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Documentário investiga história de menino judeu que se tornou ‘mascote’ de nazistas

O canal australiano de TV SBS anunciou o lançamento de ‘O Soldado Judeu de Hitler?’, que fará parte da série documental ‘Australia Uncovered’. O episódio, que faz parte da terceira temporada do programa, investiga se a história de um jovem judeu que se tornou o soldado mais jovem do governo nazista era de fato verdadeira – “ou uma farsa do Holocausto”.

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Apelidado de “mascote”, Alex Kurzem era um judeu que escondeu seu segredo na Austrália durante quase cinquenta anos antes de decidir descobrir a sua verdadeira identidade. Sua história surpreendente foi revelada pela primeira vez no livro de memórias “O Mascote”, publicado em 2007 pelo filho mais velho dele, Mark.

Em 20 de outubro de 1941, a vila onde Alex morava com a família na Bielorússia foi invadida pelo Exército alemão. Ainda menino, com cerca de cinco anos de idade, ele viu seu pai ser assassinado e, antes que pudesse dividir o mesmo destino com o resto de sua família, decidiu fugir e se esconder.

“Eu não queria morrer, então no meio da noite eu tentei escapar. Dei um beijo na minha mãe e corri para as colinas ao redor da vila”, contou o sobrevivente à BBC, na época de lançamento do livro.

Após a fuga, Alex ficou escondido na floresta, tentando não fazer nenhum barulho. Depois que os tiros pararam, ele tentou buscar ajuda, mas não conseguiu abrigo. Depois de nove meses sobrevivendo na mata, um homem o entregou à polícia local, que mais tarde foi incorporada à SS, organização paramilitar ligada ao Partido Nazista e a Adolf Hitler. Então, Alex acabou sendo adotado por membros do grupo.

“Eles me deram um uniforme, uma pequena arma e uma pequena pistola”, contou Alex. “Me pediam para fazer pequenos trabalhos – engraxar sapatos, trazer água ou acender a lareira. Mas meu principal trabalho era entreter os soldados. Fazê-los um pouco mais felizes”, revelou ele.

A partir daquele momento, Alex se tornou um símbolo do nazismo e chegou a aparecer em filmes da época como “o nazista mais jovem do Reich”. Em 1944, quando os nazistas estavam perto da derrota, Alex foi entregue a uma família da Letônia. Cinco anos depois, eles se mudaram para a Austrália e o sobrevivente decidiu manter seu passado em completo segredo.

“Quando eu deixei a Europa, eu disse: ‘Esqueça o passado’. Você está indo para um novo país e uma nova vida”, explicou Alex. “Eu dizia para as pessoas que tinha perdido meus pais na guerra, mas não entrava em detalhes.”

Em 1997, Alex Kurzem então decidiu revelar o segredo para sua família e começou uma jornada com o filho Mark para descobrir mais sobre seu passado. Depois de visitarem a vila onde ele nasceu, eles descobriram que seu nome verdadeiro era Ilya Galperin e recuperaram um filme no arquivo da Letônia em que Alex aparecia com uniforme completo da SS.

Após a repercussão do livro, a história sofreu acusações de ser uma “farsa do Holocausto”, em 2012. O então aposentado Alex, que ganhava dinheiro suficiente para manter uma vida muito simples em um subúrbio de Melbourne, manteve sua história por décadas.

O jornalista e diretor judeu Dan Goldberg, responsável pelo documentário investigativo que será lançado na semana que vem, conheceu Alex quando ele era editor do Australian Jewish News, há 20 anos.

“Ele era um indivíduo altamente traumatizado e vivia no limite da pobreza”, disse Goldberg em entrevista ao jornal britânico The Guardian. “Ele desligou suas memórias da guerra por 50 anos e manteve isso em segredo. Quando finalmente começou a contar sua história, encontrou resistência de ambos os lados. Ele vivia a sua vida como letão em Melbourne e, quando revelou o seu judaísmo, foi acusado de ser uma fraude tanto pela comunidade judaica como pela comunidade letã. Acho que foi incrivelmente difícil para ele aceitar”, contou o jornalista.

Ao longo dos últimos anos, evidências foram surgindo de que a história de Alex poderia ser verdadeira: um rolo de propaganda nazista de 1943 mostra imagens de um menino conhecido como “o mascote”, brincando com crianças arianas; pesquisas revelaram registos de um massacre que ocorreu em 1942 na aldeia de Koidanov, na Bielorrússia; o diário de um soldado da polícia de Kurzeme, mantido pela Universidade de Stanford, mostra que em 12 de julho de 1942, o soldado registrou que seu batalhão acolheu um “filho adotivo cujos pais são desconhecidos”. Segundo a anotação, o menino recebeu o nome de Uldis Kurzemnieks.

Por muitos anos, Kurzem se recusou a fazer um exame de DNA. Ele finalmente realizou um em 2019, e o teste revelou que ele era 100% judeu Ashkenazi e tinha parentes vivos. “Acho que podemos dizer com certeza que a essência da história de Alex é verdadeira”, afirmou Goldberg ao The Guardian. “A ironia final foi que ele sobreviveu ao horror do Holocausto – e foi abatido pelo flagelo da Covid”. Alex Kurzem morreu de complicações da Covid-19 em 31 de janeiro de 2021.

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