1% mais rico ganha 38,4 vezes mais renda do que os 50% mais pobres

Mix Vale

A parcela de brasileiros que faz parte do 1% com os maiores rendimentos mensais recebe atualmente, em média, 38,4 vezes mais do que a metade da população do país com os menores rendimentos. É o que mostra a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) 2021: Rendimento de todas as fontes, divulgada nesta sexta-feira pelo IBGE.

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Segundo a pesquisa, a concentração de renda por essa comparação mostrou trajetória de redução entre 2012 e 2014, caindo de 38,2 vezes para 33,5 vezes no período. Em 2014, porém, voltou a crescer até atingir o maior nível da série histórica (39,8 vezes) em 2019, antes da pandemia.

Renda no menor patamar em dez anos

A pesquisa mostrou ainda que a renda dos brasileiros nunca esteve tão baixa. O rendimento médio domiciliar per capita caiu a R$ 1.353 em 2021. É o menor valor em dez anos, considerando a série histórica iniciada em 2012.

Inflação e desemprego altos, além de queda no valor do auxílio emergencial contribuíram para a baixa, diz o IBGE.

— Tem efeito pandemia, efeito inflacionário e efeito da retirada desses colchões com o mercado de trabalho ainda tentando se recuperar. São vários fatores que contribuíram, não é possível dizer qual preponderou, mas podemos dizer que todos perderam — explica Alessandra Brito, analista da Pnad Contínua.

Ao observar as perdas de renda por classe social, o IBGE constatou que o rendimento dos mais pobres caiu à metade desde 2012. Entre os mais ricos, a perda foi de 7%, também agravando a desigualdade.

Outro indicador utilizado para mensurar a desigualde é o índice de Gini. De acordo com o IBGE, o coeficiente de Gini do rendimento médio per capita subiu de 0,524 em 2020 para 0,544 em 2021, motivado pela redução do auxílio emergencial e mercado de trabalho ainda fraco.

— Os mais pobres perderam bastante em termos de renda — destaca Alessandra Brito, analista da Pnad Contínua.

Entre 2012 e 2015, houve uma redução da desigualdade nessa comparação (de 0,540 para 0,524), que foi revertida a partir de 2016, quando o índice aumentou para 0,537 e subiu até chegar ao maior valor da série histórica em 2018 (0,545). Após relativa estabilidade em 2019 (0,544), o coeficiente de Gini se reduziu em 2020, mas voltou a aumentar em 2021, fechando a série no mesmo patamar de 2019.

“A desigualdade medida pelo Gini aumentou em todas as regiões, sobretudo nas Norte e Nordeste, onde o recebimento do auxílio emergencial atingiu maior proporção de domicílios durante a pandemia de COVID-19 e que podem ter sido mais afetadas com as mudanças no programa ocorridas em 2021”, informou o IBGE.

O economista Marcelo Neri, diretor do Centro de Políticas Sociais FGV Social, vê com preocupação a escalada da desigualdade. Ele lembra que o país já passava por esse aumento da disparidade de renda com a recessão de 2015 e agora experimenta uma piora rápida do índice de Gini na passagem de 2020 para 2021 em meio à má condução dos programas de transferência de renda.

— A pandemia é um fenômeno global, mas há uma dificuldade no Brasil em enfrentá-la de maneira menos instável. E estamos vivendo um terceiro choque agora com a guerra na Ucrânia. E é sempre mais difícil quando você tem sucessivos choques ao longo do tempo. Os últimos pegam a sociedade mais vulnerabilizada.

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