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Do lixão de Gramacho para o trem: Homem-Aranha ‘desenvolveu sentidos’ para se pendurar em transporte cheio

Até para um super-herói os perrengues da SuperVia não estão aliviando. Nesta quinta-feira, uma cama transformou num caos a manhã de milhares de passageiros de trens no Rio. O móvel jogado do alto de um viaduto na Mangueira, na Zona Norte, sobre a rede aérea da linha férrea atrasou em mais de uma hora e meia a busca do Homem-Aranha do Trem pela Mary Jane. Uma das estratégias do humorista e animador Eduardo Peter, que trabalha há 8 anos dando vida na linha férrea ao personagem das revistas em quadrinhos publicadas pela Marvel Comics, para aliviar o transtorno do dia a dia no trem é participar de grupos online para ficar por dentro dos perrengues sobre trilhos do dia.

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Entre os mais de 17 mil passageiros que perderam viagens nesta quinta, número baseado em usuários de uma semana atrás até 9h, ele foi destaque na SuperVia. Na reportagem do RJTV, da TV Globo, Eduardo apareceu fantasiado de Homem-Aranha reclamando da falha. Apontando para o relógio imaginário e sem prédios para agarrar sua teia com o movimento das mãos, a imagem do rapaz, conhecido por animar o transporte ferroviário, caiu nas graças da galera.

— O atraso prejudicou o meu trabalho, fiquei mais de uma hora e meia esperando. Quando saio para trabalhar vestido de Homem-Aranha é com a meta de salvar as pessoas dos estresses do dia, deixar o dia delas um pouco mais feliz e ali ficou difícil, a SuperVia me atrasou para salvar o mundo — explicou o gesto que aparece na imagem.

No dia a dia, o super-herói enfrenta outras dificuldades no seu trabalho. Como animador de festas, ele já se atrasou e já até perdeu um serviço pela demora do trem. Em outra ocasião, na estação da Penha, mesmo em um dia que não estava vestido com capa de super-herói, Eduardo já salvou uma mulher que ficou com a perna presa na porta do trem.

— Eu estava esperando para pegar o em sentido para Gramacho, até que vi no da Central ela com a perna presa para dentro do trem e o corpo para fora. Já estava puxando ela quando eu corri e joguei meu corpo contra o dela, com o impacto nós dois caímos no chão e ela conseguiu se soltar — lembrou de um problema que presenciou devido a um desnível da plataforma.

O morador de Jardim Primavera, em Duque de Caxias, que já sai de casa fantasiado, contou ainda que “os seus sentidos aranha” também foram desenvolvidos por conta da lotação do trem. Quando começou, em 2016, ele ainda não sabia se pendurar e nem andar pelo teto do transporte. Aos poucos foi aprendendo com treinos em casa para tornar o personagem mais real e prático para a sua rotina:

— Hoje em dia, quando o trem tá muito cheio, tem o pessoal até que pede para tentar abrir espaço para a minha apresentação. Eu me penduro fácil e vou por aí pelo Rio fazendo o pessoal sorrir.

O Homem-Aranha do Trem é misterioso, ele não revela a sua idade e nem o rosto por trás da máscara. A ideia dele é deixar que cada um tenha liberdade para criar a própria imaginação sobre quem dá vida ao personagem vivo:

— É o meu compromisso principalmente com as crianças, gosto de deixar livre o pensamento delas para eu ser quem elas queiram.

A vontade de fazer as pessoas sorrirem e fugirem um pouco da sua realidade vem de um passado difícil. Aos 11 anos, Eduardo foi deixado pela mãe em um orfanato onde ele viveu até os seus 18 anos. Quando saiu, ele a reencontrou em Duque de Caxias e começou a sobreviver no lixão de Gramacho.

— Eu comia e vivia daquelas coisas do lixão, minha vida era lá. Minha vida foi toda com dificuldade, foi tudo sofrido e eu sei que todo mundo está enfrentando alguma coisa, então eu busco aliviar um pouco as coisas ruins que as pessoas estão sentindo.

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Um tempo depois ele participou do grupo de artes no Teatro Municipal de Bangu, onde teve o seu primeiro contato com a encenação. Porém, não imaginava que iria ganhar a vida com o seu desempenho artístico. Também foi encanador, caldeireiro e pintor industrial. Há oito anos, ficou desempregado e começou a vender caipirinha no Posto 8 da Praia de Ipanema, mas ainda não se sentia realizado. Em uma das voltas do trabalho, sentado no trem, ele entendeu o que queria fazer da vida:

— Vi um cara trabalhando vestido de Pantera Negra e achei super legal, quando desci na estação de Madureira eu saí e vi de cara uma fantasia de Homem-Aranha. Tomei coragem e experimentei, assim como o primeiro traje do Peter Parker a minha era horrível de colocar e muito feia — brincou o rapaz, que começou o trabalho apoiado pelos amigos.

Hoje em dia, o trabalho de Homem-Aranha e de animador de festas sustenta a família de Eduardo, encanta o filho dele com o sonho realizado de ter um pai super-herói e já foi tema até de música: “Dois para lá e dois para cá, uma mão vai na frente fazendo trem, trem, trem”, diz a letra dele que procura a Mary Jane pelo Rio de Janeiro no “desce e sobe no passinho novo do Homem-Aranha do trem”.

— Já fui chamado para programas de televisão e de rádio, e é uma satisfação porque muita gente dizia que eu não ia chegar a lugar nenhum e hoje eu tenho uma vida estabilizada e sustento minha família com o meu trabalho — revelou o rapaz que sonha em trabalhar em um programa de auditório.

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