Então é Natal e o que o carioca fez foi decoração verde e amarela. Emclima de Copa do Mundo, não tem bom velhinho que resista a uma vuvuzela. Pelasruas do Rio dá para ver: a dupla comemoração invadiu a casa de dona Maria deLurdes Pereira da Silva, de 80 anos, carinhosamente conhecida como Vovó Tricolor.A janela do apartamento, na Tijuca, na Zona Norte, já dava a deixa do momento: bandeirado Brasil e bibelô de Papai Noel posicionadas lado a lado.
A paixão por futebol da Vovó começou aos 11 anos de idade, quando foiao Maracanã pela primeira vez assistir o Fluminense jogar em uma excursão docolégio interno. Desde então, ela se dedicou a acompanhar o time e o esportetodos os anos. Foi nessa escola que ela também descobriu outro fascínio: as festasde Natal e São João.
— Quando eu era jovem, estudava em um colégio interno e lá elesselecionaram algumas alunas mais comportadas para assistir a um jogo noMaracanã. Eu me empenhei e consegui ir. Fiquei encantada! Passei a me esforçar maise ia todos os anos — conta, já lembrando de outros momentos marcantes ainda naadolescência: — No Natal e no feriado de São João, eles decoravam toda a escolapara as confraternizações, eu ficava alucinada. Davam roupas caracterizadaspara a gente, decoravam tudo e eu aprendi assim — disse a moradora da Tijuca.
Depois desses eventos, ela decidiu levar para a vida o que aprendeu:começou a se empenhar na decoração das festas em casa, e até chegou a serchamada para organizar confraternizações nas escolas dos três filhos, quandoeram pequenos.
Com tiara verde e amarela na cabeça, ela recebeu a equipe de reportagemno portão do prédio. Na sala de estar, há praticamente um varal de pisca-pisca atravessandoo teto, além de três árvores decoradas com bolinhas e penduricalhos. Noaparador, os bibelôs natalinos dividem espaço com cornetas e faixa do Brasil.
O look também reflete a mistura de celebrações. Para a Copa deste ano, atorcedora mais animada e natalina do Rio de Janeiro, mandou fazer, comexclusividade, um vestido de lantejoulas metade verde, metade amarelo. Paracompor o look, uma meia-calça azul e sapatilha branca com fitinhas das cores daseleção, que ela mesma costurou. Na cabeça, o gorro de Natal é todo customizadocom luzes coloridas, broches da bandeira nacional e na pontinha, um brasão comfitas verde e amarelas.
— Eu amo decorar. Acho bonito, é uma festa! O Natal é sagrado e paramim, significa família. A Copa é outra maravilha. Eu fui homenageada a Vovó doAlzirão, aqui da Tijuca. Estou muito triste que os jogos não estão sendotransmitidos lá dessa vez. Mas eu estou acompanhando de Copacabana e da PraçaMauá. Eu amo aquilo lá — declara-se a Vovó.
No comércio, o patrão ficou maluco, mas não exatamente em relação aospreços. A dobradinha dos dois eventos também invadiu as lojas de itens de festado Saara, na região central da cidade. Para cada bandeira do Brasil era um kitde bolas vermelhas purpurinadas. O que vende mais não é consenso.
— Aqui tem saído mais coisas de Copa. É tiara de cabelo, camisa, apito,tinta de rosto e cabelo. Os enfeites de rua já acabaram todos. Vários modelosde corneta também já não têm mais — disse Maria Vicente da Silva, de 54 anos,vendedora de uma loja da Rua Gonçalves Ledo.
Em outra loja, é o Natal que tem enchido o carrinho e cesto dosclientes.
— A grande maioria que entra aqui vai direto no Natal. A sensação queeu tenho é que as pessoas estão carentes dessa aglomeração familiar, é muitosimbólico, além de que tem todo ano, então o pessoal investe mais. Os artigosde Copa do Mundo também têm saído bastante, mas não tanto. Se o time não ganha,o material fica guardado quatro anos, aí já viu — relata a funcionáriaJaqueline Rufino, de 42 anos, responsável pela compra e reposição dos itensvendidos pelo estabelecimento.
Enquanto procurava em uma loja de roupa a camisa ideal para assistir aojogo de ontem, a bióloga Laura Botto, de 23 anos, decorou até a unha com ascores da bandeira do Brasil. A contar com a camisa, o kit Copa estava praticamentecompleto: a clássica vuvuzela, brincos, laço de cabelo. Já o do Natal, ela resolveudeixar para semana que vem.
—Já vi cada coisa linda, vários enfeites que queria levar, mas não iadar tempo. Eu tive que vir rápido para preparar o look para assistir ao jogo,porque é minha folga do trabalho. Quero voltar para comprar a decoraçãonatalina lá de casa, ainda não montei — confessa Laura.
Diretamente de Campo Grande, na Zona Oeste do Rio, as irmãs Thalita Peçanhae Samara Guimarães, de 19 anos, aproveitaram a viagem para comprar enfeite paraas duas ocasiões.
— A gente veio comprar vuvuzela e outros artigos da Copa, e aproveitoupara levar uma árvore de Natal e as coisinhas para enfeitar, as bolinhascoloridas. Estamos bem animadas — disse a mais velha, Thalita. “Batendo perna”juntas, elas fizeram um verdadeiro tour pelo comércio de rua do Centro em buscados itens ideais. Só discordaram com a data de montagem das decorações.
— É Natal e Copa tudo junto. Trabalhamos juntas no restaurante do nossopai e já enfeitamos tudo lá. Falta em casa. Vamos montar a árvore hoje mesmo — avisaSamara, no que Thalita retruca contrariada: — Ah não, hoje estou cansada.
A competição mais importante do futebol normalmente é disputada no meiodo ano. Dessa vez, a Copa do Mundo está acontecendo entre novembro e dezembropor causa das altas temperaturas do Catar nos meses de junho e julho.
Em Copacabana, na Zona Sul do Rio, a gerente de loja Patrícia Marques, vivencioua mistureba com clientes querendo comprar tudo junto.
— Tem uma Copa dentro do Natal, então é natural que isso aconteça. Desdeo comecinho da Copa temos vendido mais artigos de futebol, tanto que a gente nãotem mais nada quase. Saiu muita bandeira, muito apito, vuvuzela, corneta e tudoque faz barulho — comentou a gerente.

