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Ex-diarista, Cibele Florêncio muda de vida como ‘a menina do xadrez’

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Cibele Florêncio, 24, sempre foi chamada de Bele, mas no início deste ano ganhou outro apelido: “a menina do xadrez”.

Foi consequência quase natural de uma fama inesperada após sua participação no Campeonato Mundial de Xadrez, com jogos na Polônia de 26 a 30 de dezembro. “Nunca pensei que isso iria acontecer quando eu voltasse”, diz Cibele.

“Isso” vai além do apelido. A moradora de Macaíba, cidade de 80 mil habitantes na região metropolitana de Natal, fazia faxina como diarista até o final de 2021.

Na última quarta-feira (23), começou um novo emprego na área de limpeza do Hospital Rio Grande, que também se tornou seu patrocinador.

Depois do Carnaval, frequentará a faculdade de educação física da Uninassau, que lhe deu uma bolsa de estudos.

E desde janeiro ela administra uma agenda de celebridade, cheia de eventos e entrevistas antes impensáveis para uma pessoa tímida como ela. “Tive que aprender a não ter vergonha”, diz Cibele. “Tô adorando!”

Ela aprendeu a jogar aos 9 anos durante aulas obrigatórias na escola. “As peças me chamaram a atenção. Nunca tinha visto e achei bonitas”, conta. Teve facilidade para entender o jogo, mas seu talento ficou um tempo escondido sob sua timidez. “Quando o professor perguntava o lance, eu tinha vergonha de falar, então soprava a resposta para uma colega.”

Até que veio um torneio para garotas de sua idade. Cibele ainda tinha 9 anos e foi a Natal disputar sua primeira competição de xadrez. Terminou como vice-campeã.

Se pudesse, ela se dedicaria mais ao xadrez desde aquela época, mas esse era um luxo incompatível com sua vida. Sua mãe, vendedora de marmitas, e seu padrasto, piscineiro, criaram com muito custo sete crianças. O sonho de jogar só cabia mesmo na aula de uma hora.

Em 2014, o projeto de xadrez na escola terminou e Cibele passou a praticar por conta própria, às vezes sozinha, no celular. Em outras oportunidades, uma irmã também praticava com ela. “Uma hora, uma hora e meia, quando dava. Eu era diarista, então era difícil.”

Rotina de treinos irrisória se comparada com a de grandes jogadores, muitos deles com dedicação exclusiva ao xadrez e com cerca de 8 horas por dia de estudos intensivos, nos quais inúmeras situações de jogo são analisadas sob variados pontos de vista.

Quando viu “O Gambito da Rainha”, série de 2020 da Netflix, identificou-se do começo ao fim. “Foi muito impactante. A Beth Harmon é minha inspiração. Meu sonho é conhecer a atriz [Anya Taylor-Joy]”, diz, referindo-se à protagonista, uma órfã que toma de assalto o mundo do xadrez dos anos 1950.

Assim como Beth, Cibele teve dificuldade com a inscrição em torneios. Na série, a personagem conta com o sr. Shaibel, zelador do orfanato com quem aprendeu a jogar. Na vida real, a jovem potiguar contou com Ana Lígia Dantas, 42, e André Borges, 44, seus patrões à época.

“Cibele trabalhava com a gente não fazia muito tempo, nos fins de semana. Um dia, um tio reconheceu Cibele como professora de xadrez numa comunidade carente. Isso chamou a atenção”, diz Ana Lígia.

Passadas algumas semanas, Cibele, já campeã estadual, superou a timidez e falou sobre a inscrição do Campeonato Brasileiro. Custava R$ 150, fora de seu alcance. Ana Lígia e André pagaram. E Cibele foi vice-campeã nacional.

“Fiquei muito feliz”, lembra Ana Lígia, que é médica ginecologista em Natal. “Só que não tinha noção do que isso representava para ela.”

Representava muito. Cibele foi vice tanto na modalidade rápida (15 minutos para as jogadas) como na blitz (3 minutos). A enxadrista Renée Brambilla, 33, ganhou em ambas.

Com o resultado, as duas conquistaram vagas para o Mundial, na Polônia. Inscrição (300 dólares), hospedagem e passagem eram por conta delas.

“A CBX [Confederação Brasileira de Xadrez] deu todo o apoio, mas temos poucos recursos”, diz o potiguar Máximo Macedo, presidente da entidade.

“A gente estimula que o enxadrista consiga financiamento, para ter independência. A gente faz as articulações, conversa, tenta ajudar como for possível”, afirma.

Cibele não tinha dinheiro e nem passaporte. Tampouco sabia outra língua. Nunca tinha saído do Nordeste. E tem um filho de cinco anos, que cria com a ajuda da mãe.

Sua situação mobilizou diversas pessoas no estado. Uma vaquinha arrecadou parte da verba, mas longe do necessário.

Parecia que não ia dar certo. Faltando poucos dias para ser tarde demais, o médico Marcelo Cascudo ouviu a história no rádio e botou na jogada o Hospital Rio Grande, que cuidou do bilhete aéreo e do hotel.

Ana Lígia e André Borges, que hoje Cibele chama de madrinha e padrinho, auxiliaram com o passaporte e roupas de frio. Também a levaram ao aeroporto no dia 24 de dezembro, passaram dicas sobre como se virar no exterior e deram um cartão de crédito para uso emergencial.

“Ela gastou R$ 90 no cartão. E isso porque a gente insistiu para ela comer uma pizza, pois não estava se alimentando direito”, conta Ana Lígia.

Cibele diz que foi com muito medo. “Medo de ficar presa, de perder o passaporte, de acontecer algo ruim. Mas sabia que podia mudar minha vida.”

No torneio, Cibele e Renée ficaram entre as últimas, mas isso era o de menos. O que valia era a experiência. Ainda mais porque tinham se classificado num Campeonato Brasileiro mais fraco, convocado em cima da hora devido à pandemia.

Ainda assim, Cibele impressionou. A pedido da reportagem, o grande mestre André Diamant, treinador da equipe olímpica feminina do Brasil, analisou uma partida em que ela só perdeu por ter ficado sem tempo.

“Jogou extremamente bem”, diz Diamant. “Um nível elevadíssimo. Acredito que seja um grande talento.”

Agora Cibele quer conseguir se dedicar apenas ao xadrez. Sua vida melhorou, mas ela precisa acordar às 4h para chegar ao hospital às 7h, onde trabalha em dias alternados até as 19h, e volta para casa depois das 21h.

Quando começar a faculdade, a rotina será mais puxada. Ela diz que, se conseguir comprar uma moto, já vai melhorar.

Cibele nunca foi de desistir. Aos sete anos, estava ajudando a limpar o quintal quando derrubou uma brasa no pé. Logo surgiu uma bolha enorme, e a marca do acidente ela carrega até hoje.

Só que, no dia seguinte, ela iria competir numa “maratoninha”, prova de algumas centenas de metros para crianças. Não teve dúvidas: foi para Natal mesmo assim, pois o prêmio era a bicicleta que ela tanto queria.

Correu descalça, porque a bolha não a deixava calçar o tênis. Ela ainda se lembra da dor. Mas a dor era menor que a vontade de vencer. E ela venceu.

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