos. “Emprestado” pelo Arrastão de Cascadura, que sairia em seguida, ele ajudou a coirmã a manter o ritmo com o surdo, embalando uma parada banhada a lágrimas.

— Saí tocando violão no carro de som do Império Serrano em 2001, com aquele enredo sobre o porto (“O Rio corre pro mar”) — lembra Luis Filipe de Lima, que em março lança o livro “Para ouvir o samba” (Funarte). — Bem na nossa frente estava um contêiner, que era parte do enredo, claro, e passamos o desfile todo querendo saber o que havia lá dentro.

Por um defeito técnico, o contêiner ficou o tempo inteiro fechado, e até hoje não se sabe o que havia lá dentro.

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