Morador de Saltinho, a 174 quilômetros da capital paulista, o veterinário Dênis Chiquito, de 36 anos, se orgulha de nunca ter votado no PT. O apoio, que era depositado em candidatos do PSDB à Presidência e na maioria das vezes também para o governo estadual, no entanto, mudou de mãos. Desde 2018, ele se identifica como bolsonarista e votou em Tarcísio Freitas, candidato do presidente Jair Bolsonaro (PL), na disputa ao Palácio dos Bandeirantes. Chiquito é cristão, contra o aborto, a favor da flexibilização do acesso às armas e não tomou — “nem irei” — dose alguma da vacina contra a Covid-19.
— Não gostava do PSDB, mas era a opção que tinha contra o PT. Com Bolsonaro, tenho afinidades éticas e morais. Sou católico, em hipótese alguma irei contra o princípio da vida — diz Chiquito — Também me identifico com a defesa da liberdade, minha mulher está grávida e meu filho também não tomará a vacina contra a Covid. Tenho porte de arma para defender minha família.
Chiquito é frequentador assíduo de clubes de tiros e tem registro na categoria dos colecionadores, atiradores e colecionadores (CAC). Seu relato não é raro em Saltinho, município de 8.400 habitantes na região de Piracicaba, exemplo do conservadorismo no interior de São Paulo, onde o ex-presidente Lula não consegue repetir o favoritismo registrado no plano nacional. Lá, o eleitorado costumava votar em peso nos candidatos do PSDB, mas com o encolhimento da sigla, Bolsonaro é quem está em evidência.
Bandeiras verde e amarelas decoram as vitrines das lojas e as fachadas das casas. Faixas e toalhas trazem os dizeres “fechado com Bolsonaro”. Saltinho foi o município onde Bolsonaro registrou proporcionalmente mais votos em São Paulo no último domingo (75,7%), reproduzindo feito registrado no segundo turno de 2018, quando nove em cada dez votos válidos foram para o atual presidente, que enfrentava o petista Fernando Haddad.
A região, onde o antipetismo é explícito, tem peso significativo nas eleições. Se fosse um estado independente, o interior paulista (que inclui o litoral) seria o maior colégio eleitoral do país, com 18,2 milhões de eleitores. A região metropolitana soma 16,45 milhões. Minas Gerais, o segundo maior colégio eleitoral do país, tem 16,29 milhões.
No primeiro turno da eleição para o governo de São Paulo deste ano, Haddad teve um desempenho bem pior no interior do que na região metropolitana. O petista venceu na capital e em cinco das oito maiores cidades do entorno da capital (São Bernardo do Campo, Diadema, Mogi das Cruzes, Mauá e Carapicuíba). Já o ex-ministro Tarcísio de Freitas (Republicanos), que disputa com ele o segundo turno, obteve vantagem folgada e venceu nas 16 maiores cidades no interior, entre elas Campinas, São José dos Campos, Ribeirão Preto e Bauru.
O candidato de Bolsonaro ainda conseguiu ganhar terreno na Grande São Paulo, onde o eleitorado costuma ter mais afinidade com a esquerda. Tarcísio ficou na frente, por exemplo, em Guarulhos, Osasco e Santo André.
Mesmo com a grande quantidade de eleitores, Lula não pisou na região no primeiro turno. Apenas seu vice, Geraldo Alckmin (PSB), rodou o estado ao lado de Haddad. Os dois visitaram juntos mais de 18 cidades. Ainda assim, Lula e Haddad perderam para Bolsonaro e Tarcísio no berço político de Alckmin, o Vale do Paraíba, e até mesmo em Pindamonhangaba, terra natal do ex-governador.
Já Bolsonaro fez motociatas ao lado de Tarcísio em pelo menos oito cidades: Araçatuba, Barretos, Campinas, Glicério (sua cidade natal), Presidente Prudente, São José dos Campos, São José do Rio Preto e Sorocaba. Nos eventos, foi apresentado como um “homem de bem”, seguidor da Bíblia e defensor da família.
Colonizada por imigrantes italianos no fim do século XIX, mão de obra nas lavouras de café após a Abolição, Saltinho se emancipou de Piracicaba em 1991. Hoje sua principal atividade econômica é o cultivo da cana-de-açúcar.
Nos últimos 20 anos, nenhum candidato petista a presidente venceu em Saltinho. Mesmo Lula em 2002, na única vez na história em que um petista recebeu mais votos no estado de São Paulo para o Planalto, conseguiu a façanha. O candidato do PT teve 43% dos votos válidos, contra 57% de José Serra (PSDB).
Hélio Bernardino, o atual prefeito, que é do PSDB e apoiou Bolsonaro já no primeiro turno, acredita que as características de Saltinho casam bem com as posições conservadoras do eleitorado local.
— Temos uma extensa área rural e, apesar de estarmos próximos de uma cidade de médio porte, Piracicaba, mantemos nossas tradições e costumes próprios — diz.

