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Saída de jovens de quilombo traz risco à cultura e à produção centenária de rapadura

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SALVADOR, BA (FOLHAPRESS) – A comunidade quilombola Bananeira dos Pretos é conhecida na região de Antônio Gonçalves, na Bahia, pela produção centenária de rapadura. Com a chegada de uma agroindústria —ambiente com equipamentos tecnológicos para a produção agrícola—, o trabalho foi facilitado, mas a comunidade enfrenta um empecilho à continuidade da atividade: a saída dos jovens.

Angela de Jesus, 19, é uma das poucas que optou por seguir carreira com um trabalho em sua comunidade. Técnica em agropecuária, ela se mantém no quilombo por enxergar importância em preservar a tradição local.

“Me formei ano passado na Escola Família Agrícola, que foi uma norteadora. Abriu meus olhos para que eu pudesse enxergar a riqueza que eu vejo na minha comunidade”, diz.

Continuar em Bananeira dos Pretos, no entanto, tem sido exceção à regra, e a maioria dos jovens acaba saindo em busca de oportunidades.

“O principal fator que eles comentam é a falta de emprego, falta de trabalho. ‘Como é que eu vou permanecer aqui se eu não consigo arrumar um trabalho com que eu possa me manter?’”, relatam, segundo ela. “Nem todos os pais têm condições de manter aquele filho em uma faculdade.”

De acordo com o agricultor Nelson Pereira, 38, a dificuldade é grande porque o trabalho é pesado.

“Estou tentando achar uns cinco [jovens] para trabalhar comigo e ainda não há pessoas certas para trabalhar nessa nova unidade. Os jovens daqui, a maior parte deles com razão, estão estudando, e os outros trabalham fora”, afirma.

Hoje com 28 anos, Andreza da Silva é uma que precisou deixar a comunidade pela dificuldade de arranjar emprego na região de Antônio Gonçalves. Há cinco anos, mudou-se para Salvador. Desde a então, trabalha como diarista na capital baiana.

“Antigamente, bem mais jovem, eu trabalhava na feira, vendia verdura que meus pais plantavam, só que minha avó adoeceu e a gente optou por deixar a plantação. Terminei o estudo e depois eu decidi sair”, conta. “Os mais jovens não querem assumir a responsabilidade. Ali [no quilombo] tem quase ninguém, alguns já são senhores e não aguentam muito.”

As tradições que sustentam a comunidade enquanto território quilombola também ficam em risco com a saída da nova geração, fato que preocupa tanto quem fica como quem sai.

“Antigamente, era uma comunidade quilombola que tinha bastante coisa, capoeira, samba de roda, toda semana tinha alguma coisa para simbolizar o quilombo. Hoje em dia não tem mais”, observa Andreza. “O pessoal gosta da Festa de Reis, antigamente tinha todo ano, mas não existe mais isso. O pessoal foi viajando, foi embora, alguns que gostavam saíram e os que ficaram não deram continuidade.”

“Se lá tivesse emprego para oferecer eu acredito que muitos jovens não sairiam. Se eu arrumasse uma proposta boa, eu voltaria”, diz ela.

A instalação da agroindústria, em agosto, implicou adaptação do local de trabalho às normas sanitárias, possibilitando assim o certificado da rapadura e dos demais produtos com o selo da Agricultura Familiar. A comunidade fornece sua produção para mercados e feiras de cidades da região, como Senhor do Bonfim e São Gonçalo.

A tecnologia, que ainda está em fase de testes pela comunidade, tornará o trabalho mais rápido e ampliará a variedade de produtos. Agora, o maquinário tem um maior número de tachos e é movido a energia elétrica, dispensando o uso dos animais, antes necessários no processo. Atualmente a produção inclui somente a rapadura e o melaço.

“Agora vai dar para fazer mais durante o dia, porque, como é na energia, anda mais rápido. Como antes era puxada a boi, era muito devagar. Mudou bastante e vai melhorar mais. Vamos procurar fazer mais alguma coisa, fora a rapadura, como o açúcar mascavo”, diz Jivonilde da Silva Pereira, 34, presidente da Organização Quilombola de Desenvolvimento Mandacaru, associação de Bananeira dos Pretos.

A agroindústria foi instalada na comunidade por meio da Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR) do governo do estado da Bahia, por meio do projeto Pró-Semiárido.

Certificada pela Fundação Cultural Palmares desde 2006, a comunidade só passou a ter acesso a água encanada no ano passado.

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