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Ambientalista desaparecido criou projetos na Billings como terapia após morte do filho

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O ambientalista Adolfo Souza Duarte, 41, o Ferrugem, desaparecido desde a segunda-feira (1°) após supostamente cair de uma embarcação na represa Billings, na zona sul de São Paulo, passou a realizar trabalhos sociais e ambientais na região após a morte do filho.

Miguel, 9, morreu há 10 anos, vítima de câncer que tinha sido descoberto dois anos antes. “O trabalho começa como terapia”, diz sua mulher, a manicure Uiara Sousa Duarte, 39.

Quando perdeu o filho, Duarte estava no último ano de história e preparava um trabalho de conclusão do curso exatamente sobre a construção da Billings.

Nascido e criado na região, ele sempre se interessou pela represa, que corta bairros da periferia da zona sul da capital, como o Grajaú, e cidades da região metropolitana, incluindo São Bernardo do Campo e Santo André.

Com a morte de Miguel, o ambientalista passou a realizar pequenos passeios de caiaque no local. Segundo familiares, foi a forma que encontrou para lidar com a tragédia.

Durante esses passeios pelas águas, crianças nas margens pediam para navegar também –vez ou outra, eram atendidas, afirma Uiara. “Ali ele viu que tinha a necessidade de trabalhar com o meio ambiente. As crianças entenderem que deveriam cuidar. Também tratava da questão de evitar afogamento”.

Dessa iniciativa nasceu o projeto Remada na Quebrada e a ONG Meninos da Billings, ambos tocados por Duarte.

Paralelo aos passeios e aos estudos (ele concluiu o curso de história), Duarte ainda encontrou espaços para dar vida ao DJ Ferruge, que se apresentava em festas de casamentos, escolas e outros eventos em sítios no entorno da Billings. Além disso, também foi coordenador cultural do CEU Navegantes.

As diversas atividades de Duarte sempre o tiravam de casa, afirma a mulher. “No domingo [31] de manhã, aniversário dele, ainda briguei, porque queria um almoço familiar. Mas ele estava empolgado com o barco novo”, diz ela.

Segundo Uiara, a embarcação envolvida no acidente é nova, com menos de um mês de uso. O veículo foi adquirido por um dos sócios de seu marido.

Se a ausência em casa era motivo de discordância, o trabalho na região é celebrado pelos comerciantes, que o consideram um líder da comunidade.

À reportagem, a comerciante Djanira Bispo Santos, 69, que possui um estabelecimento na avenida Dona Belmira Marin, na altura da balsa, a metros do local do acidente, apontou as melhorias obtidas após intervenção do ambientalista.

Uma delas foi um pedido de poda de árvore, já que as copas estavam prejudicando a iluminação e deixando o local escuro. Djanira também afirma que Duarte conseguiu cestas básicas para os moradores durante a pandemia.

O ambulante Edvando Aquino da Silva, marido da comerciante, diz que o ambientalista realizou ainda diversos mutirões de limpeza na represa e no entorno.

Dono do bar em que estavam os dois casais que embarcaram com Duarte pouco antes do acidente, o comerciante Fábio Roberto, 38, era uma das pessoas que acompanhavam as buscas. Ele explicou que muitas lixeiras espalhadas pelo bairro foram feitas manualmente por Duarte, utilizando materiais recicláveis. “Nunca deixou criança passar vontade. Para ele, era tudo sim. Não tinha, não”.

Atualmente, além dos passeios de barco que rendiam alguma renda para a família, o ambientalista também trabalhava como coordenador de um parque na região da represa Guarapiranga.

Inclusive, a família já estava de malas prontas para morar mais próximo do trabalho de Duarte. A mudança também traria um conforto no trajeto de Uiara até o trabalho, com mais opções de transporte.

“Nós estamos migrando para Guarapiranga. Um mês que alugamos uma kitnet, mudei minha filha de escola”, disse ela.

Com o desaparecimento, os planos mudaram. A mulher já conta com a possibilidade de voltar para o Grajaú, bairro em que conheceu Duarte quando adolescentes –os dois estão juntos há 20 anos.

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