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Produtores querem que Starbucks pague mais por café sustentável

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VITÓRIA DA CONQUISTA, BA (FOLHAPRESS) –

Em uma fazenda de 80 hectares em Barra do Choça, no sudoeste da Bahia, o produtor rural Idimar Barreto Paes Filho, 64, produz por ano entre 400 e 600 sacas de café arábica, seguindo regras de produção sustentável, pelas quais recebe uma bonificação.

Esse pagamento extra pelo cumprimento de diversos parâmetros de sustentabilidade —cuidados com a terra, manejo de água e trabalho decente são alguns deles— precisa subir, demandam produtores e representantes de associações de cafeicultores da Bahia e de Minas Gerais.

O bônus pela produção sustentável está hoje entre R$ 10, quanto paga a Starbucks, uma das maiores redes de cafeterias do mundo, e R$ 45 por saca de 60 quilos de café, afirmam.

Os valores seguem a média mundial, mas os produtores brasileiros defendem que os custos locais são tradicionalmente maiores e subiram até 50% em dois anos.

A Sincal (associação dos cafeicultores) diz que o cafeicultor brasileiro tem custos maiores de produção do que os vizinhos com questões trabalhistas, por exemplo, que elevam os custos da mão de obra. Desde 2020, o setor também sofre com o aumento do preço do petróleo e dos fertilizantes, elevando os custos de produção entre 30% e 50%, conforme relatório de junho da consultoria StoneX.

O grão produzido por Paes Filho já recebeu diversos prêmios ao longo dos anos, sendo o mais recente o do 18º Concurso Nacional ABIC de Qualidade de Café —Origens do Brasil— Safra 2021, promovido pela ABIC (Associação Brasileira da Indústria do Café).

A sustentabilidade, por sua vez, é garantida pelo certificado C.A.F.E. Practices, que obteve há quatro anos da Starbucks, e para quem Idimar Paes Filho vende boa parte de seus cafés especiais, sempre acima dos 85 pontos.

O café certificado é exigência das grandes compradoras de café no mundo, diante da pressão dos consumidores por um café baseado nos princípios de ESG, sigla em inglês se refere às práticas de respeito ao meio ambiente, à responsabilidade social e à governança.

Para Paes Filho, a certificação não tem sido suficiente para obter maiores ganhos com o seu café, contrariando um dos princípios do ESG, que é o comércio justo.

A Starbucks paga a ele R$ 10 por cada saca de 60 kg do grão como bonificação, além do preço normal da saca, cotada atualmente em R$ 1.300. A bonificação, diz o produtor, mal paga a saca de café vazia, que custa R$ 8.

“Bonificação de R$ 10 não compensa. Sou produtor de cafés especiais, e isso tem custo e leva tempo e muito trabalho para conseguir chegar num nível de qualidade que essas empresas exigem”, afirma o produtor da Bahia.

Além da Starbucks, outras empresas também pagam bonificações pela certificação, como a Nestlé (bonificação de R$ 15 a R$ 20) e a JDE Coffee (entre R$ 20 e R$ 30), segundo a Associação dos Cafeicultores do Brasil, a Sincal, sediada em Guapé, em Minas.

A Starbucks, por exemplo, vende em suas cafeterias o pacote de 250 gramas de café em grão torrado por R$ 35, ou R$ 140 o kg. De acordo com produtores, um quilo de café faz 133 cafezinhos, cada um com 7,5 gramas de café.

As únicas que pagam um valor de bonificação mais atrativo ao produtor brasileiro, segundo a Sincal, são as certificadoras UTZ e a Rainforest Alliance, ambas com R$ 45. Outras menores pagam apenas R$ 1 ou R$ 3 por cafés certificados como sustentáveis e de origem comprovada, como desejam mercados mais exigentes.

Presidente da Sincal, Armando Matiello afirma que “as certificações só servem para as comercializadoras de café mostrarem para os clientes e consumidor final que trabalham com café sustentável, mas o produtor não recebe apoio algum, só tem despesa”.

Para ter uma certificação de café sustentável, baseada em regras do ESG (sigla para melhores práticas ambientais, sociais e de governança), o custo varia entre R$ 120 mil a R$ 150 mil, dependendo da certificadora e das condições da propriedade rural, informa Matiello.

Presidente da Assocafé (Associação de Produtores de Café da Bahia), João Lopes Araújo declarou que “a certificação não agrega valor que justifique por conseguir essa qualidade, isso fica mais no marketing das certificadoras”.

Em Luís Eduardo Magalhães (BA), oeste baiano, o cafeicultor Augusto Blanco, certificado pela Starbucks há três anos, também deseja melhores bonificações. “Acima de R$ 50 já estaria bom”, diz o produtor.

Em uma fazenda que produz 30 mil sacas de cafés especiais em Mucugê, na Chapada Diamantina (BA), uma cafeicultora que prefere não ter o nome divulgado disse que buscou outros mercados para fugir de empresas como Starbucks, Nestlé e JDE.

“Possuímos certificados diversos, de café orgânico, biodinâmico, sustentável, e vendemos para cafeterias dos Estados Unidos e outros países da Europa, de forma direta. Não quero essas empresas nem na minha porta”, diz.

Em nota, a Starbucks e a Nestlé não comentaram as bonificações dadas aos produtores. A JDE Coffee foi procurada, mas não respondeu.

Apesar das críticas dos cafeicultores, a Starbucks diz que tem “o compromisso de adquirir café de forma responsável, para o bem das pessoas e do planeta, enquanto trabalhamos para empoderar os agricultores”.

A Nestlé, por sua vez, declarou que “é a maior compradora de café sustentável e certificado no Brasil” e trabalha “garantindo transparência sobre o preço pago ao produtor e remuneração justa”, mas não comentou sobre os valores pagos de bonificação.

Maior produtor mundial de café, o Brasil exporta o grão para 122 países. Estados Unidos (maior consumidor), Alemanha, Itália, Bélgica e Japão são os maiores compradores. Já os principais concorrentes são Vietnã, Colômbia, Indonésia e Honduras.

Em 2021, de forma geral, foram exportadas 40,5 milhões de sacas, com receita de US$ 6,2 bilhões. Até abril de 2022, já foram exportadas 2.808.573 sacas, com receita de US$ 3,1 bilhões.

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